terça-feira, agosto 08, 2006

Boémia

É suposto ser um poema...

(Feito para este desafio do Escreva!)


Vou para o Café Mas no Café não há Artistas
Há o senhor de bigode
(Um dia foi roubado por gatunos e o coitado não tinha seguro e agora paga às prestações à Casa Pia o saque)
De bigode De bigode O senhor
Como é possível escrever em cafés Esplanadas?
Sou boémia (boémia?) à minha secretária
A conversar comigo e com os livros e os projectos

Nunca me embebedei de propósito
Se me embebedar não escrevo
Mas posso vomitar – artisticamente
No café há emigrantes brasileiros e jovens a ler o jornal e malta a pôr a cruzinha no Euromilhões
Nunca por lá vi literatos
A escrever
A declamar
Na estroinice
Ou rambóia
Todos os boémios artistas que eu conheço não os conheço
Ocupam-se em casa a escrever A pintar
É difícil misturar tintas no café Ao pé de um jovem a declamar e de outro a ler o Correio da Manhã e da senhora que bebe o galão
Com um bolo de arroz na mão
Não é assim Não é assim
Ou se escolhe a vida boémia
Ou se escolhe outra coisa qualquer
Todos os boémios que eu conheço
Não os conheço
Ocupam-se no lar da escrita Das Tintas Da vida
Não têm tempo para a despreocupação da vida airada
Ai se assim fosse Airadamente publicar! Airadamente ser famoso!
Facilmente Levemente Na crista da berzundela sai poema imortal Sai obra para a posteridade
Mas não é assim Não é assim Não é assim
Tenho pena mas não é assim



7 Agosto’06

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