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quinta-feira, março 12, 2009

O Senhor Etecetera

Olá kiduchos.
Bom, já não escrevo nada para o blog, assim, à séria, há demasiado tempo.
Deixo aqui um pequeno texto que já tinha escrito em Dezembro de 2008 e que é baseado num sonho que tive... já não me lembro quando, mas muito antes disso.

O SENHOR ETECETERA


Sonha com o senhor Etecetera, rapaz novo e aprumado, de cabelo negro de azeviche com risco ao lado. Usa suspensórios e camisa branca. Tem um sorriso jovem, aberto e cativante. No sorriso mostra toda a juventude e jovial alegria. É um rapaz com os seus vinte e poucos anos. É o senhor Etecetera que, sentado à secretária, a recebe sorrindo, dentro daquele quarto (será dele? Será dela?) e aponta para a máquina de escrever colocada em cima da secretária, num convite para começar a escrever de novo. Será um anjo, um espirito-guardião, um guia, este senhor Etecetera, que a recebe tão bem e a convida a retomar a escrita?

Ele olha directamente para ela e, ao seu lado, em cima da secretária, está a antiquada máquina de escrever, muito parecida com a primeira que teve, anos atrás. Era o oitavo ano e na altura servia para fazer trabalhos escolares. O senhor Etecetera é tão simpático, não força nada, não impõe – convida com uma jovial alegria. E de repente lembra-se de Júpiter, o Soberano Principal, o rei dos deuses.

Nunca mais tornou a sonhar com o senhor Etecetera, com os seus suspensórios e camisa branca, com o seu sorriso de inspiração e com a sua juventude, mas nunca mais esqueceu este senhor. Gostaria de voltar a sonhar com ele, mas se calhar os guias, ou deuses, só avisam uma vez do caminho a ser trilhado ou (re)tomado. Só uma vez os deuses nos visitam.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Conto e não só

Escrito a 7 de novembro de 2007

Uau. Há exactamente um ano atrás.

Conversas com o meu Eu Superior

Eu: olá, tudo fixe?
Eu Superior: ´tou a comer.
Eu: Mentira.
ES: Ah pois, lol. Vais trabalhar? (¨Vou.¨) Não te canses. A vida são dois dias. Quando cá chegares há farturas à tua espera. (¨Ah! Que bom! Tenho perguntas¨.) Agora não, pensa enquanto eu como. ¨És gordo.¨ Só hoje. Hum, que bom. ¨Abençoa-me o dia, por favor.¨ Considera-te Abençoada!

E foi esta a ¨conversa¨ que tive há exactamente um ano atrás. Será que se eu a retomar hoje ele já terá terminado o lanchezito? É que o tempo lá por cima não é tão rígido como cá por estas, err, planuras.

Eu: Eu Superior, ´tás decente?
Eu Superior: Avatar! Avatar, quase que tive saudades tuas!
A barba dele vibrava, quase.
Eu: Quase...?
ES: Não queres farturas, espero. É que esta é a última - diz, escondendo-a atrás das costas. Mas depois arrepende-se e diz: mas quando vieres definitivamente há aqui um montão à tua espera!
(O meu Eu Superior é um bacano: vai dar-me farturas... daqui a 5 ou 6 décadas. Bacano, o gajo.)
Eu: Eu... preferia falar sobre a Vida, o Universo, a Alma, a Razão das coisas, de Tudo, sobre qual o Objectivo da vida, da Criacção. Sobre qual é o objectivo da minha vida. Qual é a razão de estarmos aqui, percebes? Porque é que eu estou aqui? Compreendes?
Após um longo silêncio ele estende-me a palma da mão e revela-me:
- Não há farturas, mas ainda temos amendoins.

Após um silêncio um bocado lixado da minha parte o gajo insiste:
- Amendoins, queres...?

Isto não há condições para se ter uma conversa Transcendente com ninguém, irra.

Entretanto a 1 de Novembro de 2008, um dia depois de ter feito a minha oitava doação de sangue (sou altamente altruísta e coisa e tal) escrevi um pequeno conto. Aqui fica.


NUNCA MAIS FOI VISTO

Era uma vez um homem que tinha um isqueiro. E perdeu o isqueiro num dia enevoado cheio de odor adocicado no ar, antes da tempestade, dos trovões e da chuva despencarem na antiga vila piscatória (mas que já não é piscatória porque todo o peixe emigrou e até a água do mar é importada), enjoativa - a vila - como que a preparar-se para a decadência e a velhice marítimas.
Ele, que se chama Bruno, perdeu o isqueiro e deixou de ser feliz porque um homem sem isqueiro é mais triste que um homem calvo: onde se põem as mãos se não se pode brincar com o isqueiro?
E o pior disto tudo é que o Bruno nem é fumador. Anda a ver se tenta há anos, a história de enfisemas na família que ceifaram uma caterva de tios é que o retém no limiar - fumo, não fumo? Fumo ou não fumo? Nunca comprou cigarros nem cravou um, jamais, a qualquer desconhecido à porta do hipermercado porque é sujeito tímido, educado com maneiras pelos pais, e agora sem isqueiro não vai ter desculpa para formar um vício respeitável (antigamente respeitável, decerto, mas ao menos mais respeitável que o da cocaína).
De ombros descaídos e cabeça tombada sai do umbral que o protege da enxurrada e corre até à paragem da carreira.
O isqueiro nunca mais foi visto com vida.


Entretanto oiço Hespèrion XX de Jordi Savall: el Cancionero de Palacio (1474-1516 - época dos reis católicos de Espanha). Muito bom.

[Random thought: e pensar que em 1473 faltavam 500 anos para eu nascer...!]

quinta-feira, junho 19, 2008

Histórias de Amor

- Não sei viver histórias de amor porque é difícil vivê-las. Medo, medo do outro, medo do medo. Passar calmamente a vida inteira dedicada à auto-análise e ao cultivo de rosas sem espinhos.
- O amor é difícil viver? Porquê?
- Porque sim. Há quem se entregue. Os idiotas, esses entregam-se. Que o coração seja pisoteado e publicamente sangre, em forma de humilhação, não se importam.
- Há riscos.
- Sim, para quê corrê-los.
- Não acreditas no amor?
- Não sei. É uma febre passageira. A pulga que morde e nos infecta. É um estranho e afectuoso bicho a devorar-nos as entranhas e achamos delicioso o fogo que nos arrebenta e consome. Sim. Há riscos. Ah pois, acredito pois claro.
- Alguém que não acreditando, crê; alguém que vê e não arrisca.
- O medo é imenso, maior que o fogo do amor, o risco de ser consumido, devorado em labaredas de paixão que deixam ruínas e destroços dos quais não se pode reconstruir a casa, os alicerces que antes reinavam.
- Fora com o velho, viva o novo.
- Não há material suficiente nem para uma reles cabanita.
- Vive perigosamente: na rua, ao sol, à chuva. Ao frio.
- Com o coração amarrotado e desfeito?
- Com um corpo vivo e livre. Vivo e livre.
- E o espírito morto?
- Ah, isso já é escolha. A tua escolha. A tua decisão.
- É suposto que abra o peito a outra humilhação e dor?
- É! É isso sim, é esse o caminho!
- Só se formos parvos.
- Eu, por exemplo, fui parvo uma vintena de vezes. Só me lembro dos momentos bons. O coração é um saco de memórias onde guardo as boas, a felicidade, a alegria, para entregar quando morrer a deus com um muito obrigado por me ter deixado vir à terra para ver o meu coração esfacelado pelas almas que amei e me amaram a mim. Um muito obrigado, deus, pá, és um tipo porreirinho. Tens um cigarro?
- Quem, eu ou deus?
- Deus, é claro.
- Então a nossa missão na vida é sofrer.
- É! Com alegria! E depois parar de sofrer e sorrir e dar mais, dar mais do que se recebe.
- Isso é perda de funções mentais. Uma pessoa que ama, ama e não recebe nada em troca é parva se, em troca de dor, indiferença e humilhação, dar mais ainda.
- Não, o amor não exige troca. Quem ama ama. Amar é uma acção de alma solitária. Não precisa de outro para amar. Não precisa de reciprocidade.
- Precisa.
- Não.
- Precisa.
- Não.
- És burro.
(Silêncio.)
- Muito burro.
- Hum, mas tive uma vintena de vezes com o coração fora do peito, a apanhar ar e a receber os raios do sol nos ventrílucos. E tu, há quanto tempo não o deixas sair dessa caixa escura onde o amordaças e amarras? Quando morreres vai estar murcho e não vais ter nada para oferecer a deus a não ser uma saca velha minguada e borolenta. É muito triste, morrer sem nada para devolver à Fonte. É mais triste que ver o coração pisoteado e pisoteado. Porque tem sempre remendo. Mas da morte não há remendo e se sais da vida com um saco absolutamente seco, árido e vazio... então já não tens remédio. (Silêncio.) Dá-me outro cigarro, se faz favor.

(Deu-o em silêncio de olhos fixos e penetrantes como se estivesse concentrado num dos grandes enigmas da história, de importância capital, ressentido por ver-se obrigado a trabalhar nele pois era tempo perdido: nunca ninguém o resolvera. Deram-lhe o nó górdio para deslindar como prova de exame final e proibiram o uso da espada. Umma perda de tempo, uma perda de tempo.)

E do peito do que tinha o cigarro aceso ascenderam gotas de sangue à camisa. Era o coração a sair porque tinha intuído a presença de uma mulher bonita, no fundo, ao pé das janelas, na rua. Estava na areia de pés descalços com as unhas pintadas a vermelho, olhando com gulodice os bolos no expositor.

(Escrito a Dezembro de 2007.)

terça-feira, junho 17, 2008

Até Amanhã

- Tenho uma grande incapacidade.
- Tens?
- Tenho. A incapacidade de ser generoso. Escondo o coração nas mãos a sangrar.
- Ah... hum?
- A sangrar. Porque no peito rebenta-me os pontos. Não há dinheiro para pacemakers.
- Eu gosto de ouvir ruído. De ir à cidade e ouvir barulho. As pessoas não gostam de estar sozinhas consigo mesmas. Dói-lhes a alma.
- A mim os pontos rebentaram.
- Da alma também?
- Da operação que fiz ao apêndice.
- Não acredito em operações.
- Eu não acredito em médicos, nem nos espanhóis. Têm um som cálido, de gozo, na língua. É uma voz de verdades.
- Não sei no que crer. Acreditar é tão difícil. Os acontecimentos não deixam. Conheci uma russa que é cozinheira e ganha cento e dez contos por mês. A renda é de setenta. Leva duas horas para o trabalho e outro igual no regresso a casa.
- Arrendada.
- Sim, isso.
- Eu acredito na vida e no amor.
- Eu também.
- Ambos sabemos que é mentira.
- Sim, tens razão. A mentira é confortável. Hoje fui aos Bombeiros. Ver os carros.
- No vinte e cinco de Abril fazem procissãos nas ruas.
- Viva a Liberdade!
- Viva...
- Mais entusiasmo, caneco.
- Humm. Viva. Viva, viva. Viva.
- Viverei. Camarada: viverei eternamente na sombra da vida.
- Isto já são horas.
- Ora então até amanhã.
- Até amanhã.
- Afinal não jogámos às cartas.

(Texto feito a 17.05.08. Na altura escrevi: Torno a escrever, se bem que pouco. Influência de Marte em trânsito em trígono com Neptuno natal - que rege a casa cinco - da criatividade -? Neptuno em trânsito na casa 3 - escrita -; Marte na 9 em trânsito, Marte natal na casa 6.)

quarta-feira, março 05, 2008

O Candidato a Escritor

Deixo-vos com um conto já aqui publicado em Dezembro de 2005.


E quanto à análise da F., amiga de uma amiga, passei das 12 mil palavras 0_0
(Só para terem uma ideia: um livro anda por volta das 50 mil palavrras...)

Eu Entusiasmo-me, porra...
Agora só falta rever.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Amantes e Gatos

Escrevi este texto para participar neste desafio do Escreva!

E, porém, não segui as minhas próprias regras, lol: o texto tem bem mais do que as 300 palavras estipuladas :p Gostei da história e no entusiasmo, enfim, prossegui.

I hope you enjoy.

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Hoje de manhã ao sair de casa tive um encontro inesperado com o fantasma do meu gato morto. Na verdade parecia ser a mistura, esse gato, de todos os gatos que eu amei e tive. Era em parte branco, mas, num golpe de luz (ou de plasma esotérico ou seja lá o que for) o dorso brilhava em azul de cetim, na cor da noite, ou em cinzento – e aí lembrava-me da Queiroz, a minha gata que morreu e por quem chorei.
Mas este era indubitavelmente macho. E tão vívido de carnes e presença física que duvidei por instantes tratar-se de um fantasma.
Falou comigo.

- Olá – saudou-me. - Está um belo dia para andar pelas ruas.
- Ah sim. É vero.
- Já não te recordas de mim.
- Pois claro que recordo: és a quinta-essência dos gatos, és todos os gatos que eu já tive e vou ter. O próximo quando chegará à minha porta, podes dizer-me?
Ignorou a questão. Ao invés sacou de um cigarro não sei de onde, já aceso, com incomparável destreza filídia tendo em conta que gatos, enfim, não possuem polegares, e pô-lo na boca.
- Isso faz-te um mal...
- Estou morto – relembrou-me.
- Ah pois, é vero.
(Senti-me estúpida.)
- Vim lembrar-te que éramos amantes no Antigo Egipto.
- Nós? Mas tu és um gato.
- A tua perspicácia para o óbvio é notável porém pouco rara. É facto: sou um gato. Tu eras um sacerdote.
- Eu?! Deus Santíssimo: eu abusei de gatos!
- Não, não. De todo. Éramos amantes a um nível mais... espiritual. Tu eras o meu marido e eu o teu marido.
- Esta conversa é por demais absurda. Vou-me embora.

Ele acabou o cigarro, deu-lhe um piparote novamente com considerável destreza felina e miou que não, não fosse, por favor ficasse.
Senti-me ridícula e envergonhada. As coisas inenarráveis que o meu antigo Ser fez aos gatos. Ó, Deus Altíssimo, o castigo!, nem quero imaginá-lo.
Ensaiei uma desculpa. Ele emitiu um som de desprezo por entre a boca sem lábios que se enredou nos bigodes reluzentes.
- Antigo Marido – disse, pousando formalmente a pata direita no meu joelho esquerdo (eu ajoelhara-me), - vim apenas relembrar-te o quanto te amei, o quanto me amaste. Foi um belo tempo, o nosso, milénios atrás. Havia incontáveis manhãs iguais a esta. O meu coração ainda bate no teu, o teu coração está ainda alojado no meu e, por mais pessoas que eu ame no futuro, quero dizer-te que a ti vou amar-te por todo o sempre.
Envergonha-me confessá-lo: chorei.
Chorei tanto. Ele veio relembrar-me um amor que eu não sabia ter tido. Chorava ainda quando pediu indicações para a papelaria para comprar tabaco. Não fez tentativa de consolo, não tentou parar as minhas lágrimas... talvez porque a minha tendência “para o óbvio” ser “notável porém pouco rara”. Se houve e há amor para quê chorar? Não é lógico?

Porque me abriu ele o coração assim? Talvez para eu deixar entrar ar nele, uma brisa, uma água, um cheiro a terra molhada e a eucalipto.
Levantei-me. Estraguei as meias de vidro nos joelhos, sujei as botas de terra. Foi como se uma chuva tivesse vindo e me tivesse limpo todas as impurezas passadas.
Ó, Deus Sereníssimo, como eu amo os gatos!

sábado, julho 14, 2007

CONTO DO GAJO SEM NOME

Ele tem planos, tem demasiados planos. Em mão. E desconfianças. Mas desconfianças cultivadas para mitigar o sereno tédio diário da sua vida. É um homem de 42 anos com a aparência de 50. Por não ter de trabalhar para viver - vive de um pequeno, mas modesto fundo que herdou do tio-avô paterno, legado mais por piedade que por sentimentos de afeição - e por ter um apartamento pequeno herdado da mãe, não o mortificam pensamentos como os da maioria da população. Onde vou arranjar dinheiro para pagar ao banco a prestação que voltou a subir? Como vou comprar os livros aos miúdos em Setembro? E agora, doente, estou de baixa e a receber menos, como é que eu faço face às despesas? E o miúdo tem de ir ao dentista. Onde é que eu arranjo 60 euros?
O seu martírio é o de arranjar divertimento quotidiano para afastar a modorra da existência.

Vê os vizinhos, emigrantes a viverem cada casal no seu quarto, a chegarem e a partirem dos apartamentos vizinhos. Vê os sacrifícios, os alugueres exorbitantes. Cheira-lhes os sovacos perfumados a suor após dia valente na labuta. Quase sente inveja e a seguir recorda que não, assim é melhor: passar pela vida como quem está no convés de um cruzeiro às ilhas gregas. A Mikonos. À Turquia. O Mediterrâneo (imaginado) por lar. O seu Mediterrâneo é o suave embalo do lento imaginar de vidas alheias, inventar-lhes histórias e vivências que não são as reais.
O filho será dele, do ucraniano loiro com a dureza de mármore puro no olhar azul? Não. O miúdo tem bochechas vermelhas de boneca de porcelana branca, cabelo castanho-escuro espetado e lábios cheios de puta de bordel.
Decide. Imagina. Foi assim.

O ucraniano para ganhar a vida na terra dele fazia uns biscates para alguma rede informal de escravatura branca. Um dia coube-lhe em missão transportar um bebé de 22 meses. Era para ser vendido a pais adoptivos desesperados. A criança silente e adormecida fê-lo recordar as miúdas de 7, 10, 12 anos que levava sabe Deus para onde. Abandonou tudo, que era pouco. Nada disse a ninguém. Pagou papéis falsos. Na Polónia. Na Sérvia. Escondeu-se da polícia na França, na fronteira espanhola. Chegou a Portugal. Trabalhou nas obras anos a fio como ilegal. Não lhe pagavam, os patrões. Legalizou-se há cinco anos. O miúdo é português. Está cá desde os três anos. Português. Mais português do que aquilo é impossível. O seu ídolo é o Ronaldo. A equipa preferida o Benfica. Gosta de sardinhas assadas e é maluco por caracóis. O pai (adoptivo), o pai em segunda-mão!, foi levado a agir por uma culpa que gotejava para um alambique escondido no coração, uma culpa que era a faca quente a deslizar no peito. Assim uma dor serena e morna e profunda apesar de a faca deslizar à superfície - como um tubarão a fingir-se solitário. A barbatana que vemos não pertence aos dentes que nos arrancam a carne.

Mas quando chegou a loira platinada, falsa, alta, sorridente, de mini-saia, a chorar e a abraçar marido e filho ele teve de redefinir a história.
Ah não. Pois. Vê as parecenças com a mãe. E, quando o ucraniano chora e abraça a esposa que mandou vir da pátria anos atrás, distingue as semelhanças do pai com o garoto. Há algo presente ao redor dos olhos, uma triste beleza. Um baixar de guarda que os aparenta. O filho é maternal; o pai rígido e duro. O filho é como uma mãe para o pai. A mãe afinal esteve de férias na terra natal, visitou a velha avó, doente e cega. E o casal só alugou a casa vai para quatro meses. Como é que ele só se apercebeu disso agora?

(Que nome hei-de dar a este gajo? Sugestões?)

Ocupa-se então a imaginar a vida alheia da menina do terceiro esquerdo. Muito bonita. Mas ele é imune a tesões. Passa pela vida como velho satisfeito pelo que viveu - apesar de nada ter vivido. Vive a falsa sabedoria dos idosos.
E há a vizinha do lado, velha de facto e mais calada que o nosso homem. Essa seguramente era a mais interessante. Hum. Nem sempre. Havia em Matilde, de 75 anos, qualquer elemento indefinido que o perturbava. Como a mosca sente uma inqualificável perturbação no ar antes de aterrar de cabeça na teia da aranha diligente.
Ele não gosta do nome Matilde. Por uma certa aversão e inquietação tende a não se alongar no imaginar de uma outra vida para a vizinha do lado.
Por exemplo, o recém- reformado do outro prédio é decerto espião da CIA no activo.
Porque...
(Detém-se, o nosso homem, de caneca de café com leite na mão, a segurar as páginas iniciais do Correio da Manhã e com um olhar vazio pregado na gaiola do canário deserta.)

Ora, porque sim. Espiões no activo lêem jornais e sentam-se na esplanada e em bancos de jardim a apanhar sol.
Têm de o fazer. Deveres contratuais.
(E este tipo de quem desconheço em absoluto o nome dá um estalinho com a língua, arrota, encosta-se para trás, no rosto o sorriso da Monalisa, contente pelo belo passeio - sem ondas - no seu Mediterrâneo particular.)

El Ditador! Olé!

Era uma vez um Salazar ditador que era gay. O que pouca gente sabe, gentis leitores, é que o Salazar gostava de levar no cu e tinha medo de ratos (hi-hic, dos pequenos e nojentos). O Salazar foi gay desde sempre e já em pequeno era sodomizado. Na barriga da mãe já Salazar era paneleiro. Depois cresceu, meteu-se nas economias e arranjou maneira de se apegar ao tacho de Ditador-Mor de Portugal. Era um bom trabalho, em consonância com o seu feitio porque assim ia ao cu a toda a gente, o que era bonito de ver. O Salazar tinha ministros e também os fodia. Todos, todos sem excepção (menos um muito lá ao canto com cara de fuinha e que lhe lembrava um rato quando franzia o nariz, assustando-o. A esse o Salazar Mor-Ditador – olé! - não tocava. Podia ter peste, IstoNuncaSeSabe).

O Salazar era também um grande filho-da-puta. Ora eu realmente não tenho provas concretas de que a mãezinha ganhasse a vida horizontalmente a abrir as perninhas (não se passava recibos na altura), mas o facto é que ele o era.
Está então estabelecido que Salazar era: maricas e um filho-da-puta*. (Com hemorróidas.) Estão a seguir-me, caros leitores? Ainda bem. Por Deus, por nada deste mundo quero que percam o fio à meada.
Para que serve este pequeno exercício? Ora para muito pouco: para provar que homem nenhum é eterno e que não há tribunal terreno que lhe valhe e que o que, um dia, se disse à boca pequena, noutros dias se dirá abertamente, gritando-o bem alto ao mundo. Se me apetecesse eu podia comprar um megafone, ir para a anteriormente denominada Ponte Salazar e gritar a plenos pulmões: Salazar era filho-da-puta. Quero também ver se há por aí algum filho-da-puta que se atreva a pôr-me um processo de difamação. Sim, gostava de ver: cidadã da Decrépita Democracia Portuguesa (DDP) posta em tribunal por ter chamado filho de meretriz ao cabrão do senhor Doutor Salazar, a.k.a, o Botas.

Quanto a outros e certos e determinados políticos ainda não lhes posso chamar pelos nomes devidos - mas descansem que eu vou viver muito tempo. Posso esperar. Daqui a cinquenta anos estão o gajos a fazer cal e eu continuo viva...



*(Não é minha intenção ofender nem trabalhadoras de sexo nem homossexuais. Falo a sério. Peço desculpa se o fiz, mas reitero que não é esse o meu objectivo.)

segunda-feira, abril 09, 2007

AS DUAS PARTES

[O outro conto que faltava.]

As duas Partes encontraram-se num espaço neutro, nem céu nem Terra nem Reino lá de Baixo, mas num espaço que Deus ainda não tinha enchido com a sua criação, não sabia o que fazer com ele, estava à espera da contribuição das almas humanas que a Ele regressassem, talvez tivessem ideias melhores. O espaço era vazio. Deus criou uma sala, grande, e dividiu-a ao meio; de um lado Ele, do outro a Outra Parte e sua entourage. Ao meio, entre as duas, estava uma mesa redonda, em cima dela estavam talheres, guardanapos, copos e um tabuleiro de xadrez ao centro. As peças dormitavam, algumas ressonavam.
As peças do lado do Bem (sejamos claros, pois é do Bem que se trata) dormitavam placidamente enquanto que as do Outro Lado às vezes abriam um olhito e mandavam pedritas contra as peças do Bem, que oscilavam, mas não se manifestavam. Continuavam na sua placidez de sono adormecida.
Deus estava sentado do seu lado e esperava. A Sua paciência era infinita. A outra Parte estava atrasada, como sempre. Fora Ele que pediu o encontro, tentar arrumar as coisas antes que chegassem a um ponto de não retorno, ao caos total, e Ele amava demasiado a Sua criação para permitir isso.
Os anjos e querubins do seu lado esperavam também, atentos. Serviriam os bolos e doces conventuais em que a Outra Parte tinha parte do mérito na criação. E, aliás, ele pelava-se por doçaria conventual. Às vezes adiava as patifarias só para poder degustar toucinho-do-céu ou maminhas de freira (ó, o que ele adorava maminhas de freira! Deus também, verdade seja dita). Os querubins, menos habituados à paciência, torciam-se, mexiam-se, implicavam com o querubim do lado, puxavam-lhe os caracóis, riam-se e suspiravam de enfado. Os anjos mais velhos jogavam às cartas sentados no chão e os arcanjos olhavam para as suas trombetas e tinham saudades dos cd´s de jazz que tinham em casa, no reino dos céus.
Até que, enfim, um ponto muito ao fundo se foi tornando maior. A Outra Parte apresentava-se ao encontro.

Vestia-se como um príncipe renascentista, com capa e luvas e trajes ricamente decorados a pérolas, ouros e jóias. A barba estava soberbamente cortada e caminhava com calma arrogância e o desprezo de quem se sabe superior a todos os presentes.
A outra parte andou lentamente até à mesa, retirando com cuidado a luva que deixava à mostra mãos longas, brancas e de unhas tratadas e, com desprezo, sentou-se no seu lado depois de um diabinho obsequioso ter puxado a cadeira. O Mestre pôs uma perna em cima da mesa, derrubando copos e deitando um prato ao chão, estilhaçando-se com estrondo. Colocou a luva vermelha na mesa com imenso desdém. A sua entourage, ao contrário do que se esperaria, não era muito larga, alguns diabos e diabinhos em treino, tão apáticos e patéticos como sempre, quão diferente as criações de uma e de outra parte! Uma nascida do amor, da pura arte pelo amor da arte, a outra nascida de intenções egoístas, narcisistas, egocêntricas, onde não cabiam o livre-arbítrio, por isso eram cópias más da verdadeira criação.
O Gajo Mau, o Diabo, o Príncipe Veneziano, enfim, chamemos-lhe o Príncipe, fazia barulhos com os dentes, chupando-os e olhando fixamente Deus. Deus abriu os olhos e sorriu. Sorria sempre ao ver uma das suas criações, era quase um tique nervoso.
¨Como estás, velho?¨, disse o Príncipe, mas na verdade estava-se nas tintas. Ele só ali tinha ido por uma razão, já sabia que não ia haver acordo nenhum uma vez que fora quebrado, o que o aliciara foram os doces conventuais. Divinais, sobretudo se feitos por mãos puras e divinas. As freiras que ele desencaminhou só porque eram boas cozinheiras! A arte culinária nas mãos de quem ama não tem comparação. Os diabos eram uns azelhas a cozinhar e quem ele desencaminhava pouco depois perdia o mágico toque, o que o forçava a procurar novos pasteleiros.
¨Vai-se indo, vai-se indo. Assim assim, sabes como é, a idade não perdoa¨, disse Deus. Deus, envelhecer? Será lá isso possível? Convenhamos. Adiante.
O Príncipe disse ¨Hum¨ com um desprezo tão grande nesse murmúrio gutural que Deus não pôde deixar de rir para dentro. A seguir mandou que os anjos servissem as iguarias.
Os anjos tinham mourejado nas cozinhas do céu dias seguidos, aconselhados por pasteleiros de renome, mortos ou não. Apareceram em redopio resmas de bolos e doces. Ele eram pudins, bolos de dois e três andares, bolinhos, bolões, bolachinhas com molhos por cima, morango, mel, chocolate, todo o tipo de doces de comer e chorar por mais. E o Príncipe comeu, olá se comeu.

Arrancou pedaços dos bolos às mãos-cheias, sem se preocupar em usar talheres nem pratos nem sequer em esperar para ser servido, punha largos pedaços dentro da bocarra, que se alargava e alargava à medida que ele comia mais e mais. De um único golpe abriu a boca que se estendeu para trás, a cara recuou, o queixo desceu, e engoliu um bolo de dois níveis, limpando os dentes depois e dando um enorme arroto que abalou a sala. Não partilhou nada com os diabos. Os diabinhos tentavam pegar as migalhas, mas o Príncipe enxotava-os com as botarras e ao murro. Deus, ao contrário, comia delicadamente uma fatia de pudim de laranja, cortando pedaços mínimos e degustando cada um com imenso prazer, enquanto os anjos, querubins e arcanjos se deleitavam também nos doces. Deus partilhava e esse era também outro prazer. Um duplo prazer divino.

O Gajo Mau olhava, sôfrego, de olhos arregalados, para o lado do Bem, para a quantidade ainda de doces que sobrava. Mas não se atreveu a passar a linha divisória porque tinha medo de ser contaminado pelo Bem e regredir ao seu estado anterior de Pura Luz, que odiava e enjeitara muito tempo atrás para ser anjo rebelde no comando de outros anjos rebeldes. E, aliás, Deus não o permitiria, só que ele não tinha medo de Deus - tinha medo de deixar de ser o que era. Até o Príncipe Malvado tem receios.
De súbito disse ¨Não há acordo nenhum¨. Deus espantou-se e perguntou porquê. ¨O acordo entre nós foi quebrado por Ti.” “Por mim não”, disse Deus. ¨Não me venhas com merdas, velhote, conheço-te de gingeira. Foi um da tua parte, um dos teus membros: a Morte.¨ ¨A Morte é neutra¨, disse Deus. ¨Neutra o caralho. É tua, pertence-Te. Segundo a Carta do Acordo há leis rigorosíssimas que definem o comportamento da Morte e ela quebrou-as. O acordo fica sem efeito.¨ ¨Não¨, disse Deus consternado, ¨vamos remodelá-lo, estou preparado para fazer concessões¨, afirmou candidamente. Estava preparado para dar mais uma parte do Seu Reino para que o Acordo permanecesse Válido, só que o Príncipe além de guloso era ganancioso: queria tudo, o Reino inteiro para reinar em toda a parte como o Imperador do Mal. Talvez um resquício do Bem permanecesse para que os bolos que adorava continuassem a ser confeccionados. Melhor pensando, não, nenhuma mínima parte devia permanecer. O Bem devia ser ostracizado da realidade, do espaço. Matar Deus e pô-lo a ferros. Enclausurá-Lo. E torturá-lo lentamente, ai que gozo! Era a oportunidade perfeita para finalmente quebrar laços com a Carta do Acordo, o comportamento incompetente da Morte dera a desculpa perfeita. Cabra de merda. Cabrão, que a Morte era gajo.
O Príncipe desencaminhava humanos, tornando-os cegos em vida para as maravilhas (puhá!) da criação divina, não conseguiam ver magia em sítio algum, trabalhavam como autómatos a puta da vida inteira, trabalhar trabalhar, ir para casa, dormir, consumir consumir, sem tempo para nada, sem tempo para amar (puhá!) os filhos, a mulher, os parentes, os amigos, os colegas. Amar era passar tempo com eles, ouvi-los, partilhar, estar feliz na sua companhia, mas o Príncipe conseguira extirpar cada vez mais o tempo para isso. Inundara-lhes as mentes pequeninas de sonhos e ilusões, toldara-lhes a visão do que era real e imaginário, dera-lhes fantasias megalómanas, toldando-lhes a visão de si mesmos, o conhecimento interior, e muitos não sabiam que a verdadeira felicidade advinha de uma vida simples, com uma família e um trabalho que, apesar de pagar razoavelmente, os enchia de prazer.
Em vez disso convenceu-os que tinham o Direito a ser felizes e depois que só podiam alcançar a felicidade com coisas. Muitas coisas. Enchiam a casa de tralha inútil, saciando os sentidos, mas nunca a puta daquela chamazinha interior que Deus lhe dera à nascença.
Essa chama: havia que a erradicar de vez, matá-la. Infelizmente era imortal, mas podia abafá-la, cobri-la de lama, dejectos e porcaria, podia cobri-la de tal modo que ela mal respiraria. Ficaria comatosa. Gloriosamente comatosa! Oh, hossanas!, pensava ele com heresia e fazendo pouco do ritual religioso. Felicidade, felicidade.

Era assim que os perdia. E eram seus! Seus por direito! Agora o merdas faz-me esta desfeita, não se faz, não se faz, diz-se , fingindo consternação, como se lhe tivessem tirado o brinquedo favorito, na verdade acabavam de lho dar. Ó, a imensa alegria (puhá), o gozo, o deleite de brincar aos maus, polícias e ladrões, caubóis e índios, Benficas e Sportingues. Cabrão do velho. Estava-me a correr o negócio tão bem, a subida era exponencial, cada vez arrebatava mais almas, tirava-lhes metade do espírito e os homens seguiam pela vida, perdidos sem o saberem, a mourejar que nem escravos para pagar coisas que não precisavam, e depois na morte os diabos iam buscar esses espíritos apáticos, pálidos, sem memória, sem metade da Alma, a Morte não lhes podia tocar, eram MeusMeusMeus. Meus, puta. Meus, só meus. Isto tudo é meu, isto tudo é meu, meu e meu, só meu. A incompetente de merda começou a conduzir os meus espíritos à metade perdida da alma e, com ela, subitamente os espíritos vêem tudo, sabem para onde devem ir, sabem que têm de seguir o caminho do Bem (puhá) e os meus diabos de serviço não os podem já pegar pela mão, conduzi-los ao meu reino e distraí-los com os seus vícios secretos até ao fim da eternidade. Uma vez lá dentro não saem. Saiu um, sacana, nem sei como, mas há mãozinha de Deus nisso, olá se há, não me chame eu Godofredo Henriques (não se chama. É só um esclarecimento aos amados leitores). Uma vez no interior não saem, são meus para sempre. Só porque o negócio me estava a correr bem a Morte começou a roubar-me a clientela. Cabra. Cabrão. Cabra. Ainda te hei-de foder o miolo, haha, não sei como, espera para ver (pensa o Gajo Mau Que Nem As Cobras, palitando os dentes). Agora o Acordo está off e a culpa nem é dele, incrível!, mas da Parte do Bem (puháá) pois apesar de neutra (neutra, era era), a Morte pertence indubitavelmente ao lado bom. Agora finalmente a chance perfeita caíra-lhe no colo. Podia desfazer Deus e a Sua entourage. Apropiar-se de tudo.
¨Não há acordo. Prepara-te para a guerra¨, disse voltando costas e saindo por onde entrara, com a multidão apática de diabos amorfos a segui-lo.

Deus suspirou. Já sabia o que viria daquele encontro, afinal era Deus, . Ele não era surpreendido a não ser pelos homens. E gostava de ser surpreendido. A Outra Parte não o surpreendia. O caminho fácil da Outra Parte era sempre o mesmo. Para que a Outra Parte o surpreendesse o amor teria de entrar na equação, o que jamais ia acontecer. Aliás, era bom que não acontecesse porque sem a Outra Parte deixaria de haver livre-arbítrio no mundo. O caminho fácil passaria a ser o Bem e isso era mau.
Os anjos arrumaram a sala, limparam os cacos, guardaram os bolos e os doces (os que não eram apanhados pelos querubins gulosos), varreram o chão e guardaram o tabuleiro de xadrez que não chegou a ser usado. No fim Deus fechou a porta. A batalha ia começar.