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terça-feira, setembro 01, 2009
segunda-feira, agosto 31, 2009
ÁS DE OUROS/ LOUCO
(11 de Agosto de 2009)
O Louco nas suas andanças encontrou meio enterrado no chão um enorme escudo de ouro falante, que o abordou assim:
- Bom amigo: desenterra-me e leva-me contigo. Mostrar-te-ei grandes tesouros!
Não te fies, disse o cão num breve latido desconfiado.
O Louco respondeu:
- Para que é que eu quero ouro se a natureza sempre me dá aquilo que eu preciso? - e com isto começou a afastar-se.
- Espera! - gritou o Ás de Ouros assustado por vê-lo partir. - Mostro-te mil maravilhas! Mistérios desconhecidos de todos! Só tens que me levar!
O Louco parou e voltou para trás.
- De verdade?
O cão ganiu, destroçado pela sua tolice. Vai levá-lo! Este peso! Vai suar as estopinhas por nada!
- De verdade! - disse o Ás de Ouros sorrindo.
O Louco acabou de o desenterrar e colocou-o com muito esforço sobre as suas costas.
As horas seguintes foram as mais excruciantes da sua vida. A cada passo o peso parecia esmagá-lo, mas o Ás de Ouros continuamente o incitava, dizendo que além do monte estariam as maravilhas de que falava - mas o monte vinha e afinal não era esse, mas outro perto, um pouco mais além. E as maravilhas nunca vinham.
- Pessoas que crescem nas árvores como frutos! - exclamava o Ás de Ouros. - Sereias aladas com rabos de peixe!
Isto fazia com que o Louco andasse mais depressa e com maior vigor, ainda que se derretesse em suor pois o sol ia alto e estavam no pino do Verão. Ao fim da tarde não pararam para beber água, apesar dos latidos desesperados do cão branco (que só a ia alcançar com a ajuda do Louco, tão fraco de forças se encontrava).
O Ás de Ouro mal sentiu o Louco abrandar o passo, gritou esganiçado:
- Não! Que fazes! É já ali atrás daquela pedra, a melhor água que vais querer, água que sós os deuses bebem! Quem sabe estão lá agora! Anda, caminha! - ordenou em voz autoritária. O Louco tinha a impressão que a cada passo o escudo se tornava mais pesado e crescia. Mas não, tolices suas. Se alguma vez... era a fome, a sede a pregarem-lhe partidas. Mas, ah, depois daquela árvores, as coisas melhorariam, iriam ter um manjar, um banquete à sua espera. Seguramente. O Louco olhou para trás para transmitir esta ideia ao canito branco, mas não o viu. Recuou uns passos.
- Que fazes?! É em frente - zagarateou o Ás de Ouros.
O cão branco estava muito para trás, sem sentidos e um coiote aproximava-se do seu amigo inconsciente. Sem pensar duas vezes deitou o escudo de ouro ao chão e correu para o fiel amigo. No último instante arrebatou-o das garras do coiote e fugiu com ele. Ao passar pelo Ás de Ouros viu que se transformara num velho pedaço de chumbo com ar demoníaco e cheiro horrível. Gritava-lhe imprecações e exigia que o levasse às costas de novo senão coisas terríveis iam acontecer.
O Louco desviou-se e correu com o cão desmaiado nos braços. Do outro lado do monte havia um lago onde matou a sede. Com algumas gotas de água despertou o cão branco, que também bebeu. Não havia banquete nem deuses, mas o Louco não se importou e adormeceu rapidamente, segurando o canito branco contra o peito.
sábado, agosto 29, 2009
MÁGICO/ VALETE DE PENTACLOS
[A Viagem do Locuo e do Mágico: cont.]
O Mágico não tinha um tostão furado. Não o incomoda, mas a sua barriga discorda da asserção. Decide parar na vila mais próxima, um vilareco de uma dezena de casas, cheia de gente pobre, mais pobre de horizontes e princípios do que a nível material e isso é dizer muito porque parecia terem menos do que pó para comer. Na tasca da vila há tremoços e cerveja. O Mago ergue o sobrolho, obviamente não habituado à magreza do manjar, há tanto que não tinha de se virar só para ter uma míngua tijela rasa de sopa. E isto nem sopa era. Mas lembrava-se dos tempos antigos, do que fazia, saído da infância, e mesmo enquanto criança de oito, nove anos, depois de se ter perdido dos pais ao seguir por curiosidade os saltimbancos - e nunca mais os haver encontrado. Uma criança com um intelecto quase sobrenatural e uma capacidade de se virar no mundo muito além daquela que tinham os adultos mais batidos nos caminhos agrestes da vida. Tinha o dom incomum para a sobrevivência. Era um homem alegre se bem que com os anos essa alegria se fosse alojando mais e mais no interior de si, como uma candeia eternamente acesa no centro da sua alma. Quando era jovem e adolescente ria e saltava por todo o lado, alegre no meio dos desafios porque era aí que se sentia mais vivo. Apesar de à superfície se parecer bastante com o Louco, nunca ninguém nos tempos de juventude se lembrou de o chamar de Tolo. A sua inteligência viva e inquisitiva saltava à vista.
Montou a banquinha no centro da vila, tirou a vara mágica do interior do manto e dispôs três copinhos em cima da banca. Alguns curiosos aproximaram-se e um entre eles, mais temerário, aceitou o desafio.
- Onde está o feijão mágico? Quem o encontrar fica com ele.
Após várias tentativas ninguém acertava, mas o Mago já tinha algumas moedas gastas de cobre que podia usar para matar a fome. Quando tinha o suficiente parou e arrumou a banca. Mas antes deixou que um velhote sem um tusto (permitiu que jogasse três vezes gratuitamente) “descobrisse” o feijão mágico. O Mago afastou-se enquanto o velho correu tropegamente com o seu prémio para muito longe. Quando achou que ninguém o via, plantou-o num monte de lixo. Daí a uns dias teria uma surpresa chocante. Mas deixemo-lo, a ele e ao seu prémio, o primeiro que recebera em toda a sua vida maltrapilha e desesperada.
Na tasca os tremoços souberam-lhe divinamente e a cerveja morna era como hidromel dos deuses. Há tanto tempo que não caminhava assim pela estrada, com absoluta confiança em Deus e nos seus talentos. Era como se vivesse de novo a juventude. A um canto afastado viu um valete, ricamente vestido com algum ouro debruado na roupa. Falava pelos cotovelos ao telemóvel. Falava e falava. Ideias de negócios, tinha-as aos milhares. E partilhava-as alegremente. Era muito jovem, parecia ter quinze anos. Parecia que tinha o telemóvel colado ao ouvido. Falava com patronos e mecenas, na esperança de que um deles financiasse uma das suas ideias que os tornaria a todos multimilionários. O Mago estava impassível à sua mesa, renovando os pires de tremoços e as cervejas mornas que lhe sabiam a ouro líquido, muito atento à conversa do jovem desenvolto. Tinha dinheiro suficiente. O seu lado matreiro veio ao de cima quando decidiu pedir para se sentar à mesa do Valente de Pentaclos e oferecer-lhe uma cerveja. Ofereceu-lhe várias, na verdade. As suficientes para o embriagar e soltar-lhe a língua. Intuíra que aquele rapaz sabia algo importante.
- Psst... anda cá, vou contar-te um segredo...! - disse baixinho e com modos entaramelados.
- Conta... - disse o Mago a rir-se. - Que segredo tão grande poderá um jovem ter?
- O Maaaaior de Tooodos...! - disse abrindo os braços de par em par e quase se estatelando no chão.
- Ah sim? - disso o Mago e bebeu outro gole de cerveja, não querendo parecer muito interessado.
Por fim o Valete de Pentaclos contou-lhe que tinha um mapa que mostrava o caminho exacto para o tesouro que o seu antigo Senhor tinha escondido dos bárbaros das tribos do Norte, aquando das invasões quatro anos antes. Levara muitos criados e matara-os a todos, menos a ele que teve a previdência de fugir e esconder-se. Lembrou-se de pôr em papel o “caminho para o tesouro”. Pouco depois o Rei de Pentaclos foi morto por um opositor e mais ninguém a não ser ele sabia onde o tesouro se encontrava.
O Mago riu muito alto. Pagou as cervejas generosamente e ainda um quarto para ambos passarem a noite. Depois pegou no rapazola, pô-lo ao ombro como uma saca de batatas e subiu as escadas até ao sótão abafado e ao colchão de palha. Despiu o jovem e olhou o corpo nu muito tempo. Era bonito. Acariciou-lhe os ombros e os braços, a seguir as faces rosadas e o cabelo loiro claro. Deu-lhe um beijo casto nos lábios e com pesar decidiu que não havia tempo para prazeres hoje. Localizou o telemóvel e abriu-o. No interior estava o mapa do tesouro, já gasto. Remontou o telemóvel com perícia e partiu, não sem antes olhar com pena para o corpo apetitoso do rapaz.
Procurava o Louco, ele próprio dono de algo valioso sem o saber, mas aquele desvio divertido valeria a pena, não pela fortuna, desprezível quando se tinha outra, a da sabedoria, mas pelo mistério, pela expectativa, pela aventura! Ah, era como se fosse criança uma segunda vez. E que bem isso sabia, todo esse ar fresco a bater-lhe na cara era como ouro, como ouro do mais puro.
7 de Agosto/09
4 DE COPAS/ MÁGICO
[A viagem do Louco e do Mágico: cont.]
Depois de passar o desfiladeiro, o Mágico chegou a um prado. O corpo pede descanso, ao menos por umas horas. É dia, ainda não pode ver as estrelas e guiar-se por elas. Ouve o corpo e senta-se à beira do carvalho, encosta a cabeça ao tronco e rapidamente adormece. O sonho vem logo a seguir. Nele vê quatro cálices frente a si e olha-os apático. Ele tem sede, mas cada um dos cálices tem um líquido diferente. Qual deles terá água? E qual terá o veneno? A escolha certa impõe-se. O Mago, dentro do sonho, senta-se em pose de lótus e não olha directamente nenhum dos cálices. Um lentamente ergue-se e pavoneia-se frente ao seu nariz como que dizendo: “Toma. Bebe-me”, mas ele permanece impassível. Era como se o copo fosse maléfico e o quisesse deter na viagem, terminá-la abruptamente. Matar o Mago - impedir que reencontrasse o antigo aprendiz e recuperasse a jóia que ele levara (inadvertidamente, era provável - o Louco não mentia, era puro e dizia a verdade - por isso o chamavam de Louco). Ora porque raio quereriam impedi-lo de encontrar-se com o antigo aprendiz? No sonho pode morrer-se, sabe o Mágico, se o veneno for forte o suficiente. Se o vissem de fora pensariam-no apático, sem força para tomar uma decisão (como a jovem das sete copas), mas na verdade pensava, planejava, planeava um curso de acção. Considerava cada detalhe com minuciosidade. De dentro do manto tirou a varinha e com um lento tremular todos os cálices se voltaram e despejaram o líquido no chão. A terra tornou-se cinzenta e morta. Afinal todos continham veneno.
Acordou durante a noite. Prosseguiu caminho, com as estrelas.
(30-31/07/09)
Depois de passar o desfiladeiro, o Mágico chegou a um prado. O corpo pede descanso, ao menos por umas horas. É dia, ainda não pode ver as estrelas e guiar-se por elas. Ouve o corpo e senta-se à beira do carvalho, encosta a cabeça ao tronco e rapidamente adormece. O sonho vem logo a seguir. Nele vê quatro cálices frente a si e olha-os apático. Ele tem sede, mas cada um dos cálices tem um líquido diferente. Qual deles terá água? E qual terá o veneno? A escolha certa impõe-se. O Mago, dentro do sonho, senta-se em pose de lótus e não olha directamente nenhum dos cálices. Um lentamente ergue-se e pavoneia-se frente ao seu nariz como que dizendo: “Toma. Bebe-me”, mas ele permanece impassível. Era como se o copo fosse maléfico e o quisesse deter na viagem, terminá-la abruptamente. Matar o Mago - impedir que reencontrasse o antigo aprendiz e recuperasse a jóia que ele levara (inadvertidamente, era provável - o Louco não mentia, era puro e dizia a verdade - por isso o chamavam de Louco). Ora porque raio quereriam impedi-lo de encontrar-se com o antigo aprendiz? No sonho pode morrer-se, sabe o Mágico, se o veneno for forte o suficiente. Se o vissem de fora pensariam-no apático, sem força para tomar uma decisão (como a jovem das sete copas), mas na verdade pensava, planejava, planeava um curso de acção. Considerava cada detalhe com minuciosidade. De dentro do manto tirou a varinha e com um lento tremular todos os cálices se voltaram e despejaram o líquido no chão. A terra tornou-se cinzenta e morta. Afinal todos continham veneno.
Acordou durante a noite. Prosseguiu caminho, com as estrelas.
(30-31/07/09)
sexta-feira, agosto 14, 2009
Concordo em absoluto com este gajo.
Oh, if I had my way...!
In other news: fui à piscina. Que BOM.
'Tava sozinha. Que fixe.
E agora tenho de ir trabalhar.
Job wise: agora 'tou a fazer outra coisa (embora no mesmo local) e por isso já não tenho tempo de escrever (durante o trabalho, I mean :p), no entanto, agora que a comecei, quero terminar a história da Viagem do Mágico e do Louco. Tenho alí uns capítulos para passar e colocar aqui.
/Dunya
Oh, if I had my way...!
In other news: fui à piscina. Que BOM.
'Tava sozinha. Que fixe.
E agora tenho de ir trabalhar.
Job wise: agora 'tou a fazer outra coisa (embora no mesmo local) e por isso já não tenho tempo de escrever (durante o trabalho, I mean :p), no entanto, agora que a comecei, quero terminar a história da Viagem do Mágico e do Louco. Tenho alí uns capítulos para passar e colocar aqui.
/Dunya
segunda-feira, agosto 10, 2009
REI DE ESPADAS/ LOUCO
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO (CONT)
O Rei de espadas era o homem consumado da lógica e da estratégica, ganha a custo com a maturidade e as lições de vida. Herdou um pequeno reino quando nem tinha dezasseis anos e quarenta anos depois construíra um império, alargando o território com conquistas, acordos de paz e casamentos (seus e dos filhos). Este Rei tinha fama de justo (se bem que às vezes um pouco implacável), os veredictos eram acertados e em ocasiões duros. Era um homem que cortava a rente sem deter-se em floreados. Instintivamente sabia o que seria correcto, por mais que doesse. Quem quer que falasse com ele sabia que só ia ouvir a verdade. Tinha uma grande capacidade para ser imparcial e, apesar de não ser falho de sentimentos, sabia temperar a razão e a emoção.
Ao fim de meses num impasse, em batalha com outro exército de um reino próximo que teimava em não submeter-se, o Rei de Espadas tinha chegado à conclusão que outra via teria de ser tomada: a diplomática. O Rei continuava a querer a posse deste Reino pois dar-lhe-ia acesso directo ao mar, logo, a maiores oportunidades de comércio (evitando por completo as tribos bárbaras do Norte que roubavam muitas das caravanas para o exterior). Contudo ele estava disposto a esperar anos se fosse preciso. Entretanto de nada valia delapidar os seus recursos humanos, militares e financeiros numa batalha e guerra obviamente empatadas, mais valia dizer: perdidas.
É neste cenário que o Louco aparece, cabriolando, assobiando, gozando o calor do sol na face enquanto o cão atrás de si mal pode andar, tão morto de sede estava.
- Quem é aquele homem? - pergunta o Rei de Espadas no limite da sua tenda. Avistara-o ao longe e todo o exército o observava, aquele homem que não parecia muito bom da tola, a andar aos saltinhos (com um cãozito meio morto atrás) no meio do terreno onde nem há quatro dias houvera uma carnificina violenta.
- Não sabemos, Senhor. Acabou de aparecer - respondeu o servo.
O Rei de Espadas esfregou a barba e mandou que o trouxessem à sua presença.
Dois guerreiros pujantes e musculados pegaram no Louco e arrastaram-no até à tenda do Rei.
O Louco foi jogado aos pés daquela magnífica e aterrorizante figura, sentada num cadeirão enorme.
De joelhos ele implorou:
- Por favor, não me mates! Não sei o que fiz! O que fiz de errado? Prometo que não volto a fazê-lo!
Estava aterrorizado. Em segundos questionou a sua viagem, a razão porque a empreendera. Fora aprendiz do Mágico durante tantos anos, em criança, mas a juventude chegara e ele queria ver o Mundo! Devia ser deveras um tolo, como os outros o chamavam. Ajoelhado, escondeu a cabeça entre as mãos e esperou pelo golpe fatal daquele quase gigante à sua frente.
De súbito o canito branco alcançou-o, cansado, mas teve forças de se meter entre o Rei e o Louco e ladrar furiosamente. Para o matares vais ter de passar por mim!, dizia ele ao Rei. O Rei de Espadas desatou num riso desenfreado que fez desmaiar o cão de susto e espantou o Louco que, a seguir, sentiu uma mão carinhosa a afagar-lhe o cabelo.
- Levanta-te. Quem tem servos tão corajosos e leais - apontou o cão de pernas para o ar - deve ser um homem valente.
Deram água ao cão e alimentaram-no quando enfim acordou. O Louco também foi alimentado. Nem sequer se lembrou de pensar na sua sorte. Cada vez que precisava de comer o destino providenciava.
Passaram a noite no maior conforto e no dia seguinte o Rei de Espadas foi directo ao assunto:
- Quero que vás ao meu oponente apresentar uma proposta de tréguas.
- E-eu? - balbuciou o Louco. Mas quem sou eu? - um homem com a inocência de uma criança, sem um osso de decepção no corpo. E isso era exactamente o que convinha ao Rei de Espadas naquele momento.
- És o homem apropriado para a missão - respondeu o Rei e colocou-lhe com gravidade a mão no ombro. Depois entregou-lhe um canudo longo com uma fita para o transportar.
- No interior estão as condições. Espera pela resposta.
- Não sei se sou a pessoa indica... - mas o Rei cortou-lhe a palavra.
- És sim. É um favor pessoal que me fazes - disse pegando-lhe nos ombros e estreitando-o contra si. - Somos amigos, não é verdade! - gritou com um riso de trovão.
- É... é - e o Louco lá foi, sentindo uma estranha responsabilidade que não queria sentir, uma responsabilidade com um peso esmagador.
O cão branco seguiu-o a medo, desconfiado. E se apanha com uma flecha? E se lhe dão uma espadeirada? Pela primeira vez os passos do Louco não eram confiantes, mas sim hesitantes e trémulos.
O outro Rei tinha o cabelo Ruivo e ar feroz. Leu os papéis do canudo sem uma palavra para o homenzinho trémulo que trouxera a mensagem.
O outro não dava ponto sem nó, pensou o Rei Vermelho. Isto devia trazer água no bico. Ordenou que o prendessem e o torturassem até revelar os verdadeiros planos do Rei de Espadas. Entretanto deu ordens ao exército para se preparar para o provável ataque iminente. Lá voltaram a arrastar o pobre do Louco, desta vez por outros dois matulões, para dentro de um buraco cavado no chão.
- Ó, bem bonita a fizeste - pensou o Louco quando os ossos bateram na terra, mas, estranhamente, não tinha medo. Sentiu falta de algo. O pau. Já não tinha o pau. E o cão já não o seguia. Que cão tão estranho era aquele, tentou lembrar-se da primeira vez em que o vira - sem resultado.
O canito branco foi a medo até à borda do buraco, mas logo se escondeu atrás de uma moita quando viu outro soldado ir buscar o Louco. Tirou-o do interior e pô-lo no armazém (única construção feita de barro, palha e pedra, o resto eram tendas).
Foi o canito que o salvou: mordeu o rabo ao soldado e o Louco teve tempo de se libertar das amarras onde começara a prendê-lo à parede. Perto notou um chicote. Correram a bom correr. Correram tanto que só à noite pararam. Para trás deixaram um rumor de guerra, guerra até ao limite, guerra sem lógica nenhuma. Guerra sem vencedores porque ambos os lados se dizimaram sem ganho algum.
(30.07.09)
(c. 1050 palavras)
O Rei de espadas era o homem consumado da lógica e da estratégica, ganha a custo com a maturidade e as lições de vida. Herdou um pequeno reino quando nem tinha dezasseis anos e quarenta anos depois construíra um império, alargando o território com conquistas, acordos de paz e casamentos (seus e dos filhos). Este Rei tinha fama de justo (se bem que às vezes um pouco implacável), os veredictos eram acertados e em ocasiões duros. Era um homem que cortava a rente sem deter-se em floreados. Instintivamente sabia o que seria correcto, por mais que doesse. Quem quer que falasse com ele sabia que só ia ouvir a verdade. Tinha uma grande capacidade para ser imparcial e, apesar de não ser falho de sentimentos, sabia temperar a razão e a emoção.
Ao fim de meses num impasse, em batalha com outro exército de um reino próximo que teimava em não submeter-se, o Rei de Espadas tinha chegado à conclusão que outra via teria de ser tomada: a diplomática. O Rei continuava a querer a posse deste Reino pois dar-lhe-ia acesso directo ao mar, logo, a maiores oportunidades de comércio (evitando por completo as tribos bárbaras do Norte que roubavam muitas das caravanas para o exterior). Contudo ele estava disposto a esperar anos se fosse preciso. Entretanto de nada valia delapidar os seus recursos humanos, militares e financeiros numa batalha e guerra obviamente empatadas, mais valia dizer: perdidas.
É neste cenário que o Louco aparece, cabriolando, assobiando, gozando o calor do sol na face enquanto o cão atrás de si mal pode andar, tão morto de sede estava.
- Quem é aquele homem? - pergunta o Rei de Espadas no limite da sua tenda. Avistara-o ao longe e todo o exército o observava, aquele homem que não parecia muito bom da tola, a andar aos saltinhos (com um cãozito meio morto atrás) no meio do terreno onde nem há quatro dias houvera uma carnificina violenta.
- Não sabemos, Senhor. Acabou de aparecer - respondeu o servo.
O Rei de Espadas esfregou a barba e mandou que o trouxessem à sua presença.
Dois guerreiros pujantes e musculados pegaram no Louco e arrastaram-no até à tenda do Rei.
O Louco foi jogado aos pés daquela magnífica e aterrorizante figura, sentada num cadeirão enorme.
De joelhos ele implorou:
- Por favor, não me mates! Não sei o que fiz! O que fiz de errado? Prometo que não volto a fazê-lo!
Estava aterrorizado. Em segundos questionou a sua viagem, a razão porque a empreendera. Fora aprendiz do Mágico durante tantos anos, em criança, mas a juventude chegara e ele queria ver o Mundo! Devia ser deveras um tolo, como os outros o chamavam. Ajoelhado, escondeu a cabeça entre as mãos e esperou pelo golpe fatal daquele quase gigante à sua frente.
De súbito o canito branco alcançou-o, cansado, mas teve forças de se meter entre o Rei e o Louco e ladrar furiosamente. Para o matares vais ter de passar por mim!, dizia ele ao Rei. O Rei de Espadas desatou num riso desenfreado que fez desmaiar o cão de susto e espantou o Louco que, a seguir, sentiu uma mão carinhosa a afagar-lhe o cabelo.
- Levanta-te. Quem tem servos tão corajosos e leais - apontou o cão de pernas para o ar - deve ser um homem valente.
Deram água ao cão e alimentaram-no quando enfim acordou. O Louco também foi alimentado. Nem sequer se lembrou de pensar na sua sorte. Cada vez que precisava de comer o destino providenciava.
Passaram a noite no maior conforto e no dia seguinte o Rei de Espadas foi directo ao assunto:
- Quero que vás ao meu oponente apresentar uma proposta de tréguas.
- E-eu? - balbuciou o Louco. Mas quem sou eu? - um homem com a inocência de uma criança, sem um osso de decepção no corpo. E isso era exactamente o que convinha ao Rei de Espadas naquele momento.
- És o homem apropriado para a missão - respondeu o Rei e colocou-lhe com gravidade a mão no ombro. Depois entregou-lhe um canudo longo com uma fita para o transportar.
- No interior estão as condições. Espera pela resposta.
- Não sei se sou a pessoa indica... - mas o Rei cortou-lhe a palavra.
- És sim. É um favor pessoal que me fazes - disse pegando-lhe nos ombros e estreitando-o contra si. - Somos amigos, não é verdade! - gritou com um riso de trovão.
- É... é - e o Louco lá foi, sentindo uma estranha responsabilidade que não queria sentir, uma responsabilidade com um peso esmagador.
O cão branco seguiu-o a medo, desconfiado. E se apanha com uma flecha? E se lhe dão uma espadeirada? Pela primeira vez os passos do Louco não eram confiantes, mas sim hesitantes e trémulos.
O outro Rei tinha o cabelo Ruivo e ar feroz. Leu os papéis do canudo sem uma palavra para o homenzinho trémulo que trouxera a mensagem.
O outro não dava ponto sem nó, pensou o Rei Vermelho. Isto devia trazer água no bico. Ordenou que o prendessem e o torturassem até revelar os verdadeiros planos do Rei de Espadas. Entretanto deu ordens ao exército para se preparar para o provável ataque iminente. Lá voltaram a arrastar o pobre do Louco, desta vez por outros dois matulões, para dentro de um buraco cavado no chão.
- Ó, bem bonita a fizeste - pensou o Louco quando os ossos bateram na terra, mas, estranhamente, não tinha medo. Sentiu falta de algo. O pau. Já não tinha o pau. E o cão já não o seguia. Que cão tão estranho era aquele, tentou lembrar-se da primeira vez em que o vira - sem resultado.
O canito branco foi a medo até à borda do buraco, mas logo se escondeu atrás de uma moita quando viu outro soldado ir buscar o Louco. Tirou-o do interior e pô-lo no armazém (única construção feita de barro, palha e pedra, o resto eram tendas).
Foi o canito que o salvou: mordeu o rabo ao soldado e o Louco teve tempo de se libertar das amarras onde começara a prendê-lo à parede. Perto notou um chicote. Correram a bom correr. Correram tanto que só à noite pararam. Para trás deixaram um rumor de guerra, guerra até ao limite, guerra sem lógica nenhuma. Guerra sem vencedores porque ambos os lados se dizimaram sem ganho algum.
(30.07.09)
(c. 1050 palavras)
sábado, agosto 08, 2009
7 de Copas e 6 de Ouros
E eis aqui o que vou escrevendo durante as horas de trabalho...
* * *
7 DE COPAS / MÁGICO
O Mágico tem olhos de lince. Está em sintonia com o Universo. Estuda-o. Une o cimo ao baixo, o céu à terra. É a força da Palavra a unir o material e o imaterial - concretizando-o, dando-lhe Forma. Substância.
O Mago vê a jovem mulher de costas com um xaile creme. Está em plena adoração a uma árvore. Ele aproxima-se lentamente, com um secreto temor e respeito pela insanidade de outro ser. Não se enganou. A jovem não está no seu juízo perfeito. Quando a rodeia descobre que mira com extâse sete cálices colocados no tronco da árvore. A jovem tem um ar patético e contente, lançando à vez cada uma das mãos para os diferentes cálices, mas nunca tocando nenhum, nem nunca se decidindo por um. Não veria ela, como claramente ele o via, que eram imagens irreais, hologramas? Que iriam desaparecer todas à excepção do tocado? Que não eram na verdade realidades concretas? Ilusões, todos esses cálices pelos quais ela salivava, incluindo o que por último escolhesse - porque nunca realidade nenhuma supera a ilusão, sempre superior e brilhante e perfeita. Era para isso que ela estava a olhar. Desejosa e esperançosa do que estava por vir, nem sequer notava o aqui e agora. Não via o Mágico à sua frente, perto da árvore. Nem reparava no próprio vestido, roto e sujo, nem se dava conta da própria sede e fome. Um embuste, aquela árvore. Esteve tentado a tocar num dos cálices e a terminar a ilusão, mas deteve o gesto. O Mágico sabe que só ela tem a capacidade de terminar aquilo. De parar e fazer uma escolha, por pior que seja, de rebentar a bolha à ilusão.
O Mago regressa ao caminho sem olhar para trás e é nesse momento que a jovem o nota, de costas, a afastar-se. Mas retorna a atenção para os cálices e pensa que um em particular, o que tem a caveira, é assaz interessante. Porque terá uma caveira? Avança o dedo esticado para ele, mas não o toca. Detém-se olhando longamente e reflectindo. De repente os outros cálices eclipsam-se e só resta aquele. Ao longe a figura do Mágico desvanecia-se.
Seguira o instinto. Algures por aquele caminho devia ter ido o Louco.
6 DE OUROS/ LOUCO
O homem de negócios hoje sai para fazer caridade! Uma vez a cada duas semanas atavia-se com as melhores vestimentas e sai para a rua onde, de entre o povo, escolhe uma alma maltrapilha e em necessidade com quem será magnificamente generoso. Moedas reluzentes de ouro caem de modo enfático e pomposo da sua mão bojuda para o humilde pedinte ajoelhado diante de si. É um homem orgulhoso da sua Generosidade. Acima de tudo é importante que seja visto a Doar livremente o seu dinheiro. Após a dádiva pavoneia-se altivo, muito satisfeito, pela cidade, recebendo os bons-dias respeitosos e deferentes dos cidadãos. Os que já foram alvo da sua generosidade sabem que têm de ser especialmente atenciosos com ele. A Generosidade Paga-se, afinal! Na verdade, nada naquele pobre homem é generoso ou feito de coração, o motor do pequeno teatro é outro: provém da extrema carência interior, da falta de amor, de si e pelos outros. Dando seguramente vão gostar de mim, apreciar-me! Terão de o fazer. Sim, terão. E há uma nódoa negra que lhe enche o corpo por um segundo àquele pensamento - mas logo a espanta e regressa à Imagem cultivada há décadas: o homem das dádivas! O homem que dá "sem pensar em si". Grande mentira. Se é unicamente em si que ele pensa. Mas não pode permitir que a verdade venha ao de cima. Ela está muito bem escondida, reprimida no fundo da alma, afogada nas suas carências e sentimentos negativos.
E de súbito há comoção na cidade: o Louco chegou, cabriolando, dando nas vistas nas suas vestimentas sem nexo nenhum (quantas cores tens no teu fato, ó Louco?). Na ponta do pau o lenço baila vazio. Comera as uvas, dera a pera ao cão e atara mal a trouxa, predendo os restante frutos.
As pessoas seguiram aquela figura jovial, interessadas. Até que o Louco se sentiu cansado e sentou-se numa pedra. De repente ficara com fome e sede. Olhou ao redor e viu a fonte. Foi matar a sede e, depois de o fazer, viu um homem gordo e grande à sua frente, a sorrir muito.
- De onde vens, amigo? - pergunta com jovialidade.
- Dali - apontou com o dedo para o infinito atrás de si, que já não lhe interessava. Interessava-lhe muito mais o infinito à sua frente.
O homem de negócios mediu-o e decidiu que era um maltrapilho, um perdido de Deus. Alguém que precisaria de ajuda. Pôs-lhe amigavelmente o braço sobre as costas:
- Vem, amigo, vamos comer algo que eu estou esganado!
O canito branco grunhiu e seguiu-os a certa distância.
O estranho pediu as melhores iguarias da casa. Os olhos do Louco abriam-se perante as carnes e peixes exóticos que desfilavam diante de si. O que comeu! Coelhos, perdizes, vacas inteiras, dir-se-ia. Com os restos que iam caindo para o chão o cão branco encheu também o bandulho.
Duas horas depois mal se podiam mexer. Tinham as barrigas salientes e redondas como abóboras. O canito estava de pernas para o ar e arfava com a língua vermelha fora do focinho. O homem de negócios assistia à cena satisfeito. Acabaram os três por dormir ali uma sesta. O homem de negócios não permitiu que ninguém os perturbasse. Chamou criados, mais tarde, e ordenou que fossem levados para o seu castelo no conforto de uma carruagem particular almofadada. Quando acordaram no dia seguinte um banquete digno de reis esperava-os. O homem de negócios mal comia só do gosto de os ver empanturrarem-se. Mas todo aquele tempo, aquilo por que tanto ansiava não veio: um gesto de gratidão, uma palavra, ó!, um tremor de agradecimento. Nem pedia muito. Quanto custa dizer "obrigado"?
Deu tudo ao Louco. Deu-lhe roupas, comida e abrigo. Quase lhe dava as duas filhas gémeas só da ânsia de escutar um "obrigado" sentido. Ao fim de dias, o Louco, porém, tinha a febre de partir. Não parava quieto num sítio e a roupa ornamentada e bela parecia-lhe demasiado pesada, atrapalhando-lhe os movimentos. Um fardo. Cada vez que falava em partir os olhos do estranho que lhe dera comida e guarida mareavam-se de modo que ele se calava para não o transtornar. Mas não suportava mais tal vida.
Uma noite levantou-se antes da madrugada, trocou as bonitas roupas pelas suas antigas, mais leves, resgatou o velho pau com o lenço na ponta (estava no molho a ser queimado no dia seguinte na lareira) - e pôs-se a caminho. O canito deu pela falta dele quando o Louco já estava longe, à saída da cidade. Aquele tolo! Deixar este paraíso! Que tonto!
Só o apanhou três horas depois.
De manhã o antigo protector notou o desaparecimento repentino dos hóspedes. Concluiu logo que tinham partido. Ainda tinha a esperança de descobrir que o Louco roubara algo, e ficou muito desiludido quando viu que o tolo trocara até a roupa luxuosa pelos trapos que trouxera. Durante dias andou de orelha murcha, até quando ia à cidade. Já não dava. Nem se lembrava. Um homem velho e muito pobre, que nunca lhe tinha pedido nada porque lhe via com clareza a mancha negra no meio do peito, um dia ajoelhou-se aos pés do triste homem de negócios e disse:
- Senhor, por favor, dá-me uma moeda, por mais pequena que seja, que eu há quatro dias que não como.
O outro subitamente alegrou-se e mareou-o com uma chuva de moedas pequeninas e brilhantes.
E agora, quem é que estava a ser generoso com quem?
(24-27/07/09)
(1321 palavras)
* * *
7 DE COPAS / MÁGICO
O Mágico tem olhos de lince. Está em sintonia com o Universo. Estuda-o. Une o cimo ao baixo, o céu à terra. É a força da Palavra a unir o material e o imaterial - concretizando-o, dando-lhe Forma. Substância.
O Mago vê a jovem mulher de costas com um xaile creme. Está em plena adoração a uma árvore. Ele aproxima-se lentamente, com um secreto temor e respeito pela insanidade de outro ser. Não se enganou. A jovem não está no seu juízo perfeito. Quando a rodeia descobre que mira com extâse sete cálices colocados no tronco da árvore. A jovem tem um ar patético e contente, lançando à vez cada uma das mãos para os diferentes cálices, mas nunca tocando nenhum, nem nunca se decidindo por um. Não veria ela, como claramente ele o via, que eram imagens irreais, hologramas? Que iriam desaparecer todas à excepção do tocado? Que não eram na verdade realidades concretas? Ilusões, todos esses cálices pelos quais ela salivava, incluindo o que por último escolhesse - porque nunca realidade nenhuma supera a ilusão, sempre superior e brilhante e perfeita. Era para isso que ela estava a olhar. Desejosa e esperançosa do que estava por vir, nem sequer notava o aqui e agora. Não via o Mágico à sua frente, perto da árvore. Nem reparava no próprio vestido, roto e sujo, nem se dava conta da própria sede e fome. Um embuste, aquela árvore. Esteve tentado a tocar num dos cálices e a terminar a ilusão, mas deteve o gesto. O Mágico sabe que só ela tem a capacidade de terminar aquilo. De parar e fazer uma escolha, por pior que seja, de rebentar a bolha à ilusão.
O Mago regressa ao caminho sem olhar para trás e é nesse momento que a jovem o nota, de costas, a afastar-se. Mas retorna a atenção para os cálices e pensa que um em particular, o que tem a caveira, é assaz interessante. Porque terá uma caveira? Avança o dedo esticado para ele, mas não o toca. Detém-se olhando longamente e reflectindo. De repente os outros cálices eclipsam-se e só resta aquele. Ao longe a figura do Mágico desvanecia-se.
Seguira o instinto. Algures por aquele caminho devia ter ido o Louco.
6 DE OUROS/ LOUCO
O homem de negócios hoje sai para fazer caridade! Uma vez a cada duas semanas atavia-se com as melhores vestimentas e sai para a rua onde, de entre o povo, escolhe uma alma maltrapilha e em necessidade com quem será magnificamente generoso. Moedas reluzentes de ouro caem de modo enfático e pomposo da sua mão bojuda para o humilde pedinte ajoelhado diante de si. É um homem orgulhoso da sua Generosidade. Acima de tudo é importante que seja visto a Doar livremente o seu dinheiro. Após a dádiva pavoneia-se altivo, muito satisfeito, pela cidade, recebendo os bons-dias respeitosos e deferentes dos cidadãos. Os que já foram alvo da sua generosidade sabem que têm de ser especialmente atenciosos com ele. A Generosidade Paga-se, afinal! Na verdade, nada naquele pobre homem é generoso ou feito de coração, o motor do pequeno teatro é outro: provém da extrema carência interior, da falta de amor, de si e pelos outros. Dando seguramente vão gostar de mim, apreciar-me! Terão de o fazer. Sim, terão. E há uma nódoa negra que lhe enche o corpo por um segundo àquele pensamento - mas logo a espanta e regressa à Imagem cultivada há décadas: o homem das dádivas! O homem que dá "sem pensar em si". Grande mentira. Se é unicamente em si que ele pensa. Mas não pode permitir que a verdade venha ao de cima. Ela está muito bem escondida, reprimida no fundo da alma, afogada nas suas carências e sentimentos negativos.
E de súbito há comoção na cidade: o Louco chegou, cabriolando, dando nas vistas nas suas vestimentas sem nexo nenhum (quantas cores tens no teu fato, ó Louco?). Na ponta do pau o lenço baila vazio. Comera as uvas, dera a pera ao cão e atara mal a trouxa, predendo os restante frutos.
As pessoas seguiram aquela figura jovial, interessadas. Até que o Louco se sentiu cansado e sentou-se numa pedra. De repente ficara com fome e sede. Olhou ao redor e viu a fonte. Foi matar a sede e, depois de o fazer, viu um homem gordo e grande à sua frente, a sorrir muito.
- De onde vens, amigo? - pergunta com jovialidade.
- Dali - apontou com o dedo para o infinito atrás de si, que já não lhe interessava. Interessava-lhe muito mais o infinito à sua frente.
O homem de negócios mediu-o e decidiu que era um maltrapilho, um perdido de Deus. Alguém que precisaria de ajuda. Pôs-lhe amigavelmente o braço sobre as costas:
- Vem, amigo, vamos comer algo que eu estou esganado!
O canito branco grunhiu e seguiu-os a certa distância.
O estranho pediu as melhores iguarias da casa. Os olhos do Louco abriam-se perante as carnes e peixes exóticos que desfilavam diante de si. O que comeu! Coelhos, perdizes, vacas inteiras, dir-se-ia. Com os restos que iam caindo para o chão o cão branco encheu também o bandulho.
Duas horas depois mal se podiam mexer. Tinham as barrigas salientes e redondas como abóboras. O canito estava de pernas para o ar e arfava com a língua vermelha fora do focinho. O homem de negócios assistia à cena satisfeito. Acabaram os três por dormir ali uma sesta. O homem de negócios não permitiu que ninguém os perturbasse. Chamou criados, mais tarde, e ordenou que fossem levados para o seu castelo no conforto de uma carruagem particular almofadada. Quando acordaram no dia seguinte um banquete digno de reis esperava-os. O homem de negócios mal comia só do gosto de os ver empanturrarem-se. Mas todo aquele tempo, aquilo por que tanto ansiava não veio: um gesto de gratidão, uma palavra, ó!, um tremor de agradecimento. Nem pedia muito. Quanto custa dizer "obrigado"?
Deu tudo ao Louco. Deu-lhe roupas, comida e abrigo. Quase lhe dava as duas filhas gémeas só da ânsia de escutar um "obrigado" sentido. Ao fim de dias, o Louco, porém, tinha a febre de partir. Não parava quieto num sítio e a roupa ornamentada e bela parecia-lhe demasiado pesada, atrapalhando-lhe os movimentos. Um fardo. Cada vez que falava em partir os olhos do estranho que lhe dera comida e guarida mareavam-se de modo que ele se calava para não o transtornar. Mas não suportava mais tal vida.
Uma noite levantou-se antes da madrugada, trocou as bonitas roupas pelas suas antigas, mais leves, resgatou o velho pau com o lenço na ponta (estava no molho a ser queimado no dia seguinte na lareira) - e pôs-se a caminho. O canito deu pela falta dele quando o Louco já estava longe, à saída da cidade. Aquele tolo! Deixar este paraíso! Que tonto!
Só o apanhou três horas depois.
De manhã o antigo protector notou o desaparecimento repentino dos hóspedes. Concluiu logo que tinham partido. Ainda tinha a esperança de descobrir que o Louco roubara algo, e ficou muito desiludido quando viu que o tolo trocara até a roupa luxuosa pelos trapos que trouxera. Durante dias andou de orelha murcha, até quando ia à cidade. Já não dava. Nem se lembrava. Um homem velho e muito pobre, que nunca lhe tinha pedido nada porque lhe via com clareza a mancha negra no meio do peito, um dia ajoelhou-se aos pés do triste homem de negócios e disse:
- Senhor, por favor, dá-me uma moeda, por mais pequena que seja, que eu há quatro dias que não como.
O outro subitamente alegrou-se e mareou-o com uma chuva de moedas pequeninas e brilhantes.
E agora, quem é que estava a ser generoso com quem?
(24-27/07/09)
(1321 palavras)
sábado, julho 25, 2009
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO - II -
- II -
9 DE PAUS / LOUCO
O nove de paus é defensivo, desconfiado, sempre a postos.
Há um homem frente a uma fiada de paus levantados ao alto como uma muralha. O Louco aproximou-se dele e ficou a olhar com ar inocente durante um longo período para aquela estranha construção defensiva que parecia quebrar a harmonia intrínseca da paisagem. Como uma enorme borbulha espinhosa no meio da terra.
Ele tinha de a atravessar. Seguramente algo melhor, algo incrivelmente maravilhoso estaria por detrás daqueles paus longos. Tudo o que é defendido é-o por ser valioso (pensa o Louco na sua ingenuidade de criança).
O Louco aproxima-se do homem mais velho e curvado, apoiado num pau (como se o trabalho de eternamente defender-se o cansasse), quase aos pinotes, exibindo confiança e um grande sorriso. De imediato o homem assume posição de ataque e avança contra ele. Atemorizado, o Louco recua e pergunta:
- O que fazes? Eu só quero passar.
- Ninguém passa! Ninguém passa daqui adiante!
- Porquê?
- Porque não! Eu pus esta barreira! Daqui para diante são as minhas terras! Só queres roubar o fruto do meu trabalho.
- Não - defende-se o Louco. - Não te quero tirar nada. Só quero passar, viajar, ver o que está mais além.
- Além estão as minhas terras, não passas! - disse e avançou um passo furioso.
De repente sente uma mordidela na perna e grita de dor. Era o pequeno cão branco do Louco (que lhe perdera o faro, mas voltara a recuperar o odor), a ferrar o dente. O homem virou a atenção para o canito, tentando sem sucesso acertar-lhe com o pau. O cãozito era demasiado ágil. Entretanto o Louco aproveitou a confusão para abrir uma brecha na muralha de postes e pisgou-se para o outro lado, certo de que havia maravilhas à sua espera.
Quando o cão parou de dançar aos pés do homem (não lhe acertou nem uma vez), já o intruso ia longe. O homem viu a brecha no muro e caiu de joelhos a chorar. Ficou ali por muito tempo com o pau tombado, a penar de angústia, pensando que todas as suas precauções não tinham levado a nada e fora um canito, quase uma formiga, o causador daquela grande desgraça, um enorme buraco na muralha! Que grande buraco! Qualquer um podia passar por ali e roubar-lhe tudo. Tudo! Ficou bastante tempo a lamentar-se, o pobre homem, até que decidiu erguer-se e refazer o muro: em cimento. Mas ele não sabia que os muros, quando têm de cair, nem se forem feitos de titânio ou diamante se aguentam de pé (e às vezes as melhores muralhas são as de ar).
O Louco já ia bastante avançado, com o canito sempre atrás, a bailar-lhe entre os pés, a dizer-lhe em linguagem canina: por favor, volta para trás, o mundo é perigoso, tu tens tudo em casa, não é preciso aventurares-te, o mundo não se importa conosco nem nos receberá de braços abertos. Devias ter lido mais livros, diz o cão (em linguagem de cão que o Louco não compreende), ias ser menos ingénuo. Ou se calhar, pensa ele um bocadinho, não devias ter lido livro nenhum.
O Louco colheu uma maçã e uma pêra das árvores, partilhou uvas da videira com o canito branco (que as comeu com gosto) e dormiu sob as estrelas. O Louco ele próprio tinha um pau, mas nem lhe passou pela cabeça usá-lo para a violência. Na ponta há um lenço vermelho atado: uma pequena trouxa para levar o essencial. Mas ele esquece-se de a encher. Quando saiu pôs duas bolachas. Só as encontrou dois dias mais tarde e deu-as ao cão. Não tinha fome. As vistas, as novas paisagens enchiam-lhe os olhos de maravilhas e, parecia, também a barriga. Á noite, já ele estava bem adormecido, o canito apanhou alguns frutos que cairam no chão e colocou-os, com imensa mestria, dentro da trouxa vermelha. De manhã o Louco sentiu um peso ligeiro, mas não se importou. Havia ainda tanta coisa por descobrir! Seguramente outro passo era uma promessa, um abismo cheio de promessas!
RAINHA DE PENTACLOS / MÁGICO
O Mágico ia no trilho do Louco. Encontrou a Rainha de Pentaclos no caminho. Tinha seguido inicialmente, por meio dos seus olhos mágicos, as invisíveis pegadas do Louco que mal se viam, e depois as do canito, que eram mais aparentes. Infelizmente o cão branco, seguindo apenas a lógica, perdia-se demasiado, enquanto que o Louco, seguindo o vento e as nuvens, não se perdia nunca: estava sempre onde devia estar. Onde quer que estivesse - esse era o caminho certo.
No trilho encontrou uma bela mulher, ricamente vestida de ouro. Apesar de bela pareceu-lhe um pouco dura. Ou melhor: demasiado prática. Notou o quanto o ouro brilhava. Ela esfregava-o todas as noites. Gostava muito daquele ouro. Dera-lhe trabalho adquiri-lo. Agora contava as azeitonas da oliveira: antes de vendê-las tinha de ter a certeza do seu número exacto Uma parte venderia e a outra era para fazer azeite. Ela gostava muito de azeite. Sentia-se feliz enquanto mirava cada azeitona. Mal viu o Mágico. Quando ele a abordou ela sobressaltou-se:
- Esse, porque quem demandas, como é?
- O Louco? - o Mágico reflectiu um pouco. - É uma criança grande, como se nunca tivesse crescido. Hás-de notar: tem sempre um sorriso na cara e pensa que tudo e todos são extraordinários. Mas não fica muito tempo num lugar.
Ela pensou:
- Sim, julgo que o vi. Há alguns dias atrás - finalizou com o dedo da unha bem cuidada a tocar no queixo e os olhos alçados para o ar.
- Por onde foi?
- Quanto vale para ti essa informação?
"Ah, uma mulher de negócios."
Chegaram a acordo. De dentro do manto o Mago tirou um saquinho de sementes e uma moeda de ouro. A Rainha de Pentaclos indicou-lhe o caminho seguido pelo Louco com o queixo: um caminho estreito entre duas montanhas próximas, com risco de derrocada a cada passo. A Rainha de Pentaclos sorria satisfeita. Guardou as sementes dentro do vestido e a moeda pô-la na bolsa atada à cintura.
(22/7/09)
(c. de 1040 palavras)
9 DE PAUS / LOUCO
O nove de paus é defensivo, desconfiado, sempre a postos.
Há um homem frente a uma fiada de paus levantados ao alto como uma muralha. O Louco aproximou-se dele e ficou a olhar com ar inocente durante um longo período para aquela estranha construção defensiva que parecia quebrar a harmonia intrínseca da paisagem. Como uma enorme borbulha espinhosa no meio da terra.
Ele tinha de a atravessar. Seguramente algo melhor, algo incrivelmente maravilhoso estaria por detrás daqueles paus longos. Tudo o que é defendido é-o por ser valioso (pensa o Louco na sua ingenuidade de criança).
O Louco aproxima-se do homem mais velho e curvado, apoiado num pau (como se o trabalho de eternamente defender-se o cansasse), quase aos pinotes, exibindo confiança e um grande sorriso. De imediato o homem assume posição de ataque e avança contra ele. Atemorizado, o Louco recua e pergunta:
- O que fazes? Eu só quero passar.
- Ninguém passa! Ninguém passa daqui adiante!
- Porquê?
- Porque não! Eu pus esta barreira! Daqui para diante são as minhas terras! Só queres roubar o fruto do meu trabalho.
- Não - defende-se o Louco. - Não te quero tirar nada. Só quero passar, viajar, ver o que está mais além.
- Além estão as minhas terras, não passas! - disse e avançou um passo furioso.
De repente sente uma mordidela na perna e grita de dor. Era o pequeno cão branco do Louco (que lhe perdera o faro, mas voltara a recuperar o odor), a ferrar o dente. O homem virou a atenção para o canito, tentando sem sucesso acertar-lhe com o pau. O cãozito era demasiado ágil. Entretanto o Louco aproveitou a confusão para abrir uma brecha na muralha de postes e pisgou-se para o outro lado, certo de que havia maravilhas à sua espera.
Quando o cão parou de dançar aos pés do homem (não lhe acertou nem uma vez), já o intruso ia longe. O homem viu a brecha no muro e caiu de joelhos a chorar. Ficou ali por muito tempo com o pau tombado, a penar de angústia, pensando que todas as suas precauções não tinham levado a nada e fora um canito, quase uma formiga, o causador daquela grande desgraça, um enorme buraco na muralha! Que grande buraco! Qualquer um podia passar por ali e roubar-lhe tudo. Tudo! Ficou bastante tempo a lamentar-se, o pobre homem, até que decidiu erguer-se e refazer o muro: em cimento. Mas ele não sabia que os muros, quando têm de cair, nem se forem feitos de titânio ou diamante se aguentam de pé (e às vezes as melhores muralhas são as de ar).
O Louco já ia bastante avançado, com o canito sempre atrás, a bailar-lhe entre os pés, a dizer-lhe em linguagem canina: por favor, volta para trás, o mundo é perigoso, tu tens tudo em casa, não é preciso aventurares-te, o mundo não se importa conosco nem nos receberá de braços abertos. Devias ter lido mais livros, diz o cão (em linguagem de cão que o Louco não compreende), ias ser menos ingénuo. Ou se calhar, pensa ele um bocadinho, não devias ter lido livro nenhum.
O Louco colheu uma maçã e uma pêra das árvores, partilhou uvas da videira com o canito branco (que as comeu com gosto) e dormiu sob as estrelas. O Louco ele próprio tinha um pau, mas nem lhe passou pela cabeça usá-lo para a violência. Na ponta há um lenço vermelho atado: uma pequena trouxa para levar o essencial. Mas ele esquece-se de a encher. Quando saiu pôs duas bolachas. Só as encontrou dois dias mais tarde e deu-as ao cão. Não tinha fome. As vistas, as novas paisagens enchiam-lhe os olhos de maravilhas e, parecia, também a barriga. Á noite, já ele estava bem adormecido, o canito apanhou alguns frutos que cairam no chão e colocou-os, com imensa mestria, dentro da trouxa vermelha. De manhã o Louco sentiu um peso ligeiro, mas não se importou. Havia ainda tanta coisa por descobrir! Seguramente outro passo era uma promessa, um abismo cheio de promessas!
RAINHA DE PENTACLOS / MÁGICO
O Mágico ia no trilho do Louco. Encontrou a Rainha de Pentaclos no caminho. Tinha seguido inicialmente, por meio dos seus olhos mágicos, as invisíveis pegadas do Louco que mal se viam, e depois as do canito, que eram mais aparentes. Infelizmente o cão branco, seguindo apenas a lógica, perdia-se demasiado, enquanto que o Louco, seguindo o vento e as nuvens, não se perdia nunca: estava sempre onde devia estar. Onde quer que estivesse - esse era o caminho certo.
No trilho encontrou uma bela mulher, ricamente vestida de ouro. Apesar de bela pareceu-lhe um pouco dura. Ou melhor: demasiado prática. Notou o quanto o ouro brilhava. Ela esfregava-o todas as noites. Gostava muito daquele ouro. Dera-lhe trabalho adquiri-lo. Agora contava as azeitonas da oliveira: antes de vendê-las tinha de ter a certeza do seu número exacto Uma parte venderia e a outra era para fazer azeite. Ela gostava muito de azeite. Sentia-se feliz enquanto mirava cada azeitona. Mal viu o Mágico. Quando ele a abordou ela sobressaltou-se:
- Esse, porque quem demandas, como é?
- O Louco? - o Mágico reflectiu um pouco. - É uma criança grande, como se nunca tivesse crescido. Hás-de notar: tem sempre um sorriso na cara e pensa que tudo e todos são extraordinários. Mas não fica muito tempo num lugar.
Ela pensou:
- Sim, julgo que o vi. Há alguns dias atrás - finalizou com o dedo da unha bem cuidada a tocar no queixo e os olhos alçados para o ar.
- Por onde foi?
- Quanto vale para ti essa informação?
"Ah, uma mulher de negócios."
Chegaram a acordo. De dentro do manto o Mago tirou um saquinho de sementes e uma moeda de ouro. A Rainha de Pentaclos indicou-lhe o caminho seguido pelo Louco com o queixo: um caminho estreito entre duas montanhas próximas, com risco de derrocada a cada passo. A Rainha de Pentaclos sorria satisfeita. Guardou as sementes dentro do vestido e a moeda pô-la na bolsa atada à cintura.
(22/7/09)
(c. de 1040 palavras)
quinta-feira, julho 23, 2009
O Mágico e o Louco
(conto)
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO
-I-
Era uma vez um Mágico que foi à procura do Louco (the fool). O Mágico tem um aspecto assaz bizarro. Tem o cabelo negro e liso comprido, muito brilhante. O manto vermelho escuro tapa-lhe o corpo inteiro, desde o pescoço até aos pés. O Mágico tem tudo dentro daquele manto. Tem paus e coisas brilhantes, varas de magia, óculos mágicos, mágicos de óculos. Pequenos cães treinados e um pintainho cantor. Quando tem sede de vinho, de água ou de sumo tira do interior dele um copo pequeno sempre cheio que nunca se entorna. É uma estranha personagem, às vezes parecendo velho, outras muito jovem. É um mágico consumado. Fala a língua das serpentes e das pedras, conhece o som das folhas das árvores e os segredos que contam. Está à procura do Louco, seu velho companheiro de aventuras. O Louco segue a sua natureza rebelde e sem caminhos pré-definidos. O Louco vai ao desafio e da última vez que o viu o Mágico notou que um cachorrinho pequeno e branco o seguia, ladrando muito vivaz, a avisá-lo de todos os perigos para os quais era cego.
O Louco já não se vê. O Mágico sabe bem que não deve prendê-lo. Seria um crime universal. Um crime que não suportaria contra si, nem cometê-lo. Mas há coisas importantes que o Louco conhece e o Mágico tem de o seguir. O número um atrás do zero. O Uno a seguir o infinito e indissolúvel. O uno sempre atrás do zero.
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO
-I-
Era uma vez um Mágico que foi à procura do Louco (the fool). O Mágico tem um aspecto assaz bizarro. Tem o cabelo negro e liso comprido, muito brilhante. O manto vermelho escuro tapa-lhe o corpo inteiro, desde o pescoço até aos pés. O Mágico tem tudo dentro daquele manto. Tem paus e coisas brilhantes, varas de magia, óculos mágicos, mágicos de óculos. Pequenos cães treinados e um pintainho cantor. Quando tem sede de vinho, de água ou de sumo tira do interior dele um copo pequeno sempre cheio que nunca se entorna. É uma estranha personagem, às vezes parecendo velho, outras muito jovem. É um mágico consumado. Fala a língua das serpentes e das pedras, conhece o som das folhas das árvores e os segredos que contam. Está à procura do Louco, seu velho companheiro de aventuras. O Louco segue a sua natureza rebelde e sem caminhos pré-definidos. O Louco vai ao desafio e da última vez que o viu o Mágico notou que um cachorrinho pequeno e branco o seguia, ladrando muito vivaz, a avisá-lo de todos os perigos para os quais era cego.
O Louco já não se vê. O Mágico sabe bem que não deve prendê-lo. Seria um crime universal. Um crime que não suportaria contra si, nem cometê-lo. Mas há coisas importantes que o Louco conhece e o Mágico tem de o seguir. O número um atrás do zero. O Uno a seguir o infinito e indissolúvel. O uno sempre atrás do zero.
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O mapa do Valete de Pentaclos levou-o até ao bosque. No interior descobriu a muralha de pedra. Manipulou o mecanismo certo e eis que uma pequena abertura na muralha se revela. O Mágico arrasta-se por ela durante uma hora em total escuridão até alcançar a saída e o sol lhe queimar os olhos. O Rei de Pentaclos não fora parvo. Escolhera justo o antigo lugar das lendas, aquele onde ninguém se atrevia a ir, tal era o medo e o respeito. Histórias antigas falavam de dragões cuspidores de veneno, bruxas, fantasmas esfomeados, mortos-vivos. Porém tudo o que o Mágico encontrou foi um Príncipe Adormecido. Pelas roupas há séculos que ali devia estar no estado de suspensão animada. Era muito bonito. Tinha o cabelo loiro, como o Louco. Uns belos lábios vermelhos. Esfregou os olhos. Não havia tempo para isto. Notou quatro espadas a ornamentarem a urna transparente. Prontas para uma batalha invisível, mas neste momento a descansarem, também elas, das penas da vida. Quantas teriam saboreado o sangue de fogo dos antigos dragões? E será que, despertas, recordariam, ávidas, a sede do mesmo sangue?
Avançou até à gruta, perto. No interior viu ossos desconexos. Ao alto, numa plataforma, viu o que devia ter sido o último dragão: os ossos estavam miraculosamente intactos e ainda juntos numa quase abominável assombração para quem tivesse medo - não o caso do Mágico.
À sua frente, abaixo da plataforma, estendia-se o tesouro do Rei, por câmaras e câmaras que violavam o interior da montanha. O Mágico ignorou cada pedra valiosa, cada ceptro de ouro, cada saco de moedas e passou adiante, até à base da plataforma. Trepou até ao cimo e alcançou o velho esqueleto do idoso dragão. Deve ter vivido mais de quatrocentos anos, pensou ao analisar os ossos. Com uma faca de diamante, que roubara décadas atrás a um idoso feiticeiro com quem dormira uma noite, ralou parte do osso para dentro de uma caixa minúscula que guardou na bainha do pesado manto. No fim voltou as costas àquele portento e retornou pelo mesmo caminho. Ao passar pelo Príncipe Adormecido sentiu-se tentado a quebrar a urna com um golpe seco de mão e a acordá-lo com um beijo apaixonado, mas deteve-se.
"Não eu. Não serei eu a acordá-lo."
Do lado de fora, já no bosque, respirou fundo e pensou que neste momento o rapazote devia estar a acordar com uma bela ressaca.