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quarta-feira, outubro 22, 2014
domingo, setembro 30, 2012
SENHOR BENTLEY COM AS IDEIAS DO COSTUME (29 Setembro de 2012)
(Algo que escrevi ontem, durante o percurso do Metro. Em cerca de 15 minutos, mais ou menos.)
==================================================================
O Senhor Bentley às vezes tem ideias do catano. O magano decidiu juntar-se à manifestação no Terreiro do Paço. Calçou as pantufinhas, pôs um gorro de dormir todo catita, vestiu o pijama com flores rosas e amarelas, pegou de supetão no guarda-chuva (estremunhado, o coitado dormia) e allez-hop – lá foi ele para o Terreiro do Paço.
- Vou-me Manifestar! - dizia, ao pombo que o quisesse ouvir. - Vou-me Manifestar! - exclamava com grande empenho.
Mas a meio do trajecto aéreo (e para quem não conhece o Sr. Bentley informamos que ele voa pelos céus de Lisboa com a ajuda do seu grande amigo, o guarda-chuva voador), a meio do trajecto, dizíamos, deitou um olhinho à Lisboa lá de baixo e decidiu parar.
Aterrou na cabeleira marmórea do Marquês de Pombal.
Eu não sei como raio é que o homem fez aquilo – passes de mágica ou o camandro – mas tirou um megafone sabe-se lá de que recanto, e pôs-se a discursar.
- Compatriotas! - começou, do alto da cabeleira. - Compatriotas, é meu dever estar hoje aqui, exactamente Aqui – e aponta furiosamente para baixo com o indicador – neste mesmo sítio, AquiAquiAqui – faz uma pausa, suspira, e de olhos esbugalhados a fazer mossa num rosto quase todo ele plácido, prossegue – para vos falar sobre os sacrifícios – e à palavra sacrifícios soava como se lhe apertassem os testículos num torno – sobre os Sacrifícios que o povo deve ao conforto dos políticos.
Parou.
- Enganei-me. Perdão, perdão – pigarreou, tornou a agarrar no megafone e prosseguiu – que o Povo deve ao seu País. O seu País amado. Pois não é ele amado? Sim, sim!
[Interrupção ao narrador: estou no Metro, a caminho da Revolução, e enquanto escrevo estas linhas, há um Gato que Mia. Ó, portentoso, portentoso sinal! Continuemos.]
-Tudo se deve ao nosso amado País – gritava, com alma, o senhor Bentley pelo megafone. - Há que dar tudo, TUDO!, à Pátria Querida! Portanto eu proponho – avançou o senhor Bentley, já mais calmo e com um tom de voz que parecia tremendamente sensato – um rim.
Calou-se por instantes.
Lá em baixo, aos pés da estátua, já havia malta dispersa, mais ou menos atenta às palavras “daquele gajo ali no topo, deve ser doido, o homem é maluco. Vou ficar a ouvi-lo.” Alguns ergueram o sobrolho, confusos.
“Um rim...?”
-Um rim – continuou o senhor Bentley, aquela suprema besta. - É sabido que os rins, no mercado negro, valem um balúrdio, um balúrdio! - dizia, empinando-se em bicos de pés e a gesticular com a mão livre de modo enfático, para marcar o discurso. O chapéu-de-chuva pairava por cima dele. - Ora se cada Português vendesse, no mercado negro, um rim (pelo amor de Deus, quem é que precisa de dois!) e o dinheiro da venda fosse entregue a 120%, em sede de IRS, ao Nosso Governo Salvador – a cada palavra em punha-se em pontas, falando com grande teatralidade – a dívida seria paga em semanas. Semanas, meus senhores. Que digo eu, dias, dias! Horas!
Houve um idiota ou outro que achou que aquilo fazia sentido.
Findo o discurso, calou-se o senhor Bentley e lá voou para o Terreiro do Paço, onde se divertiu o resto do dia a pegar em pombos e a jogá-los aos discursantes.
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O Senhor Bentley às vezes tem ideias do catano. O magano decidiu juntar-se à manifestação no Terreiro do Paço. Calçou as pantufinhas, pôs um gorro de dormir todo catita, vestiu o pijama com flores rosas e amarelas, pegou de supetão no guarda-chuva (estremunhado, o coitado dormia) e allez-hop – lá foi ele para o Terreiro do Paço.
- Vou-me Manifestar! - dizia, ao pombo que o quisesse ouvir. - Vou-me Manifestar! - exclamava com grande empenho.
Mas a meio do trajecto aéreo (e para quem não conhece o Sr. Bentley informamos que ele voa pelos céus de Lisboa com a ajuda do seu grande amigo, o guarda-chuva voador), a meio do trajecto, dizíamos, deitou um olhinho à Lisboa lá de baixo e decidiu parar.
Aterrou na cabeleira marmórea do Marquês de Pombal.
Eu não sei como raio é que o homem fez aquilo – passes de mágica ou o camandro – mas tirou um megafone sabe-se lá de que recanto, e pôs-se a discursar.
- Compatriotas! - começou, do alto da cabeleira. - Compatriotas, é meu dever estar hoje aqui, exactamente Aqui – e aponta furiosamente para baixo com o indicador – neste mesmo sítio, AquiAquiAqui – faz uma pausa, suspira, e de olhos esbugalhados a fazer mossa num rosto quase todo ele plácido, prossegue – para vos falar sobre os sacrifícios – e à palavra sacrifícios soava como se lhe apertassem os testículos num torno – sobre os Sacrifícios que o povo deve ao conforto dos políticos.
Parou.
- Enganei-me. Perdão, perdão – pigarreou, tornou a agarrar no megafone e prosseguiu – que o Povo deve ao seu País. O seu País amado. Pois não é ele amado? Sim, sim!
[Interrupção ao narrador: estou no Metro, a caminho da Revolução, e enquanto escrevo estas linhas, há um Gato que Mia. Ó, portentoso, portentoso sinal! Continuemos.]
-Tudo se deve ao nosso amado País – gritava, com alma, o senhor Bentley pelo megafone. - Há que dar tudo, TUDO!, à Pátria Querida! Portanto eu proponho – avançou o senhor Bentley, já mais calmo e com um tom de voz que parecia tremendamente sensato – um rim.
Calou-se por instantes.
Lá em baixo, aos pés da estátua, já havia malta dispersa, mais ou menos atenta às palavras “daquele gajo ali no topo, deve ser doido, o homem é maluco. Vou ficar a ouvi-lo.” Alguns ergueram o sobrolho, confusos.
“Um rim...?”
-Um rim – continuou o senhor Bentley, aquela suprema besta. - É sabido que os rins, no mercado negro, valem um balúrdio, um balúrdio! - dizia, empinando-se em bicos de pés e a gesticular com a mão livre de modo enfático, para marcar o discurso. O chapéu-de-chuva pairava por cima dele. - Ora se cada Português vendesse, no mercado negro, um rim (pelo amor de Deus, quem é que precisa de dois!) e o dinheiro da venda fosse entregue a 120%, em sede de IRS, ao Nosso Governo Salvador – a cada palavra em punha-se em pontas, falando com grande teatralidade – a dívida seria paga em semanas. Semanas, meus senhores. Que digo eu, dias, dias! Horas!
Houve um idiota ou outro que achou que aquilo fazia sentido.
Findo o discurso, calou-se o senhor Bentley e lá voou para o Terreiro do Paço, onde se divertiu o resto do dia a pegar em pombos e a jogá-los aos discursantes.
domingo, agosto 19, 2012
Conto: O Capítulo
Sou a Lília e acabei de ter uma revelação abrumadora. Sim, sim. É uma palavra espanhola, mas eu gosto da sonoridade e da estética implícita. Algo que Abruma é algo que me derruba. Sem apelo. Agravo. Ou consideração. Eu escrevo. Aliás, vivo da escrita. Sou a Lília, mas tenho uma infinidade de pseudónimos e no entanto permaneço absolutamente anónima. Ninguém, ninguém me conhece. Escrevo de manhã à noite; vou ao café da rua ao lado, peço uma bica escaldada, fico cinco minutos; leio os títulos do Diário de Notícias, e logo regresso a casa - e à minha fiel secretária. Aí deposito os meus ossos e continuo a escrever. O que seja. Sou uma escritora que trabalha e que tem trabalho todos os dias. De facto, assim é. Não tenho tempo para nada. Nem para ir ao ginásio. De manhã à noite, a escrever, para pagar as contas. Aumentou a luz, o gás, a água, os impostos municipais. Tudo. Mas vou vendendo o meu trabalho e assim sobrevivo.
Onde é que eu ia? Ah sim, a tal da revelação abrumadora.
Tive um sonho.
Sonhei com a minha Musa. Ela é uma linda ruiva escocesa, que me fala em Galego (às vezes até em Vasco) e que não me passa cartucho. Invejo-lhe os belíssimos caracóis. Contou-me qualquer coisa no sonho, mas só recordei o quê depois do almoço, enquanto lavava a loiça.
- Deus - disse-me ela - Deus, - repetiu - ocupa-se agora a escrever a tua vida romântica.
- Desculpa? - perguntei, dentro do sonho, enquanto tinha os pés presos ao tecto com supercola três e a mirava de cabeça para baixo. A minha belíssima Musa (que não me passa cartucho, tenho de pôr requerimento - nem sei bem a quem - para ma substituírem) mirou-me com aqueles fantásticos e cintilantes olhos verdes e esclareceu que Deus, no próprio momento em que falávamos, se preparava para escrever o capítulo do livro que era eu dedicado à minha vida romântica.
- Já o vi - contou e ergueu-se. Fumava um cigarro com cheiro pestilento que eu odiava, mas ela, por mais que eu pedisse, nunca abandonava o vício. - Ao alto da folha branca A4 digitou, no computador, no programa Word, “VIDA ROMÂNTICA”. Capitalizado. Por baixo colocou, em letra menor: “Anos 10-70”.
Acho que caí ao chão, Abrumada, por volta dessa altura.
- Mas... - eu disse, um pouco confusa. - Eu lembro-me. Aos dez anos gostei do filho do patrão do meu pai. Ele tinha quinze (prefiro os homens maturos). Ele não me ligou pevide, como era de esperar. Na verdade partiu-me o coração quando eu, Lília, entrei aos onze anos no quarto da minha irmã mais velha, Lisa. Lisa tinha acabado de fazer dezasseis anos e beijavam-se ambos na cama dela. O que eu chorei. Semanas a fio. Lisa encolhia os ombros quando me via e suspirava de enfado. Lembro-me do bonita que estava quando ganhou o prémio de Miss Fotogenia no concurso de Miss Portugal, três anos mais tarde. Casou-se com um empresário Macaense e há décadas que não oiço dela. Não éramos próximas, para dizer a verdade.
Aos doze anos gostei de um colega; aos quinze mudei de escola e enamorei-me de um rapaz que tinha dezoito anos e a sua própria mota. Casei-me aos vinte e dois anos, divorciei-me aos vinte e nove. Vivi todo este tempo, perguntei-me a mim própria, sem direcções claras e precisas de um hipotético Deus? Um Deus que escrevia o roteiro da minha vida e só agora, aos quarenta e cinco anos, é que lhe dava na telha de escrever essa parte, essa parte essencialíssima?!
A minha Musa, que se chama Begoña, a propósito, esclareceu-me as dúvidas. Garantiu-me que não. Aconteceu assim porque estava escrito.
- Como?! Só vai escrever esse capítulo agora!
Ela suspirou, deu uma passa e finalizou a conversa com um:
- É complicado. E agora vê se acordas que já passa das nove.
[C. de 660 palavras // 19 de Agosto de 2012.]
segunda-feira, abril 30, 2012
AMÉLIA E BRUNA: Análise de Máximas de Grice (Semiótica)
1.
Amélia: Limpaste os vidros?
2.
Bruna: Estava escuro.
3.
Amélia: Estava escuro como ontem ao meio-dia?
4.
Bruna: Vai encher-te de pulgas.
5.
Amélia: Está bem. Hás-de cá vir pedir batatinhas.
* * *
Amélia
inicia o diálogo, a comunicação, com o pedido de uma informação. Trata-se de um
acto linguístico directo, já que foi colocada uma questão de modo frontal.
A
primeira condição de que devemos estar cientes é a da vontade de comunicar
entre as participantes, i. e., o Princípio da Cooperação no âmbito da
comunicação que, em termos gerais, significa, que há entre as partes vontade de
comunicar. Aliás, esta vontade pode em princípio ser cumprida porque tanto uma
como a outra se exprimem numa língua natural ou comum. Ou seja, partilham um
código idêntico de linguagem pré-estabelecido.
Portanto,
recapitulando:
1)
Há a vontade e o desejo de comunicar;
2)
Há o conhecimento de um código comunicativo comum;
3)
Não há impedimento nem físico nem mental que impossibilite o normal desenrolar
da comunicação.
Além
de tudo isto existe também o contexto comum a ambas as falantes.
Portanto,
que género de mensagem estão ambas a tentar transmitir à outra?
Como
dizia aquele cavalheiro que nunca foi apanhado na Inglaterra:
-
Vamos por partes.
Bruna
que, já anteriormente determinado, respeita o Princípio da Cooperação no âmbito
comunicativo e partilha um código comum e, para além disso, também um contexto
referencial, responde à pergunta directa - não respondendo de todo. E no
entanto a resposta apesar de não directa foi dada e compreendida por Amélia. De
acordo com a questão, uma maneira adequada de Bruna retorquir seria:
-
Sim.
Ou:
-
Não.
Ou
ainda:
-
Não - seguida de uma explicação detalhada do motivo.
Não
obstante, Bruna, deu-lhe na telha e não fez nada disso. Um extraterrestre,
desconhecedor do nosso particular mecanismo comunicativo terreno, ao
testemunhar esta interacção iria considerá-la desadequada, absurda e insana.
Mas não o é. E porquê? Porque Amélia está segura de que Bruna está a cooperar
na comunicação, logo, infere que esta informação (“estava escuro”) é relevante
para a questão. O “não, não limpei” que, logicamente, devia ter sido dito antes
do “estava escuro”, é adivinhado, está subentendido na troca comunicativa. Uma
resposta completa seria:
-
Não limpei por estar escuro e por isso era impossível ver as manchas.
Repetindo:
parte da comunicação é adivinhada, inferida, deduzida. Quase de modo
telepático, dir-se-ia. Bruna escolheu logo revelar porque motivo não tinha
limpo os vidros. Está, então, a praticar dois actos ilocutórios: um em que
afirma que o dia está escuro e outro em que diz que não limpou os vidros devido
a tal facto. (O chamado dois em um.) Se pensarmos racionalmente é um
desperdício de recursos delinear na fala,
exaustivamente, cada um destes actos linguísticos. Pura perda de tempo.
Talvez até gravado na biologia humana, na sua génese evolutiva, esteja este
salto inferencial que permite deduzir de algo que é dito algo totalmente oposto
ou permite adivinhar que mais do que uma informação está a ser transmitida.
Continuemos
a dissecação.
Relativamente
à segunda intervenção (“Estava escuro”), cabe-nos questionar: foi quebrada
alguma máxima conversacional de Grice?
(O
Princípio da Cooperação conversacional pede, Exige, requere!, que haja uma
contribuição para o diálogo.)
Ora
bem. A Máxima da Quantidade (não dar nem mais nem menos informação da que foi
requerida) foi quebrada?
Sim,
porque para ter sido satisfeita bastaria um sim ou um não. Bruna forneceu
informação que não pedida na altura.
E
quanto à Máxima da Qualidade? (Diz apenas aquilo que sabes ser verdadeiro e de
que tens provas.) Foi quebrada?
À
primeira vista pode dizer-se que não, não o foi: estava efectivamente escuro.
Porém, lendo a intervenção seguinte, pode ficar-se com dúvidas. Nela, Amélia
coloca outra questão:
-
Estava escuro como ontem ao meio-dia?
Desconhecendo
o resto do texto pode elaborar-se uma série de deduções que confirmam a segunda
intervenção, a de Bruna. Podemos supôr que o diálogo tem lugar num escuro dia
de inverno, o céu está coberto de nuvens negras ameaçadoras, que escondem
totalmente a luz brilhante do Sol, impossibilitando a visão efectiva de manchas
nos vidros - e, é lógico, a sua limpeza. Pode-se, também inferir que Amélia
está longe dos vidros e fechada entre quatro paredes, incapacitada de ver o
exterior. Ou seja, supomos que é uma pergunta franca e sincera:
-
Estava escuro como ontem ao meio-dia?
Todavia
logo nos damos conta que se trata de Ironia quando vemos a quarta intervenção
desta conversa. Nela Bruna profere algo que parece quebrar a Máxima da Relação
e tem toda a aparência de uma ordem imediata:
-
Vai encher-te de pulgas.
O
tal extraterrestre, que não conhece as subtilezas da conversação humana, e
talvez tenha aprendido tão-somente o básico, pode espantar-se e pensar que
Bruna é a superior hierárquica e que aquela é uma ordem imperativa à qual deve
obedecer de imediato e, logo, deixar de fazer perguntas parvas. O extraterrestre
pode julgar que os superiores hierárquicos humanos (ou os indivíduos de maior
estatuto social) têm uma estranha forma de se fazer obedecer: num momento são
iguais e no instante seguinte estabelecem a inquestionável superioridade de
estatuto por meio de uma ordem que parece vir a despropósito.
Contudo,
nós, humanos sabemos, pela quarta intervenção, que a pergunta de Amélia que a
antecede, não foi inocente e de facto nem pergunta era, antes uma insinuação,
uma frase carregada de ambiguidade e veneno. E uma acusação bem explícita,
ainda que ambígua. Tratou-se de uma ironia linguística que carregava nela
implicitamente a informação de que Amélia não acreditava no que Bruna lhe dizia
e que na verdade não havia limpo os vidros por não o ter desejado fazer. Para Amélia
não houve factor exterior a influenciar a decisão. O leitor (ou ouvinte
hipotético, que porventura oiça este curto diálogo) infere que “ontem ao
meio-dia” não houve eclipse solar e o céu esteve descoberto, sem nuvens e com
uma visibilidade excepcional.
Portanto,
quanto à terceira intervenção, todas as máximas de Grice foram respeitadas?
A
Máxima da Quantidade não foi respeitada porque foi fornecida, mais uma vez,
mais informação do que a que era necessária. (Era desnecessário relembrar, para
a conversa actual, que ontem também
esteve, e tomando a frase à letra, escuro.)
A
Máxima da Qualidade foi, todavia, violada porque (e assumindo que Amélia não
tem acesso ao exterior) ela afirma através da ironia algo de que não tem
provas: que o dia lá fora está bonito e descoberto.
A
Máxima da Relação (ser relevante) não foi infringida porque Amélia permanece
dentro do assunto tratado.
E
quanto à Máxima do Modo? Foi quebrada porque imbuída, a pergunta, de
ambiguidade e insinuação - desta maneira Amélia absteve-se de ser directa e
acusar Bruna com frontalidade.
Continuando.
Analisemos agora a quarta intervenção, a de Bruna:
-
Vai encher-te de pulgas.
Novamente,
tomando esta ordem literalmente, pode-se elaborar uma série de suposições.
a)
Bruna é a chefe de Amélia e trata-se de uma ordem directa (algo já descartado);
b)
vendo que a) não é possível, tentemos encontrar um sentido implícito para esta
ordem aparente. Amélia sabe que Bruna continua a cooperar no diálogo, portanto,
que informação lhe está a querer passar com esta ordem aparente? Seguindo o
raciocínio lógico, Amélia compreende que Bruna percebeu bem a ironia e o
sarcasmo da sua questão (que não era de todo uma questão) e que lhe desagradou
esse sarcasmo. Quer fazer-lhe passar a mensagem
tanto do seu desagrado como do
facto de que não apreciou ser chamada de mentirosa (pois o que Amélia afirma,
dissimuladamente, dentro da pergunta que não é uma pergunta, é que Bruna mentiu
e preferiu não limpar os vidros. Na acepção de Amélia não havia nenhum tipo de
impedimento para cumprir esta função. Bruna revela o seu desprazer de modo nada
subtil dando uma ordem aparente para se ir “encher de pulgas”. Na verdade este
é um insulto grave já que a chama de cadela (ou pressupõe que o seja). Ou cabra
(ambos os mamíferos possuem pêlo em abundância). Regressando ao hipotético
extraterrestre, ele poderia, levando literalmente a frase, pressupôr outra
possibilidade, aberrante, implausível para nós, mas quem sabe, não para ele:
A
possibilidade de Amélia ter a capacidade de se transfigurar em cabra ou cadela
e a frase ser, não um insulto, e sim antes um pedido para que a colega
relaxasse regressando a uma forma animal mais contemplativa do mundo.
Porém,
voltando a um contexto não tão fantasioso, e limitando-nos à realidade das
coisas possíveis, reflectindo sobre a frase percebe-se ser a mesma um insulto.
Se Bruna fosse a líder talvez quisesse com ele reassegurar a dominância do seu
território emocional e impôr o seu poder, fazendo-se (na sua opinião) respeitar
pela que é na realidade a sua subordinada. Mas, seguindo o raciocínio lógico, é
provável que Bruna percepcione Amélia como uma pessoa venenosa e que foi esta
que em primeiro lugar a insultou chamando-a de mentirosa (ainda que
indirectamente). Portanto há a possibilidade de se tratar de um reafirmar de um
território emocional e psicológico. Bruna torna claro: estas fronteiras estão
bem definidas. Não voltes a pôr-lhe a pata em cima. Respeita-me. Com este
insulto está a deixar claro que são colegas e iguais e que não a pode rebaixar
de modo algum.
c)
Contudo podemos, se quisermos, deduzir ainda outro insulto na quarta intervenção. Quando Bruna comanda: “Vai
encher-te de pulgas.” pode estar a infligir uma ferroada dolorosa à colega.
Quem sabe se nos balneários Bruna tenha visto Amélia vestir-se. E talvez tenha
reparado numa (hipotética) profusão capilar que cobriria o inteiro corpo de
Amélia. Pode ser que na altura tenha pensado: “Parece um urso.”, mas não o
proferiu por que iria contra as elementares regras de boa educação e cortesia
entre colegas; mas que, nesta ocasião, sentindo-se ela mesma primeira e
vilmente insultada (não limpaste os vidros porque não quiseste. Estás a mentir.
És uma mentirosa), resolveu revelar (mais ou menos indirectamente) aquilo que
pensava: tens pêlos a mais, pá. Compra um cortador de relva.
Em
relação à quinta e última intervenção, feita por Amélia. Quando ela afirma:
-
Está bem.
Não
está de facto a concordar literalmente com a ordem anterior. Logo, está a
infringir a Máxima da Qualidade: afirma algo que sabe não ser verdade. Esta não
é uma concordância. Não é uma cega aceitação da aparente ordem antes dada. Não
deve o observador (ou ouvinte) casual deste diálogo presumir que Amélia prontamente
anuiu em cumprir a ordenança de Bruna. É uma concordância irónica. É uma
expressão que serve antes a função de terminar o pequeno diálogo. A frase
seguinte:
-
Hás-de cá vir pedir batatinhas.
Também
não carrega nela o significado literal de que logo a seguir Bruna vai
confeccionar um cozido à portuguesa. Não se deve inferir que Amélia conhece os
ingredientes disponíveis na cozinha de Bruna onde esta cozinhará o hipotético
cozido à portuguesa. E que sabe não ter as batatas indispensáveis. E que a
recusa anterior em limpar os vidros conduzirá à consequência natural de uma
recusa em emprestar as tais ditas batatas.
Um
extraterrestre teria uma certa dificuldade em seguir o diálogo se desconhecesse
toda esta rede de inferências que o entrelaça.
Se
não estamos a falar de batatas, então estamos a falar do quê?
Novamente
recorrendo a um raciocínio de tipo dedutivo, esta última mensagem transmite na
verdade duas mensagens:
a)
A conversa acabou.
b)
Aviso de que no futuro não a ajudará.
Este
aviso ou ameaça foi feito recorrendo a uma metáfora.
Talvez
o diálogo fosse mais compreensível para o hipotético extraterrestre, observador
e investigador da comunicação humana, se o mesmo tivesse sido feito em termos
mais claros.
A:
Limpaste os vidros?
B:
Não limpei porque estava muito escuro na rua, impossibilitando-me de ver as
manchas.
A:
Não acredito no que me dizes. Aposto que estava claro o suficiente para os
teres limpo e não limpaste porque não quiseste. Estás a mentir.
B:
Não admito que me chames de mentirosa. Insultaste-me e com isso ultrapassaste
uma clara fronteira que tu, enquanto colega e igual, não deves ultrapassar. Em
recíproco vou fazer-te o mesmo para que fique bem claro que não o deves
repetir. Cabeluda.
A:
A conversa terminou. Deixo-te com o aviso de que no futuro não te ajudarei se
acaso precisares de auxílio no trabalho.
(A
sexta intervenção podia ser, por exemplo, um estalinho da boca.)
Eu
pessoalmente prefiro o diálogo que inclui batatinhas.
Nesta
intervenção final de Amélia, quantas máximas de Grice foram respeitadas ou
violadas?
A
máxima da quantidade foi violada porque Amélia não precisava de informar Bruna
do que faria num hipotético futuro.
A
máxima da qualidade foi quebrada tanto ao afirmar “Está bem”, quando claramente
não estava, como ao dizer “Hás-de cá vir pedir batatinhas” uma vez que Amélia
desconhece se no futuro Bruna lhe pedirá ajuda.
A
máxima da relação tem a aparência de estar a ser quebrada, pois a frase parece
vir do nada e não estar relacionada com o contexto, mas sabe-se que sim.
Portanto esta máxima não é infringida.
A
Máxima do Modo é também respeitada se recorrermos de novo a um raciocínio
dedutivo. É um aviso claro, objectivo e breve. Apesar de, na aparência, ser obscuro. Porém sabemos que tanto Amélia como
Bruna partilham um idêntico código linguístico e conhecem o significado desta
expressão.
E
pronto, quanto a análises, ficamos por aqui~.
(17-22
Abril de 2012)
________________________________________________________________
Bibliografia:
LIMA, José Pinto de (2007), Pragmática Linguística, Lisboa, Caminho.
quinta-feira, janeiro 26, 2012
Panfleto (conto)
(Adenda. Neste link podem-me ouvir a, errrr, declamar?, bom, a ler!, este pequeno texto.)
************************Ia eu todo lampeiro na direcção do meu trabalhinho (olarilólelas) quando me passam para a mão o panfleto com os seguintes dizeres:
Astrólogo Cura-Tudo, mas é que cura mesmo tudo!
Epá, pensei eu cá com os meus botões, até calos? (O que eu sofro com os calos, ai meu Jesus, nem imaginais). O Grande Vidente da Virgem Maria e Pai de Santo para Todos os Ofícios, como o senhor a si se nomeia, lista a série de Enfermidades Sérias que tem a capacidade de curar.
Passei os olhos pela lista. Vi:
- especialmente que garante ocultamente todos os trabalhos (epá, eu preciso de remodelar a cozinha! Será caro? E ocultamente será Mais caro ainda?). Resultados bueda, mas bueda rápidos, man, assim mesmo muito rapidinhos (isso é que eu gosto: rápido e barato. 'Xa cá ver se é mesmo barato... continuei a ler). Dom herdado de Ancestrais dotados (os meus eram pouco dotados. Enfim. Não se pode ter tudo). Soluciona casos desesperados como: Espiritualidade nos Problemas ou vice-versa; Sexuais Impotências (ou vice-versa, concluí); Negócios maus e/ou Piores que Maus; Amor Malfadado e Doído, Amor Entrevado e Maltratado; Insucesso Escolar, Insucesso Precoce, Obeso Insucesso (e insucesso magro?, perguntei-me, e insucesso anoréxico?); Mau Olhado, Mau pisado, encostado e encravado; Bruxarias de Feitiços e Feiticeiros; Drogas e Álcool; Desmanchos Imprevistos e Calculados. Calçudos e Cálculos Renais. Desaproxima e Desafasta a Pessoa Querida.
Ora bolas. O meu problema não resolve. Prossegui a leitura.
Leio toda a boa sorte e dou previsão para o passado, adivinho o presente e calculo o futuro - mesmo muito ao longe. Vou a casa, mas não é preciso.
Termina pungentemente com a frase:
SE QUERES SER BASTANTE FELIZ E PARAR A DESINFELICIDADE TELEFONA-ME E VERÁS. TU MERECES. TU MERECES.
Li que o pagamento podia ser fraccionado e racionado e apequenado. Li que se davam facilidades (ah, eu gosto tanto de facilidades). E li que as consultas eram todos os dias a quase todas as horas. Ora isto convém-me, pensei eu, portanto não fui.
Ah. Para quem quiser ir: é junto aos Correios. Junto aos CORREIOS!
*******************************
(Escrito em 15 m. Cerca de 350 palavras.)
domingo, agosto 30, 2009
529 [conto]
Não estou a dizer que o tenha notado assim de imediato. Não. Veio por fases. Melhor, por ondas. Há certos acontecimentos nas nossas vidas que vêm por ondas, não sei se já repararam. Eu tenho o hábito de reparar em tudo. Reparo tanto que perco quem amo assim. Perco amizades, perco casamentos porque o marido decidiu deitar-se com uma das minhas amigas quando eu não estava em casa. E eu reparei, claro, reparei no estranho comportamento dele, a sua alegria bizarra, fora de contexto, nada a ver com o seu carácter rígido e autoritário; reparei em como se sentia de repente incomodado quando esta agora ex-amiga estava presente e em como as suas orelhas avermelhavam; reparei até em dois momentos o modo como trocaram olhares e sorriram muito sem se darem conta. Reparei que os sustentaram só mais um segundo do que era habitual, mas foi tudo. Esse segundo disse-me tudo, disse-me o resto que ainda faltava saber. Sim, foram para a cama. Fizeram amor no nosso colchão, aquele colchão que nos custou os olhos da cara e que o Normando se recusava a comprar até lhe fazer ver os benefícios da aquisição. A saúde, as costas, a postura, o melhor sono. E era verdade. Soube que, pelo conforto, tiveram de dormir na nossa cama, no nosso quarto. Soube que provavelmente se encontraram depois na casa dela. Porque era divorciada e trabalhava a meio-tempo. Ele é que arranjava umas desculpas esfarrapadas para chegar mais tarde a casa e não ter o jantar feito a horas. Muito trabalho, o chefe pediu para ficar mais um bocado. Até logo. Ele tinha sorte, eu é que muitas vezes chegava não antes da meia-noite porque, a mim sim, me obrigavam a ficar no trabalho mais horas do que devia. Em casa encontrava-o já com o duche tomado e pronto para dormir. Mas isso não vem ao caso. Divorciei-me, claro. O que eu queria ilustrar é que tenho o hábito de reparar em tudo.
Por isso foi normal quando comecei a reparar no padrão anormal dos números. De súbito o número 529 estava por toda a parte. Com certeza já ouviram falar do famoso fenómeno 11:11. Cada vez que se olha para o relógio ou para o PC ou para a televisão - e são 11:11. Certas. Sempre. 11:11 por toda a parte. Milhões já reportaram este fenómeno. Há toda a sorte de teorias. Comunicação de anjos. A recordação de algo. Mas isso a mim não me importa. Estava a suceder-me pela primeira vez e era com o 529. Olho por acaso para a fachada de um prédio e o número que vejo é este; olho o relógio e são 5:29. Acordo a meio da noite e vou ver as horas: 5:29. Nas notícias há 529 infectados só num dia de gripe A num país qualquer. 529 por todo o lado. Ora mistérios não me agradam. Dão-me cabo do juízo e a primeira coisa que quero fazer é solucioná-los. Solucioná-los para que deixe de pensar neles obsessivamente. Quando já qualquer explicação racional tinha sido posta de parte por mim, desisti e pedi a ajuda de uma amiga ligada a esoterismos e metafísicas.
“Submete-te”, disse-me ela. “Ao quê?”, perguntei. Ela encolheu os ombros e disse “Simplesmente submete-te”. A Deus, ao Universo, a quem quer que seja que esteja a tentar comunicar comigo. “Porque raio não mandam um emílio? Ou me escrevem uma carta? Um sms? Isto parece-me demasiado labiríntico.” Ela riu-se. “Todas as noites quando fores dormir pede ao teu Guia Espiritual que te ilumine e indique o significado desta ocorrência. Vais ver, resulta. Demora é tempo.” “Quanto tempo?” “Não sei. Um mês. Duas semanas. Quatro meses.”
E assim, todas as noites, como a boa rapariguinha que sou, pedi a ajuda de um suposto guia. Ou mestre. Ou Eu Superior. Até requisitei com fervor a ajuda de Deus, não obstante o meu agnosticismo. Hoje é a noite 529. Hoje será a última noite em que peço o esclarecimento deste enigma. Depois, ah, depois ataco o mistério com a resolução de um Pittbull esfomeado ao atacar a carcaça de uma ovelha.
(29-30/08/2009)
Por isso foi normal quando comecei a reparar no padrão anormal dos números. De súbito o número 529 estava por toda a parte. Com certeza já ouviram falar do famoso fenómeno 11:11. Cada vez que se olha para o relógio ou para o PC ou para a televisão - e são 11:11. Certas. Sempre. 11:11 por toda a parte. Milhões já reportaram este fenómeno. Há toda a sorte de teorias. Comunicação de anjos. A recordação de algo. Mas isso a mim não me importa. Estava a suceder-me pela primeira vez e era com o 529. Olho por acaso para a fachada de um prédio e o número que vejo é este; olho o relógio e são 5:29. Acordo a meio da noite e vou ver as horas: 5:29. Nas notícias há 529 infectados só num dia de gripe A num país qualquer. 529 por todo o lado. Ora mistérios não me agradam. Dão-me cabo do juízo e a primeira coisa que quero fazer é solucioná-los. Solucioná-los para que deixe de pensar neles obsessivamente. Quando já qualquer explicação racional tinha sido posta de parte por mim, desisti e pedi a ajuda de uma amiga ligada a esoterismos e metafísicas.
“Submete-te”, disse-me ela. “Ao quê?”, perguntei. Ela encolheu os ombros e disse “Simplesmente submete-te”. A Deus, ao Universo, a quem quer que seja que esteja a tentar comunicar comigo. “Porque raio não mandam um emílio? Ou me escrevem uma carta? Um sms? Isto parece-me demasiado labiríntico.” Ela riu-se. “Todas as noites quando fores dormir pede ao teu Guia Espiritual que te ilumine e indique o significado desta ocorrência. Vais ver, resulta. Demora é tempo.” “Quanto tempo?” “Não sei. Um mês. Duas semanas. Quatro meses.”
E assim, todas as noites, como a boa rapariguinha que sou, pedi a ajuda de um suposto guia. Ou mestre. Ou Eu Superior. Até requisitei com fervor a ajuda de Deus, não obstante o meu agnosticismo. Hoje é a noite 529. Hoje será a última noite em que peço o esclarecimento deste enigma. Depois, ah, depois ataco o mistério com a resolução de um Pittbull esfomeado ao atacar a carcaça de uma ovelha.
(29-30/08/2009)
segunda-feira, agosto 10, 2009
REI DE ESPADAS/ LOUCO
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO (CONT)
O Rei de espadas era o homem consumado da lógica e da estratégica, ganha a custo com a maturidade e as lições de vida. Herdou um pequeno reino quando nem tinha dezasseis anos e quarenta anos depois construíra um império, alargando o território com conquistas, acordos de paz e casamentos (seus e dos filhos). Este Rei tinha fama de justo (se bem que às vezes um pouco implacável), os veredictos eram acertados e em ocasiões duros. Era um homem que cortava a rente sem deter-se em floreados. Instintivamente sabia o que seria correcto, por mais que doesse. Quem quer que falasse com ele sabia que só ia ouvir a verdade. Tinha uma grande capacidade para ser imparcial e, apesar de não ser falho de sentimentos, sabia temperar a razão e a emoção.
Ao fim de meses num impasse, em batalha com outro exército de um reino próximo que teimava em não submeter-se, o Rei de Espadas tinha chegado à conclusão que outra via teria de ser tomada: a diplomática. O Rei continuava a querer a posse deste Reino pois dar-lhe-ia acesso directo ao mar, logo, a maiores oportunidades de comércio (evitando por completo as tribos bárbaras do Norte que roubavam muitas das caravanas para o exterior). Contudo ele estava disposto a esperar anos se fosse preciso. Entretanto de nada valia delapidar os seus recursos humanos, militares e financeiros numa batalha e guerra obviamente empatadas, mais valia dizer: perdidas.
É neste cenário que o Louco aparece, cabriolando, assobiando, gozando o calor do sol na face enquanto o cão atrás de si mal pode andar, tão morto de sede estava.
- Quem é aquele homem? - pergunta o Rei de Espadas no limite da sua tenda. Avistara-o ao longe e todo o exército o observava, aquele homem que não parecia muito bom da tola, a andar aos saltinhos (com um cãozito meio morto atrás) no meio do terreno onde nem há quatro dias houvera uma carnificina violenta.
- Não sabemos, Senhor. Acabou de aparecer - respondeu o servo.
O Rei de Espadas esfregou a barba e mandou que o trouxessem à sua presença.
Dois guerreiros pujantes e musculados pegaram no Louco e arrastaram-no até à tenda do Rei.
O Louco foi jogado aos pés daquela magnífica e aterrorizante figura, sentada num cadeirão enorme.
De joelhos ele implorou:
- Por favor, não me mates! Não sei o que fiz! O que fiz de errado? Prometo que não volto a fazê-lo!
Estava aterrorizado. Em segundos questionou a sua viagem, a razão porque a empreendera. Fora aprendiz do Mágico durante tantos anos, em criança, mas a juventude chegara e ele queria ver o Mundo! Devia ser deveras um tolo, como os outros o chamavam. Ajoelhado, escondeu a cabeça entre as mãos e esperou pelo golpe fatal daquele quase gigante à sua frente.
De súbito o canito branco alcançou-o, cansado, mas teve forças de se meter entre o Rei e o Louco e ladrar furiosamente. Para o matares vais ter de passar por mim!, dizia ele ao Rei. O Rei de Espadas desatou num riso desenfreado que fez desmaiar o cão de susto e espantou o Louco que, a seguir, sentiu uma mão carinhosa a afagar-lhe o cabelo.
- Levanta-te. Quem tem servos tão corajosos e leais - apontou o cão de pernas para o ar - deve ser um homem valente.
Deram água ao cão e alimentaram-no quando enfim acordou. O Louco também foi alimentado. Nem sequer se lembrou de pensar na sua sorte. Cada vez que precisava de comer o destino providenciava.
Passaram a noite no maior conforto e no dia seguinte o Rei de Espadas foi directo ao assunto:
- Quero que vás ao meu oponente apresentar uma proposta de tréguas.
- E-eu? - balbuciou o Louco. Mas quem sou eu? - um homem com a inocência de uma criança, sem um osso de decepção no corpo. E isso era exactamente o que convinha ao Rei de Espadas naquele momento.
- És o homem apropriado para a missão - respondeu o Rei e colocou-lhe com gravidade a mão no ombro. Depois entregou-lhe um canudo longo com uma fita para o transportar.
- No interior estão as condições. Espera pela resposta.
- Não sei se sou a pessoa indica... - mas o Rei cortou-lhe a palavra.
- És sim. É um favor pessoal que me fazes - disse pegando-lhe nos ombros e estreitando-o contra si. - Somos amigos, não é verdade! - gritou com um riso de trovão.
- É... é - e o Louco lá foi, sentindo uma estranha responsabilidade que não queria sentir, uma responsabilidade com um peso esmagador.
O cão branco seguiu-o a medo, desconfiado. E se apanha com uma flecha? E se lhe dão uma espadeirada? Pela primeira vez os passos do Louco não eram confiantes, mas sim hesitantes e trémulos.
O outro Rei tinha o cabelo Ruivo e ar feroz. Leu os papéis do canudo sem uma palavra para o homenzinho trémulo que trouxera a mensagem.
O outro não dava ponto sem nó, pensou o Rei Vermelho. Isto devia trazer água no bico. Ordenou que o prendessem e o torturassem até revelar os verdadeiros planos do Rei de Espadas. Entretanto deu ordens ao exército para se preparar para o provável ataque iminente. Lá voltaram a arrastar o pobre do Louco, desta vez por outros dois matulões, para dentro de um buraco cavado no chão.
- Ó, bem bonita a fizeste - pensou o Louco quando os ossos bateram na terra, mas, estranhamente, não tinha medo. Sentiu falta de algo. O pau. Já não tinha o pau. E o cão já não o seguia. Que cão tão estranho era aquele, tentou lembrar-se da primeira vez em que o vira - sem resultado.
O canito branco foi a medo até à borda do buraco, mas logo se escondeu atrás de uma moita quando viu outro soldado ir buscar o Louco. Tirou-o do interior e pô-lo no armazém (única construção feita de barro, palha e pedra, o resto eram tendas).
Foi o canito que o salvou: mordeu o rabo ao soldado e o Louco teve tempo de se libertar das amarras onde começara a prendê-lo à parede. Perto notou um chicote. Correram a bom correr. Correram tanto que só à noite pararam. Para trás deixaram um rumor de guerra, guerra até ao limite, guerra sem lógica nenhuma. Guerra sem vencedores porque ambos os lados se dizimaram sem ganho algum.
(30.07.09)
(c. 1050 palavras)
O Rei de espadas era o homem consumado da lógica e da estratégica, ganha a custo com a maturidade e as lições de vida. Herdou um pequeno reino quando nem tinha dezasseis anos e quarenta anos depois construíra um império, alargando o território com conquistas, acordos de paz e casamentos (seus e dos filhos). Este Rei tinha fama de justo (se bem que às vezes um pouco implacável), os veredictos eram acertados e em ocasiões duros. Era um homem que cortava a rente sem deter-se em floreados. Instintivamente sabia o que seria correcto, por mais que doesse. Quem quer que falasse com ele sabia que só ia ouvir a verdade. Tinha uma grande capacidade para ser imparcial e, apesar de não ser falho de sentimentos, sabia temperar a razão e a emoção.
Ao fim de meses num impasse, em batalha com outro exército de um reino próximo que teimava em não submeter-se, o Rei de Espadas tinha chegado à conclusão que outra via teria de ser tomada: a diplomática. O Rei continuava a querer a posse deste Reino pois dar-lhe-ia acesso directo ao mar, logo, a maiores oportunidades de comércio (evitando por completo as tribos bárbaras do Norte que roubavam muitas das caravanas para o exterior). Contudo ele estava disposto a esperar anos se fosse preciso. Entretanto de nada valia delapidar os seus recursos humanos, militares e financeiros numa batalha e guerra obviamente empatadas, mais valia dizer: perdidas.
É neste cenário que o Louco aparece, cabriolando, assobiando, gozando o calor do sol na face enquanto o cão atrás de si mal pode andar, tão morto de sede estava.
- Quem é aquele homem? - pergunta o Rei de Espadas no limite da sua tenda. Avistara-o ao longe e todo o exército o observava, aquele homem que não parecia muito bom da tola, a andar aos saltinhos (com um cãozito meio morto atrás) no meio do terreno onde nem há quatro dias houvera uma carnificina violenta.
- Não sabemos, Senhor. Acabou de aparecer - respondeu o servo.
O Rei de Espadas esfregou a barba e mandou que o trouxessem à sua presença.
Dois guerreiros pujantes e musculados pegaram no Louco e arrastaram-no até à tenda do Rei.
O Louco foi jogado aos pés daquela magnífica e aterrorizante figura, sentada num cadeirão enorme.
De joelhos ele implorou:
- Por favor, não me mates! Não sei o que fiz! O que fiz de errado? Prometo que não volto a fazê-lo!
Estava aterrorizado. Em segundos questionou a sua viagem, a razão porque a empreendera. Fora aprendiz do Mágico durante tantos anos, em criança, mas a juventude chegara e ele queria ver o Mundo! Devia ser deveras um tolo, como os outros o chamavam. Ajoelhado, escondeu a cabeça entre as mãos e esperou pelo golpe fatal daquele quase gigante à sua frente.
De súbito o canito branco alcançou-o, cansado, mas teve forças de se meter entre o Rei e o Louco e ladrar furiosamente. Para o matares vais ter de passar por mim!, dizia ele ao Rei. O Rei de Espadas desatou num riso desenfreado que fez desmaiar o cão de susto e espantou o Louco que, a seguir, sentiu uma mão carinhosa a afagar-lhe o cabelo.
- Levanta-te. Quem tem servos tão corajosos e leais - apontou o cão de pernas para o ar - deve ser um homem valente.
Deram água ao cão e alimentaram-no quando enfim acordou. O Louco também foi alimentado. Nem sequer se lembrou de pensar na sua sorte. Cada vez que precisava de comer o destino providenciava.
Passaram a noite no maior conforto e no dia seguinte o Rei de Espadas foi directo ao assunto:
- Quero que vás ao meu oponente apresentar uma proposta de tréguas.
- E-eu? - balbuciou o Louco. Mas quem sou eu? - um homem com a inocência de uma criança, sem um osso de decepção no corpo. E isso era exactamente o que convinha ao Rei de Espadas naquele momento.
- És o homem apropriado para a missão - respondeu o Rei e colocou-lhe com gravidade a mão no ombro. Depois entregou-lhe um canudo longo com uma fita para o transportar.
- No interior estão as condições. Espera pela resposta.
- Não sei se sou a pessoa indica... - mas o Rei cortou-lhe a palavra.
- És sim. É um favor pessoal que me fazes - disse pegando-lhe nos ombros e estreitando-o contra si. - Somos amigos, não é verdade! - gritou com um riso de trovão.
- É... é - e o Louco lá foi, sentindo uma estranha responsabilidade que não queria sentir, uma responsabilidade com um peso esmagador.
O cão branco seguiu-o a medo, desconfiado. E se apanha com uma flecha? E se lhe dão uma espadeirada? Pela primeira vez os passos do Louco não eram confiantes, mas sim hesitantes e trémulos.
O outro Rei tinha o cabelo Ruivo e ar feroz. Leu os papéis do canudo sem uma palavra para o homenzinho trémulo que trouxera a mensagem.
O outro não dava ponto sem nó, pensou o Rei Vermelho. Isto devia trazer água no bico. Ordenou que o prendessem e o torturassem até revelar os verdadeiros planos do Rei de Espadas. Entretanto deu ordens ao exército para se preparar para o provável ataque iminente. Lá voltaram a arrastar o pobre do Louco, desta vez por outros dois matulões, para dentro de um buraco cavado no chão.
- Ó, bem bonita a fizeste - pensou o Louco quando os ossos bateram na terra, mas, estranhamente, não tinha medo. Sentiu falta de algo. O pau. Já não tinha o pau. E o cão já não o seguia. Que cão tão estranho era aquele, tentou lembrar-se da primeira vez em que o vira - sem resultado.
O canito branco foi a medo até à borda do buraco, mas logo se escondeu atrás de uma moita quando viu outro soldado ir buscar o Louco. Tirou-o do interior e pô-lo no armazém (única construção feita de barro, palha e pedra, o resto eram tendas).
Foi o canito que o salvou: mordeu o rabo ao soldado e o Louco teve tempo de se libertar das amarras onde começara a prendê-lo à parede. Perto notou um chicote. Correram a bom correr. Correram tanto que só à noite pararam. Para trás deixaram um rumor de guerra, guerra até ao limite, guerra sem lógica nenhuma. Guerra sem vencedores porque ambos os lados se dizimaram sem ganho algum.
(30.07.09)
(c. 1050 palavras)
sábado, agosto 08, 2009
TEMPO IMORTAL
TEMPO IMORTAL (ou: Vénus em Escorpião)
Só de pensar nela e nele juntos, na mesma cama, a trocarem confidências murmuradas, a tocarem-se, a sentirem a pele um do outro, Luís sente como se um buraco negro o engolisse. Um buraco no meio do estômago, algo muito fundo, a exsudar desespero, a libertar raios de angústia. Não consegue evitar pensar nos dois juntos. Um ao pé do outro. Porque não está Vera ao pé de mim? Porque não me toca com a mesma paixão e compulsão, com esse leve e suave, gentil, quase desgosto de que podia ser rejeitada pelo outro – mas nunca é? Porque ele e não eu? Supõe, Luís, no meio da sua dor surda, no centro dela como se a habitasse, supõe que o outro é o típico macho alfa. Tem os dentes bonitos e brancos, o tipo. Quando ri tem um riso muito grande, exuberante, e nada falso. Como se ela tivesse dito a coisa mais espirituosa à face da terra, em todo o tempo da terra e desde o começo da evolução humana.
Vera não é espirituosa.
É bonita e alta. Sabe gozar a vida e dar-se com todos. Quando fala com alguém consegue dar a impressão de que naquele momento essa é a pessoa mais importante do mundo. Tudo o que o outro diz é original, significativo, e é importantíssimo que esteja atenta. Pode não haver outra oportunidade para ouvir aquela pessoa extraordinária. E se morre amanhã? Vera é um pouco falsa. E vazia. Mas é a Sua Vera. Que sempre amou com paixão e agora ela devota a paixão dela a outro.
E é menos falsa e mais verdadeira. E é mais genuinamente alegre. E ri-se com gosto. Com verdade. Luís morre a cada segundo que pensa nos dois juntos. Um buraco negro a engoli-lo, a estilhaçar cada átomo da carne. Um desespero que o afoga e lhe ocupa o corpo todo.
Não gosta deste sentimento tão incomum. Nunca foi ciumento. Porquê agora? Odiava a sensação, a maneira escura e suja que o fazia sentir, como se estivesse no meio de um lago turvo e tóxico, preso por algas que o impedem de subir à superfície e respirar. Era isso: o ciúme não o deixava respirar. E no momento em que sentia o ciúme, ele deixava de ser o Luís para se transformar naquela massa horrível de sentimento tenebroso. Ele perdia-se. Afogava-se a si próprio.
Tudo tinha sido muito cortês, o rompimento. Continuavam “amigos”. Amara-a tantos anos que já se tinha esquecido do que isso era. E agora perguntava-se: mas isto é amor ou ressentimento? Por ter sido “trocado” por outro? Isto é orgulho de macho, orgulho ferido? Sentiu-se pior ainda ante esta possibilidade. Sempre se sentiu um ser superior, impossível ele, o Luís, ter sentimentos pequenos e mesquinhos como esses. Não ele! Jamais ele. Era demasiado generoso de coração. O que importava era a felicidade comum, era assim que ele se via: um homem do mundo, civilizado, com sentimentos civilizados. E a partida de Vera em direcção a um belo espécimen humano de grande boca e sorriso bonito, fê-lo ver-se de outro modo. De um modo honesto.
Por instantes odiou-a. Se não fosse a sua partida (num momento da vida conjunta em que já quase nada tinham a dizer um ao outro) ele continuaria perfeito ante os seus próprios olhos e opinião. Agora Luís era obrigado a reformular a opinião de si mesmo.
Luís era um ser humano com falhas tal como os demais. E aquele horrível silêncio negro a ocupar-lhe a alma, sem desculpas, sem permissão, cada vez que deixava os pensamentos voarem para eles os dois, juntos. Doía-lhe tanto saber que, quando os dois estavam juntos, nada mais no mundo inteiro existia. Só os dois. Só os corpos de ambos entrelaçados num instante imortal, e ele, Luís, - deixava de existir. Ele a quem Vera amara um dia – cessava de existir.
Uma dor imensa, pior que o ciúme, submergia-o nessas alturas. Como se a própria tristeza o engolisse. Perguntava-se se deveras a amava ainda – porque achava que não. Mas não entendia esta tristeza cortante que o assombrava de tempos a tempos. Talvez fosse a memória do amor antigo que o viesse relembrar que houve uma época em que ele e Vera estavam tão juntos que o mundo desaparecia. Também eles partilharam, algures, esse tempo imortal.
6.08.09
(c. 740 palavras)
Só de pensar nela e nele juntos, na mesma cama, a trocarem confidências murmuradas, a tocarem-se, a sentirem a pele um do outro, Luís sente como se um buraco negro o engolisse. Um buraco no meio do estômago, algo muito fundo, a exsudar desespero, a libertar raios de angústia. Não consegue evitar pensar nos dois juntos. Um ao pé do outro. Porque não está Vera ao pé de mim? Porque não me toca com a mesma paixão e compulsão, com esse leve e suave, gentil, quase desgosto de que podia ser rejeitada pelo outro – mas nunca é? Porque ele e não eu? Supõe, Luís, no meio da sua dor surda, no centro dela como se a habitasse, supõe que o outro é o típico macho alfa. Tem os dentes bonitos e brancos, o tipo. Quando ri tem um riso muito grande, exuberante, e nada falso. Como se ela tivesse dito a coisa mais espirituosa à face da terra, em todo o tempo da terra e desde o começo da evolução humana.
Vera não é espirituosa.
É bonita e alta. Sabe gozar a vida e dar-se com todos. Quando fala com alguém consegue dar a impressão de que naquele momento essa é a pessoa mais importante do mundo. Tudo o que o outro diz é original, significativo, e é importantíssimo que esteja atenta. Pode não haver outra oportunidade para ouvir aquela pessoa extraordinária. E se morre amanhã? Vera é um pouco falsa. E vazia. Mas é a Sua Vera. Que sempre amou com paixão e agora ela devota a paixão dela a outro.
E é menos falsa e mais verdadeira. E é mais genuinamente alegre. E ri-se com gosto. Com verdade. Luís morre a cada segundo que pensa nos dois juntos. Um buraco negro a engoli-lo, a estilhaçar cada átomo da carne. Um desespero que o afoga e lhe ocupa o corpo todo.
Não gosta deste sentimento tão incomum. Nunca foi ciumento. Porquê agora? Odiava a sensação, a maneira escura e suja que o fazia sentir, como se estivesse no meio de um lago turvo e tóxico, preso por algas que o impedem de subir à superfície e respirar. Era isso: o ciúme não o deixava respirar. E no momento em que sentia o ciúme, ele deixava de ser o Luís para se transformar naquela massa horrível de sentimento tenebroso. Ele perdia-se. Afogava-se a si próprio.
Tudo tinha sido muito cortês, o rompimento. Continuavam “amigos”. Amara-a tantos anos que já se tinha esquecido do que isso era. E agora perguntava-se: mas isto é amor ou ressentimento? Por ter sido “trocado” por outro? Isto é orgulho de macho, orgulho ferido? Sentiu-se pior ainda ante esta possibilidade. Sempre se sentiu um ser superior, impossível ele, o Luís, ter sentimentos pequenos e mesquinhos como esses. Não ele! Jamais ele. Era demasiado generoso de coração. O que importava era a felicidade comum, era assim que ele se via: um homem do mundo, civilizado, com sentimentos civilizados. E a partida de Vera em direcção a um belo espécimen humano de grande boca e sorriso bonito, fê-lo ver-se de outro modo. De um modo honesto.
Por instantes odiou-a. Se não fosse a sua partida (num momento da vida conjunta em que já quase nada tinham a dizer um ao outro) ele continuaria perfeito ante os seus próprios olhos e opinião. Agora Luís era obrigado a reformular a opinião de si mesmo.
Luís era um ser humano com falhas tal como os demais. E aquele horrível silêncio negro a ocupar-lhe a alma, sem desculpas, sem permissão, cada vez que deixava os pensamentos voarem para eles os dois, juntos. Doía-lhe tanto saber que, quando os dois estavam juntos, nada mais no mundo inteiro existia. Só os dois. Só os corpos de ambos entrelaçados num instante imortal, e ele, Luís, - deixava de existir. Ele a quem Vera amara um dia – cessava de existir.
Uma dor imensa, pior que o ciúme, submergia-o nessas alturas. Como se a própria tristeza o engolisse. Perguntava-se se deveras a amava ainda – porque achava que não. Mas não entendia esta tristeza cortante que o assombrava de tempos a tempos. Talvez fosse a memória do amor antigo que o viesse relembrar que houve uma época em que ele e Vera estavam tão juntos que o mundo desaparecia. Também eles partilharam, algures, esse tempo imortal.
6.08.09
(c. 740 palavras)
sábado, julho 25, 2009
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO - II -
- II -
9 DE PAUS / LOUCO
O nove de paus é defensivo, desconfiado, sempre a postos.
Há um homem frente a uma fiada de paus levantados ao alto como uma muralha. O Louco aproximou-se dele e ficou a olhar com ar inocente durante um longo período para aquela estranha construção defensiva que parecia quebrar a harmonia intrínseca da paisagem. Como uma enorme borbulha espinhosa no meio da terra.
Ele tinha de a atravessar. Seguramente algo melhor, algo incrivelmente maravilhoso estaria por detrás daqueles paus longos. Tudo o que é defendido é-o por ser valioso (pensa o Louco na sua ingenuidade de criança).
O Louco aproxima-se do homem mais velho e curvado, apoiado num pau (como se o trabalho de eternamente defender-se o cansasse), quase aos pinotes, exibindo confiança e um grande sorriso. De imediato o homem assume posição de ataque e avança contra ele. Atemorizado, o Louco recua e pergunta:
- O que fazes? Eu só quero passar.
- Ninguém passa! Ninguém passa daqui adiante!
- Porquê?
- Porque não! Eu pus esta barreira! Daqui para diante são as minhas terras! Só queres roubar o fruto do meu trabalho.
- Não - defende-se o Louco. - Não te quero tirar nada. Só quero passar, viajar, ver o que está mais além.
- Além estão as minhas terras, não passas! - disse e avançou um passo furioso.
De repente sente uma mordidela na perna e grita de dor. Era o pequeno cão branco do Louco (que lhe perdera o faro, mas voltara a recuperar o odor), a ferrar o dente. O homem virou a atenção para o canito, tentando sem sucesso acertar-lhe com o pau. O cãozito era demasiado ágil. Entretanto o Louco aproveitou a confusão para abrir uma brecha na muralha de postes e pisgou-se para o outro lado, certo de que havia maravilhas à sua espera.
Quando o cão parou de dançar aos pés do homem (não lhe acertou nem uma vez), já o intruso ia longe. O homem viu a brecha no muro e caiu de joelhos a chorar. Ficou ali por muito tempo com o pau tombado, a penar de angústia, pensando que todas as suas precauções não tinham levado a nada e fora um canito, quase uma formiga, o causador daquela grande desgraça, um enorme buraco na muralha! Que grande buraco! Qualquer um podia passar por ali e roubar-lhe tudo. Tudo! Ficou bastante tempo a lamentar-se, o pobre homem, até que decidiu erguer-se e refazer o muro: em cimento. Mas ele não sabia que os muros, quando têm de cair, nem se forem feitos de titânio ou diamante se aguentam de pé (e às vezes as melhores muralhas são as de ar).
O Louco já ia bastante avançado, com o canito sempre atrás, a bailar-lhe entre os pés, a dizer-lhe em linguagem canina: por favor, volta para trás, o mundo é perigoso, tu tens tudo em casa, não é preciso aventurares-te, o mundo não se importa conosco nem nos receberá de braços abertos. Devias ter lido mais livros, diz o cão (em linguagem de cão que o Louco não compreende), ias ser menos ingénuo. Ou se calhar, pensa ele um bocadinho, não devias ter lido livro nenhum.
O Louco colheu uma maçã e uma pêra das árvores, partilhou uvas da videira com o canito branco (que as comeu com gosto) e dormiu sob as estrelas. O Louco ele próprio tinha um pau, mas nem lhe passou pela cabeça usá-lo para a violência. Na ponta há um lenço vermelho atado: uma pequena trouxa para levar o essencial. Mas ele esquece-se de a encher. Quando saiu pôs duas bolachas. Só as encontrou dois dias mais tarde e deu-as ao cão. Não tinha fome. As vistas, as novas paisagens enchiam-lhe os olhos de maravilhas e, parecia, também a barriga. Á noite, já ele estava bem adormecido, o canito apanhou alguns frutos que cairam no chão e colocou-os, com imensa mestria, dentro da trouxa vermelha. De manhã o Louco sentiu um peso ligeiro, mas não se importou. Havia ainda tanta coisa por descobrir! Seguramente outro passo era uma promessa, um abismo cheio de promessas!
RAINHA DE PENTACLOS / MÁGICO
O Mágico ia no trilho do Louco. Encontrou a Rainha de Pentaclos no caminho. Tinha seguido inicialmente, por meio dos seus olhos mágicos, as invisíveis pegadas do Louco que mal se viam, e depois as do canito, que eram mais aparentes. Infelizmente o cão branco, seguindo apenas a lógica, perdia-se demasiado, enquanto que o Louco, seguindo o vento e as nuvens, não se perdia nunca: estava sempre onde devia estar. Onde quer que estivesse - esse era o caminho certo.
No trilho encontrou uma bela mulher, ricamente vestida de ouro. Apesar de bela pareceu-lhe um pouco dura. Ou melhor: demasiado prática. Notou o quanto o ouro brilhava. Ela esfregava-o todas as noites. Gostava muito daquele ouro. Dera-lhe trabalho adquiri-lo. Agora contava as azeitonas da oliveira: antes de vendê-las tinha de ter a certeza do seu número exacto Uma parte venderia e a outra era para fazer azeite. Ela gostava muito de azeite. Sentia-se feliz enquanto mirava cada azeitona. Mal viu o Mágico. Quando ele a abordou ela sobressaltou-se:
- Esse, porque quem demandas, como é?
- O Louco? - o Mágico reflectiu um pouco. - É uma criança grande, como se nunca tivesse crescido. Hás-de notar: tem sempre um sorriso na cara e pensa que tudo e todos são extraordinários. Mas não fica muito tempo num lugar.
Ela pensou:
- Sim, julgo que o vi. Há alguns dias atrás - finalizou com o dedo da unha bem cuidada a tocar no queixo e os olhos alçados para o ar.
- Por onde foi?
- Quanto vale para ti essa informação?
"Ah, uma mulher de negócios."
Chegaram a acordo. De dentro do manto o Mago tirou um saquinho de sementes e uma moeda de ouro. A Rainha de Pentaclos indicou-lhe o caminho seguido pelo Louco com o queixo: um caminho estreito entre duas montanhas próximas, com risco de derrocada a cada passo. A Rainha de Pentaclos sorria satisfeita. Guardou as sementes dentro do vestido e a moeda pô-la na bolsa atada à cintura.
(22/7/09)
(c. de 1040 palavras)
9 DE PAUS / LOUCO
O nove de paus é defensivo, desconfiado, sempre a postos.
Há um homem frente a uma fiada de paus levantados ao alto como uma muralha. O Louco aproximou-se dele e ficou a olhar com ar inocente durante um longo período para aquela estranha construção defensiva que parecia quebrar a harmonia intrínseca da paisagem. Como uma enorme borbulha espinhosa no meio da terra.
Ele tinha de a atravessar. Seguramente algo melhor, algo incrivelmente maravilhoso estaria por detrás daqueles paus longos. Tudo o que é defendido é-o por ser valioso (pensa o Louco na sua ingenuidade de criança).
O Louco aproxima-se do homem mais velho e curvado, apoiado num pau (como se o trabalho de eternamente defender-se o cansasse), quase aos pinotes, exibindo confiança e um grande sorriso. De imediato o homem assume posição de ataque e avança contra ele. Atemorizado, o Louco recua e pergunta:
- O que fazes? Eu só quero passar.
- Ninguém passa! Ninguém passa daqui adiante!
- Porquê?
- Porque não! Eu pus esta barreira! Daqui para diante são as minhas terras! Só queres roubar o fruto do meu trabalho.
- Não - defende-se o Louco. - Não te quero tirar nada. Só quero passar, viajar, ver o que está mais além.
- Além estão as minhas terras, não passas! - disse e avançou um passo furioso.
De repente sente uma mordidela na perna e grita de dor. Era o pequeno cão branco do Louco (que lhe perdera o faro, mas voltara a recuperar o odor), a ferrar o dente. O homem virou a atenção para o canito, tentando sem sucesso acertar-lhe com o pau. O cãozito era demasiado ágil. Entretanto o Louco aproveitou a confusão para abrir uma brecha na muralha de postes e pisgou-se para o outro lado, certo de que havia maravilhas à sua espera.
Quando o cão parou de dançar aos pés do homem (não lhe acertou nem uma vez), já o intruso ia longe. O homem viu a brecha no muro e caiu de joelhos a chorar. Ficou ali por muito tempo com o pau tombado, a penar de angústia, pensando que todas as suas precauções não tinham levado a nada e fora um canito, quase uma formiga, o causador daquela grande desgraça, um enorme buraco na muralha! Que grande buraco! Qualquer um podia passar por ali e roubar-lhe tudo. Tudo! Ficou bastante tempo a lamentar-se, o pobre homem, até que decidiu erguer-se e refazer o muro: em cimento. Mas ele não sabia que os muros, quando têm de cair, nem se forem feitos de titânio ou diamante se aguentam de pé (e às vezes as melhores muralhas são as de ar).
O Louco já ia bastante avançado, com o canito sempre atrás, a bailar-lhe entre os pés, a dizer-lhe em linguagem canina: por favor, volta para trás, o mundo é perigoso, tu tens tudo em casa, não é preciso aventurares-te, o mundo não se importa conosco nem nos receberá de braços abertos. Devias ter lido mais livros, diz o cão (em linguagem de cão que o Louco não compreende), ias ser menos ingénuo. Ou se calhar, pensa ele um bocadinho, não devias ter lido livro nenhum.
O Louco colheu uma maçã e uma pêra das árvores, partilhou uvas da videira com o canito branco (que as comeu com gosto) e dormiu sob as estrelas. O Louco ele próprio tinha um pau, mas nem lhe passou pela cabeça usá-lo para a violência. Na ponta há um lenço vermelho atado: uma pequena trouxa para levar o essencial. Mas ele esquece-se de a encher. Quando saiu pôs duas bolachas. Só as encontrou dois dias mais tarde e deu-as ao cão. Não tinha fome. As vistas, as novas paisagens enchiam-lhe os olhos de maravilhas e, parecia, também a barriga. Á noite, já ele estava bem adormecido, o canito apanhou alguns frutos que cairam no chão e colocou-os, com imensa mestria, dentro da trouxa vermelha. De manhã o Louco sentiu um peso ligeiro, mas não se importou. Havia ainda tanta coisa por descobrir! Seguramente outro passo era uma promessa, um abismo cheio de promessas!
RAINHA DE PENTACLOS / MÁGICO
O Mágico ia no trilho do Louco. Encontrou a Rainha de Pentaclos no caminho. Tinha seguido inicialmente, por meio dos seus olhos mágicos, as invisíveis pegadas do Louco que mal se viam, e depois as do canito, que eram mais aparentes. Infelizmente o cão branco, seguindo apenas a lógica, perdia-se demasiado, enquanto que o Louco, seguindo o vento e as nuvens, não se perdia nunca: estava sempre onde devia estar. Onde quer que estivesse - esse era o caminho certo.
No trilho encontrou uma bela mulher, ricamente vestida de ouro. Apesar de bela pareceu-lhe um pouco dura. Ou melhor: demasiado prática. Notou o quanto o ouro brilhava. Ela esfregava-o todas as noites. Gostava muito daquele ouro. Dera-lhe trabalho adquiri-lo. Agora contava as azeitonas da oliveira: antes de vendê-las tinha de ter a certeza do seu número exacto Uma parte venderia e a outra era para fazer azeite. Ela gostava muito de azeite. Sentia-se feliz enquanto mirava cada azeitona. Mal viu o Mágico. Quando ele a abordou ela sobressaltou-se:
- Esse, porque quem demandas, como é?
- O Louco? - o Mágico reflectiu um pouco. - É uma criança grande, como se nunca tivesse crescido. Hás-de notar: tem sempre um sorriso na cara e pensa que tudo e todos são extraordinários. Mas não fica muito tempo num lugar.
Ela pensou:
- Sim, julgo que o vi. Há alguns dias atrás - finalizou com o dedo da unha bem cuidada a tocar no queixo e os olhos alçados para o ar.
- Por onde foi?
- Quanto vale para ti essa informação?
"Ah, uma mulher de negócios."
Chegaram a acordo. De dentro do manto o Mago tirou um saquinho de sementes e uma moeda de ouro. A Rainha de Pentaclos indicou-lhe o caminho seguido pelo Louco com o queixo: um caminho estreito entre duas montanhas próximas, com risco de derrocada a cada passo. A Rainha de Pentaclos sorria satisfeita. Guardou as sementes dentro do vestido e a moeda pô-la na bolsa atada à cintura.
(22/7/09)
(c. de 1040 palavras)
quinta-feira, julho 23, 2009
O Mágico e o Louco
(conto)
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO
-I-
Era uma vez um Mágico que foi à procura do Louco (the fool). O Mágico tem um aspecto assaz bizarro. Tem o cabelo negro e liso comprido, muito brilhante. O manto vermelho escuro tapa-lhe o corpo inteiro, desde o pescoço até aos pés. O Mágico tem tudo dentro daquele manto. Tem paus e coisas brilhantes, varas de magia, óculos mágicos, mágicos de óculos. Pequenos cães treinados e um pintainho cantor. Quando tem sede de vinho, de água ou de sumo tira do interior dele um copo pequeno sempre cheio que nunca se entorna. É uma estranha personagem, às vezes parecendo velho, outras muito jovem. É um mágico consumado. Fala a língua das serpentes e das pedras, conhece o som das folhas das árvores e os segredos que contam. Está à procura do Louco, seu velho companheiro de aventuras. O Louco segue a sua natureza rebelde e sem caminhos pré-definidos. O Louco vai ao desafio e da última vez que o viu o Mágico notou que um cachorrinho pequeno e branco o seguia, ladrando muito vivaz, a avisá-lo de todos os perigos para os quais era cego.
O Louco já não se vê. O Mágico sabe bem que não deve prendê-lo. Seria um crime universal. Um crime que não suportaria contra si, nem cometê-lo. Mas há coisas importantes que o Louco conhece e o Mágico tem de o seguir. O número um atrás do zero. O Uno a seguir o infinito e indissolúvel. O uno sempre atrás do zero.
A VIAGEM DO MÁGICO E DO LOUCO
-I-
Era uma vez um Mágico que foi à procura do Louco (the fool). O Mágico tem um aspecto assaz bizarro. Tem o cabelo negro e liso comprido, muito brilhante. O manto vermelho escuro tapa-lhe o corpo inteiro, desde o pescoço até aos pés. O Mágico tem tudo dentro daquele manto. Tem paus e coisas brilhantes, varas de magia, óculos mágicos, mágicos de óculos. Pequenos cães treinados e um pintainho cantor. Quando tem sede de vinho, de água ou de sumo tira do interior dele um copo pequeno sempre cheio que nunca se entorna. É uma estranha personagem, às vezes parecendo velho, outras muito jovem. É um mágico consumado. Fala a língua das serpentes e das pedras, conhece o som das folhas das árvores e os segredos que contam. Está à procura do Louco, seu velho companheiro de aventuras. O Louco segue a sua natureza rebelde e sem caminhos pré-definidos. O Louco vai ao desafio e da última vez que o viu o Mágico notou que um cachorrinho pequeno e branco o seguia, ladrando muito vivaz, a avisá-lo de todos os perigos para os quais era cego.
O Louco já não se vê. O Mágico sabe bem que não deve prendê-lo. Seria um crime universal. Um crime que não suportaria contra si, nem cometê-lo. Mas há coisas importantes que o Louco conhece e o Mágico tem de o seguir. O número um atrás do zero. O Uno a seguir o infinito e indissolúvel. O uno sempre atrás do zero.
sábado, julho 18, 2009
A Revolução
DA SÉRIE DE PREVISÕES QUE EU AGORA VOU FAZER
Ou
A REVOLUÇÃO
Era uma vez um mundo assim muito mundo como o nosso mundinho, à deriva no céu estrelado. Nesse mundo Tudo era outsourcing e os ordenados pagos eram de merda. Mas a malta não se revoltava porque ainda havia tv de sinal livre e o apagão analógico ainda não tinha acontecido. Pagavam-se ordenados de merda porque as Empresas não queriam despesas com quem lhes dava o comer para a boca. Mas um dia foi giro (foi bonito) e os combustíveis aumentaram dez vezes mais, a comida outro tanto e de repente dois ordenados numa casa ainda davam para pagar a renda (vá lá), mas para comida é mentira, nem vê-la, se quiseres vai aos caixotes do lixo e não refiles.
De repente toda a gente se revolucionou.
Eu, por exemplo, quando saía de casa não me despedia com um:
- Vou trabalhar, até logo.
Antes dizia:
- Até logo, vou para a Revolução.
Andava toda a gente a revolucionar-se nesses dias. Eu, por exemplo, ia para o trabalho (o Metro funcionava mal por isso tinha que ir a pé uma data de estações), no meio de piquetes por tudo e mais alguma coisa (a meio da estrada, juro, faziam-se piqueniques e churrascadas, os automóveis – capitalistas! - nem podiam passar, praticamente estava cerrada ao trânsito automóvel, excepto transportes públicos – que funcionavam mal por causa das greves), ia eu, dizia, abrindo caminho quase à cotovelada, indo com a minha malinha e outra, maior, com o almoço no termo (bruxo!), e, graças a muitos e continuados esforços, lá chegava ao Call-Center.
Mas ninguém me deixava trabalhar.
E eu queria (a sério, queria. Só se recebe dessa maneira, não é?). Os colegas chamavam-me uma data de nomes, subindo eu as escadas (Capitalista! Exploradora! Opressora! - coisa que não era de todo), mas eu, valente, prosseguia. Lá em cima os supervisores (ou team-leaders ou chefes ou o raio que os parta, os nomes mudam, mas...) também não me deixavam trabalhar! (Foda-se, é tudo a a ajudar, pensava eu.) É que os supervisores, que de início se amedrontaram que nem cães, logo depois, vendo que a Revolução era Geral, decidiram juntar-se a ela: mas ficavam mesmo no seu local de trabalho, conversando com outros chefes ou “Middle Management”, bebendo café e até fumando (agora fumava-se em todo o lado, pó caralho com as proibições, dizia-se abertamente, e essa foi a primeira coisa a ir pelo cano abaixo), tendo conversas menores (ou sobre a Revolução) e aborrecendo-se muito ao fim de uma hora disto (porque não havia trabalho, foda-se, para fazer, haver havia, mas ai deles se o fizessem – capitalistas! Opressores!). Estes não se atreviam a descer e juntar-se às maralhas Revolucionárias comuns.
De modo que eu, ao fim de alguns minutos (que iam encurtando com o tempo) a tentar convencê-los inutilmente a deixarem-me ocupar o meu posto, voltava a descer, de orelha murcha, e juntava-me (francamente aliviada, confesso) aos meus colegas Revolucionários que me saudavam assim:
-Olha a capitalista! Já cá estás, é? - mas era uma saudação doce e sorridente, sem vestígios de malícia ou ressentimento. Eu encolhia os ombros, apertava os lábios, alteava as sobrancelhas e levantava as mãos.
-Venho para a Revolução – contestava e sentava-me num degrau perto, descansava do peso das malas e punha-me a observar com olho clínico toda aquela malta a Revolucionar.
Invariavelmente ficávamos todos (à porta do edifício onde trabalhávamos) até à nossa hora oficial de saída: quem saía às 16h, partia a essa hora; quem saía às 18h ia-se embora nesse horário. Ou seja, passávamos ali o nosso horário de trabalho – só que a Revolucionar (mas tudo muito pacífico, muito pacífico).
Falava-se muito. Havia quem se queixasse que era pena não ser a época da sardinha – mas havia sempre comida com fartura. Os Empreendedores abriam uma banquinha e fartavam-se de arrecadar – até à altura em que alguém se lembrou de chamar capitalista a um e foi o bom e o bonito. A partir de então os Empreendedores não sabiam bem se lhes pagavam a comida ou se simplesmente a malta decidia servir-se à vontade. Era uma mescla das duas possibilidades – e era bom que os Empreendedores não abrissem o pio para reclamar (Opressores da Classe Explorada!).
Isto durou muito tempo, a Revolução.
Graças a Deus os meus pais tinham horta – senão bem tramada estava. Muito caldo verde durante a Época Revolucionária! papei eu...
(16.07.09)
(c. de 750 palavras)
Ou
A REVOLUÇÃO
Era uma vez um mundo assim muito mundo como o nosso mundinho, à deriva no céu estrelado. Nesse mundo Tudo era outsourcing e os ordenados pagos eram de merda. Mas a malta não se revoltava porque ainda havia tv de sinal livre e o apagão analógico ainda não tinha acontecido. Pagavam-se ordenados de merda porque as Empresas não queriam despesas com quem lhes dava o comer para a boca. Mas um dia foi giro (foi bonito) e os combustíveis aumentaram dez vezes mais, a comida outro tanto e de repente dois ordenados numa casa ainda davam para pagar a renda (vá lá), mas para comida é mentira, nem vê-la, se quiseres vai aos caixotes do lixo e não refiles.
De repente toda a gente se revolucionou.
Eu, por exemplo, quando saía de casa não me despedia com um:
- Vou trabalhar, até logo.
Antes dizia:
- Até logo, vou para a Revolução.
Andava toda a gente a revolucionar-se nesses dias. Eu, por exemplo, ia para o trabalho (o Metro funcionava mal por isso tinha que ir a pé uma data de estações), no meio de piquetes por tudo e mais alguma coisa (a meio da estrada, juro, faziam-se piqueniques e churrascadas, os automóveis – capitalistas! - nem podiam passar, praticamente estava cerrada ao trânsito automóvel, excepto transportes públicos – que funcionavam mal por causa das greves), ia eu, dizia, abrindo caminho quase à cotovelada, indo com a minha malinha e outra, maior, com o almoço no termo (bruxo!), e, graças a muitos e continuados esforços, lá chegava ao Call-Center.
Mas ninguém me deixava trabalhar.
E eu queria (a sério, queria. Só se recebe dessa maneira, não é?). Os colegas chamavam-me uma data de nomes, subindo eu as escadas (Capitalista! Exploradora! Opressora! - coisa que não era de todo), mas eu, valente, prosseguia. Lá em cima os supervisores (ou team-leaders ou chefes ou o raio que os parta, os nomes mudam, mas...) também não me deixavam trabalhar! (Foda-se, é tudo a a ajudar, pensava eu.) É que os supervisores, que de início se amedrontaram que nem cães, logo depois, vendo que a Revolução era Geral, decidiram juntar-se a ela: mas ficavam mesmo no seu local de trabalho, conversando com outros chefes ou “Middle Management”, bebendo café e até fumando (agora fumava-se em todo o lado, pó caralho com as proibições, dizia-se abertamente, e essa foi a primeira coisa a ir pelo cano abaixo), tendo conversas menores (ou sobre a Revolução) e aborrecendo-se muito ao fim de uma hora disto (porque não havia trabalho, foda-se, para fazer, haver havia, mas ai deles se o fizessem – capitalistas! Opressores!). Estes não se atreviam a descer e juntar-se às maralhas Revolucionárias comuns.
De modo que eu, ao fim de alguns minutos (que iam encurtando com o tempo) a tentar convencê-los inutilmente a deixarem-me ocupar o meu posto, voltava a descer, de orelha murcha, e juntava-me (francamente aliviada, confesso) aos meus colegas Revolucionários que me saudavam assim:
-Olha a capitalista! Já cá estás, é? - mas era uma saudação doce e sorridente, sem vestígios de malícia ou ressentimento. Eu encolhia os ombros, apertava os lábios, alteava as sobrancelhas e levantava as mãos.
-Venho para a Revolução – contestava e sentava-me num degrau perto, descansava do peso das malas e punha-me a observar com olho clínico toda aquela malta a Revolucionar.
Invariavelmente ficávamos todos (à porta do edifício onde trabalhávamos) até à nossa hora oficial de saída: quem saía às 16h, partia a essa hora; quem saía às 18h ia-se embora nesse horário. Ou seja, passávamos ali o nosso horário de trabalho – só que a Revolucionar (mas tudo muito pacífico, muito pacífico).
Falava-se muito. Havia quem se queixasse que era pena não ser a época da sardinha – mas havia sempre comida com fartura. Os Empreendedores abriam uma banquinha e fartavam-se de arrecadar – até à altura em que alguém se lembrou de chamar capitalista a um e foi o bom e o bonito. A partir de então os Empreendedores não sabiam bem se lhes pagavam a comida ou se simplesmente a malta decidia servir-se à vontade. Era uma mescla das duas possibilidades – e era bom que os Empreendedores não abrissem o pio para reclamar (Opressores da Classe Explorada!).
Isto durou muito tempo, a Revolução.
Graças a Deus os meus pais tinham horta – senão bem tramada estava. Muito caldo verde durante a Época Revolucionária! papei eu...
(16.07.09)
(c. de 750 palavras)
quarta-feira, maio 27, 2009
O Noivo e a Noiva
A noiva gostava do noivo. Eram muito bonitos os dois juntos, um belo emparelhamento. ele tinha olhos azuis brilhantes, cara de menino bonito e terror ao matrimónio; ela tinha Saturno em Capricórnio na casa dez e terror ao não ortodoxo.
Compraram uma casa juntos. Trinta e cinco anos amarrados à casa. A noiva pensava que se iam casar. O noivo tinha medo e sugeriu que se juntassem. A noiva não gostou e queixou-se à família. A família ficou do lado dela. Eles romperam. Venderam a casa. Devolveram os benefícios ao Banco. Perdeu-se muito dinheiro.
O ex-noivo continuou com horror ao matrimónio. A ex-noiva arranjou outro noivo em tempo recorde. Casaram. Tiveram o filho. E são felizes, ó. Pelo menos - ortodoxamente satisfeitos.
(Fim desta história.)
27/05/09
Compraram uma casa juntos. Trinta e cinco anos amarrados à casa. A noiva pensava que se iam casar. O noivo tinha medo e sugeriu que se juntassem. A noiva não gostou e queixou-se à família. A família ficou do lado dela. Eles romperam. Venderam a casa. Devolveram os benefícios ao Banco. Perdeu-se muito dinheiro.
O ex-noivo continuou com horror ao matrimónio. A ex-noiva arranjou outro noivo em tempo recorde. Casaram. Tiveram o filho. E são felizes, ó. Pelo menos - ortodoxamente satisfeitos.
(Fim desta história.)
27/05/09
segunda-feira, março 30, 2009
Re-post: Conto
(Publicado originalmente a 19.10.02)
Há quem os pare?
Qu’isto no parir não há ajuda que valhe ou deixe de valer. Salete, parturiente em final de estação, semeou descendência Lisboa abaixo, com a força de um tsunami japonês. Começou a desovar na Avenida da República, antes de conseguir entrar no Metro. Empurraram-na, aos gritos, para um táxi de cor creme e condutor moreno, o bigode russo devido ao tabaco. A mulher tentou refrear-se, mas o puto sai a mil à hora seguido de cinco dezenas de irmãos. O taxista pôs-se a milhas e a mulher seguiu parindo Avenida da Liberdade adiante, os filhos, que num alvoroço de membros, placenta e sangue iam aos atropelos derrubando viaturas, árvores, pessoas, cães vadios, pombos, gaivotas e semáforos.
No Rossio Salete arremeteu a deusa Eileithya, deidade maternal descida do Olimpo cujo frustrado propósito era prestar auxílio à puérpera. A parição extrema foi qual terramoto, derribando Lisboa até atingir o Carmo e a Trindade. Centenas de recém-nascidos submergiram a Brasileira e levaram de enxurrada o poeta Camões.
Na investida apocalíptica um transeunte, espavorido, pôs-se aos berros:
- Pare! Pare! Pare!
- Calem-me este gajo! – guinchou outro, devorado no aluvião de bebézinhos esperneantes, cobertos em placenta e sangue e a chorar como almas perdidas.
Salete, quando cai ao Tejo, aos revoluteios colina abaixo em imortal trabalho de parto, interroga-se como é que o cornudo do marido lhe fez um disparate destes.
Logo o marido.
Não podia ter sido antes o corno do amante?
(Já lá dizia o sábio da minha terra, copofone com as cotas em dia, depois de uma berzundela em cima: “No que toca a parir não há quem nos pare!”)
[Um conto que foi recusado por uma revista. Publico-o aqui.]
Há quem os pare?
Qu’isto no parir não há ajuda que valhe ou deixe de valer. Salete, parturiente em final de estação, semeou descendência Lisboa abaixo, com a força de um tsunami japonês. Começou a desovar na Avenida da República, antes de conseguir entrar no Metro. Empurraram-na, aos gritos, para um táxi de cor creme e condutor moreno, o bigode russo devido ao tabaco. A mulher tentou refrear-se, mas o puto sai a mil à hora seguido de cinco dezenas de irmãos. O taxista pôs-se a milhas e a mulher seguiu parindo Avenida da Liberdade adiante, os filhos, que num alvoroço de membros, placenta e sangue iam aos atropelos derrubando viaturas, árvores, pessoas, cães vadios, pombos, gaivotas e semáforos.
No Rossio Salete arremeteu a deusa Eileithya, deidade maternal descida do Olimpo cujo frustrado propósito era prestar auxílio à puérpera. A parição extrema foi qual terramoto, derribando Lisboa até atingir o Carmo e a Trindade. Centenas de recém-nascidos submergiram a Brasileira e levaram de enxurrada o poeta Camões.
Na investida apocalíptica um transeunte, espavorido, pôs-se aos berros:
- Pare! Pare! Pare!
- Calem-me este gajo! – guinchou outro, devorado no aluvião de bebézinhos esperneantes, cobertos em placenta e sangue e a chorar como almas perdidas.
Salete, quando cai ao Tejo, aos revoluteios colina abaixo em imortal trabalho de parto, interroga-se como é que o cornudo do marido lhe fez um disparate destes.
Logo o marido.
Não podia ter sido antes o corno do amante?
(Já lá dizia o sábio da minha terra, copofone com as cotas em dia, depois de uma berzundela em cima: “No que toca a parir não há quem nos pare!”)
[Um conto que foi recusado por uma revista. Publico-o aqui.]
sexta-feira, março 27, 2009
Re-Post: Candidato a Escritor
Outro texto revisitado.
(Originalmente publicado em Dezembro de 2005.)
O Candidato a Escritor
O candidato a escritor procura o guru que vive no cimo de uma alta montanha. O candidato, rapazote dos seus vinte e sete anos, vai ao topo em busca de conselho.
Como Ser Um Escritor.
O guru já está mais farto destes gajos, só os que não são escritores é que o procuram, os escritores mêmo à séria já sabem aquilo e não vão ter com ele de modo que não tem a companhia de semelhantes, mas de rapazotes de bibe, bebés de fralda e chupeta a dar a dar. Merdinha de vida.
- Como ser um escritor? - pergunta o rapazote e senta-se de pernas cruzadas à frente do velho de túnica encardida e barbas brancas labirínticas a atiçar o fogo.
“Lá vem outro cabrãozinho foder-me o juízo.”
- Simples - diz erguendo-se e andando à volta do lume e do rapazola, certamente gestor de uma merda qualquer, uma Empresa de renome cujo trabalho lhe ocupa dez, doze horas diárias, contando idas e voltas, e escreve “umas coisas” nos “tempos livres” ou, pior, nos “tempos mortos”.
- Pára de olhar para os outros. Começa a olhar para ti. Eu repito, Pára De Olhar Para Os Outros e olha para ti, para dentro de ti, para o interior, mesmo o centro da tua divina chama. A chama desperdiçada por deus ao dar-ta.
- Mas... - diz o rapaz, timidamente.
E depois embarca num longo discurso, com grandes gestos de mãos para acentuar a grandeza do que diz, melhor: para se associar à grandeza dos Antigos e Presentes, que cita. A voz altera-se, tem um vozear de quase homem quando fala nos Grandes Escritores da História, os gestos são de político de bancada. É isso mesmo o que ele é: político de bancada que se confina às palavras alheias e não passa ao acto de construir as suas. E o guru sabe porquê: por sabê-las menores, não merecem estar lado a lado com os Grandes Escritores da História (Antigos e Presentes, Antigos e Presentes). A sua menoridade insultaria a grandiosidade dos outros.
- A única coisa que insulta seja o que for, mas que primeiramente te insulta a ti é a falta de colhões, a falta de coragem - proclama o guru, os punhos atrás das costas, recordando os passos de bailado do último combate de pugilismo a que assistiu pela tv cabo.
- Mas os Grandes, os Grandes! Como escrever depois deles! Como escapar à sua sombra! - objecta o moço, sorrindo com entusiasmo. “Estás mesmo com vontadinha de lhes escapar à sombra, nota-se.”
- Simples: não há sombra. Não há sombra - diz o guru ao baixar-se.
- Não seria melhor esperar - diz o rapaz, confuso e deixando de sorrir - que eu cresça e viva mais? Não terei de Viver e Aprender mais?
- Uma criança pode tornar-se escritor porque já experimentou um leque dilatado de emoções humanas – explica. - Concentra-te nos sentimentos, toca a alma dos leitores como se tocasses um violino, manipula-os, fá-los chorar e rir, odiar e amar, ter pena, compaixão, inveja, ciúme. São barro nas tuas mãos.
- Mas... - começa o rapazote, todavia cala-se e olha as pedras, os gestos grandiloquentes mortos, as mãos, mudas e pálidas, moribundas no colo. São longas e brancas, de tocar piano. Um desses rapazotes que, à beira dos trinta, têm ainda vivas as certezas adolescentes só nas coisas erradas. Apuraram-nas. Têm grandes discussões sobre os Grandes Autores da Actualidade, de Portugal, do Mundo, sentem-se menos do que os Outros, perguntam-se como poderão alguma vez escrever se os Outros já escreveram Tudo? São Medíocres, absolutamente medíocres, Thot, o deus da escrita egípcio, devia erradicá-los da terra cada vez que tentam construir a frase perfeita. O melhor é esperar mais um tempo, viver mais, ser Maduro, aguardar a Inspiração a meio da noite, sim, ou de manhã quando o despertador os acorda a meio de um sonho. Esperar, esperar, sobretudo não escrever nesse interregno de espera. Um Escritor faz-se nas Esperas da Não Escrita, pensam os rapazolas com pretensões literárias. E depois, na pausa sabática que lhes durará a inteira vida, fazem o corte e a costura dos Outros, os Menores, os que se Atreveram a Escrever Apesar de Medíocres! Como podem conspurcar a terra com tais livros? Eu só leio os clássicos, anunciam num trejeito de desprezo e talvez tentem fumar o charuto enquanto o dizem porque há uma aura literata no fumo abençoado do charuto. E com auras, ambientes de certo tipo, tudo passa, tudo passa. Como pode alguém ter a coragem de ser medíocre?!, perguntam-se, atarantados, numa confusão mental de formigas sem antenas, e um pouco ressentidos.
- A mediocridade conduz à excelência, meu estafermo - explica o guru num sorriso de quase ternura, mas o que ele quer é morder-lhe, morder-lhe o pescoço até escorrer sangue e a seguir gritar: Dói? Escreve sobre isso! Ler-lhe-à os pensamentos?, espanta-se o rapazote. Talvez leia, quem sabe.
Do esgoto nasce a flor. É o rancor, a inveja que os leva a criticar? Como te atreves Tu a ter coragem?! Logo Tu, um Irrelevante! A coragem é reservada a corajosos! (Como a água e o ar são reservados aos melhores? Como os direitos são reservados só a alguns?) Não sentimos todos? Não temos todos a necessidade de nos expressar de modo criativo? Se apenas os Melhores pudessem fazê-lo então não haveria nada, não haveria Arte, não existiriam no mundo livros, quadros, esculturas, música, dança, cinema que nos elevassem a alma, nos elevassem a alma até ao Panteão Divino, o sítio escondido que murcha na labuta da vida quotidiana, trabalho-casa-trabalho, escola-casa-escola, escola-casa-trabalho-casa. E devemos essa elevação aos Medíocres! Porque se atreveram, porque se atrevem, porque arrogantemente se atrevem. Uma estátua aos medíocres já.
- Mas... - contrapõe e leva logo um murro nos queixos.
- Queres saber a Verdade, cabrãozinho? - diz o guru num sorriso cínico a mostrar os dentes e a acariciar os nós dos punhos como as meninas acariciam o cabelo das bonecas. - E logo tu a queres conhecer! Como Te Atreves A Querer Saber A Verdade?! - a voz ribomba como a de um deus fodidinho de todo, alguém lhe cortou a vez na bicha ou furou-lhe os pneus. - Não há verdade a não ser a tua! - revela a tremer as bochechas escondidas nas barbas sujas e emaranhadas. - Como é que eu te posso dizer a verdade se só tu a podes descobrir?! Duques, só me saem duques! Idiotas que me questionam sobre maçãs quando só tenho pêras para oferecer! Queres que te facilite a vidinha, é? Que te desvende a verdade quando essa é a tua missão. A tua verdade é a tua verdade, a tua verdade não é a dos outros; a tua escrita, o modo como se desenrola, o modo como se desprende da ponta do lápis, o modo como se evola, é a tua escrita e Não Tem Nada A Ver Com A Escrita Alheia.
(Entretanto dois chapadões na cara do fedelho, fedelho de vinte e sete anos é certo, mas tomemos em atenção que apenas fedelhos colocam tais questões imbecis. Merece os dois chapadões. Para acordar. Para ouvir.)
- Deus só quer a tua verdade, está-se a lixar para a dos outros, ele já a tem, quer a tua, não entendes? A tua verdade pode ser pequena, medíocre, risível, isso não importa. Os medíocres de hoje são os excelentes de amanhã. Vós, rapazolas ignorantes, que tanto admiram os grandes actuais admirariam a sua vulgaridade antiga? - ri-se. - Então não. São magníficos porque persistiram na loucura, na mediocridade, na mediania, na sua escassa excelência. Porque se voltaram e olharam para dentro, para a chama, e tentaram expressá-la, torná-la visível ao exterior, partilhá-la com os demais. E os outros por vezes são como tu: críticos ambulantes. Críticos que exigem hoje a excelência em todas as ocasiões, atribuíssemos nós o poder aos críticos e exigiriam de crianças a impecável escrita de novo “Guerra e Paz”, de outro “O Nome da Rosa”. A bem da mediocridade há que ignorar os outros. A bem da literatura há que ignorá-los de todas as formas possíveis, a cada dia inventar nova forma de não lhes passar cartucho.
- Mas... - e leva um murro no estômago. O jovenzeco dobra-se, agarrado à barriga de dentes cerrados, toca com a testa no chão. O guru (quer ver a Fórmula 1 e despachar isto) segura nas lapelas do casaco e levanta-o.
- Sujei-te o fatinho, foi? Fica de pé, não te sentes.
O guru inicia uma dança à volta dele e da fogueira enquanto diz:
- Segue o teu caminho que fazes caminhando. O teu caminho é feito por ti. A cada passo abres nova brecha da estrada que antes não existia. Tu és o teu caminho, não olhes para os outros, segue-te a ti, a Arte resolve-se a ela própria e sempre no futuro. a Arte nunca se resolve no presente. O teu trabalho é expressares o fogo que tens dentro. Só isso. Sobretudo trabalhar muito e com tremendo entusiasmo porque esse entusiasmo É o fogo.
O guru pára, arregala os olhos e grita:
- Trabalhar bastante e com grande entusiasmo! Segue entusiasticamente a chama que tens dentro. - Acalma-se, baixa a cabeça, tem pouco tempo para estas merdas, a fogueira está quase a apagar-se e ele sem cavacas ali à mão. - Escreve aquilo que te incendeia, segue as personagens que te magnetizam, o que farão elas a seguir?, segue-as com fascínio e admiração. Segue-as de tal modo que ao fim de um mês a escrever desenvolvas uma tendinite. Se não conseguires ficar longe delas e as folhas voarem à tua frente, então, meu menino, tens um livro. E congratulo-te. Permite que o teu entusiasmo te consuma, te conduza, te inflame, essa paixão vai guiar-te para além da mediocridade, para o sucesso, mas sucesso, olarilas, sucesso aos teus olhos. O sucesso que sentes ao pegar no teu livro, feito terminado, revisto, e pensar de olhos luminosos: sim, eu compraria este livro! E é verdade. Fogo. O fogo, a paixão e muito muito trabalho. Trabalho perene, constante, rotineiro. O trabalho está para a escrita como a pressão da terra para o carvão: um conduz à literatura, outro ao diamante.
Dá-lhe um pontapé no rabo, o jovem aceita submisso. Desfere-lhe murraças na cara que apara com os braços erguidos. O nariz incha e o sangue suja o fato.
- Trabalha com este pensamento: que se foda a qualidade. Primeiro serei medíocre! Serei absolutamente medíocre e regozijarei com isso. Trabalha com este pensamento: vou ser verdadeiro, despir-me à frente do público, mas isso não é o que te assusta, pois não? O que vos assusta a todos é despirem-se, ficarem nus à frente de vós mesmos! Terem de lidar com a vossa verdade e os vossos sentimentos! Irás também magoar os outros. É necessário que magoes os outros.
«Lembra-te: dilacera os outros, paspalho! Quê, desejas ser escritor de sucesso, ou mero escritor, Sem solidão?! Não se faz, meu menino, a casa não gasta disso. Ah, queres ser amado... logo vi que eras desses... amado... visita as putas e paga o privilégio. Não serás amado enquanto escritor. Não é isso que importa. Não é esse o fim último. Custa-te estar só e escrever? Também a mim me custa muita coisa, custa-me levantar cedo de manhã e receber carrada atrás de carrada de meninos de bibe como tu, que discutem Política, Cultura, Arte e Cinema como adultos, mas não têm sequer a coragem das crianças, a coragem e a curiosidade que as leva a experimentar coisas inéditas. Inimagináveis. Tens medo dos outros? Ainda?! Há bom remédio: escreve e esconde. Isso é bom. Escreve e mostra, isso também é bom. Não há diferença final entre uma e outra escrita, só diferença de método. Método de agir após a escrita. Não duvides: há por aí muito escritor que não sente necessidade de revelar a sua obra, escreve para si, esconde, retorna a antigos livros feitos, relê-os, gosta, detesta, corrige, não corrige, tem uma arca cheia de livros, eu não duvido da sua existência. Estes escritores existem. O resto, o que vem depois não lhes interessa para nada. Podem até queimar as obras antes da morte e, descendo o caixão à terra, serão cadáveres felizes por apenas eles terem lido esses livros desconhecidos. Ignorados. Invisíveis. Ah, existem sim, mas infelizmente nunca me procuram. São ariscos como gatos no escuro da noite, corremos no seu encalço e deparamo-nos com sombras. Tu, óbvio, não és um deles.
- Mas... a... a Arte Superior... - murmura em vozinha de rato de ombros encolhidos e rosto desviado.
O guru agarra-lhe o cabelo com força e puxa-o, puxa-o. Exclama, furioso:
- Que se coza a arte superior! Puta que a pariu! A arte resolve-se a ela mesma e nunca no presente, já to disse, porra!
Arremete-o contra a parede de rocha e o corpo mole escorrega para o chão.
- Chazinho, chazinho de camomila é do que eu preciso, para os nervos - diz, a bufar pelo nariz.
O rapazinho remete-se à posição fetal. Tem o fato rasgado. O guru fica longos momentos em silêncio, de olhos cerrados. Depois enche os pulmões e repete:
- O que os outros vão pensar, a qualidade, a arte, ficar para a história, ser imortal, não ser medíocre, tudo isso é insignificante. Não tens nada a ver com os outros, escreve para ti primariamente, unicamente, se há leitor a que tens de satisfazer primeiro esse leitor és tu, o teu entusiasmo e gosto vão-se comunicar aos outros. Não podes fingir. Nota-se. Não mintas. Vê-se.
Mas ele vê que há ideias remanescentes naquela cabecinha de amendoim. E os prémios? Então e os prémios.
- Ai, ai... - o guru abana a cabeça. Tem a fúria de um fole esvaziado. - Sucesso é um livro continuar a ser lido daqui a cem anos, não para o nome do autor viver, mas para que os seus sentimentos sejam revividos pelo leitor, como se olhasse para uma foto e as pessoas saíssem do interior. O pior de todos os prémios é o Nobel. É maneira de dizer “Podes parar de escrever”. Dizer isso a um escritor é pedir a um peixe que deixe de usar as guelras para respirar. Os verdadeiros escritores têm pesadelos tenebrosos com o Nobel. Não o querem receber. Agora vai-te lá embora.
- Mas...
- Tu é que explicas a escrita a ti próprio, ninguém o faz por ti. Burro, burro. E com isto as corridas de carros vão a meio.
O candidato a escritor desce atabalhoadamente a encosta. No caminho cruza-se com outro, sorridente, de fato e gravata e com um corte de cabelo assim à foda-se.
(Originalmente publicado em Dezembro de 2005.)
O Candidato a Escritor
O candidato a escritor procura o guru que vive no cimo de uma alta montanha. O candidato, rapazote dos seus vinte e sete anos, vai ao topo em busca de conselho.
Como Ser Um Escritor.
O guru já está mais farto destes gajos, só os que não são escritores é que o procuram, os escritores mêmo à séria já sabem aquilo e não vão ter com ele de modo que não tem a companhia de semelhantes, mas de rapazotes de bibe, bebés de fralda e chupeta a dar a dar. Merdinha de vida.
- Como ser um escritor? - pergunta o rapazote e senta-se de pernas cruzadas à frente do velho de túnica encardida e barbas brancas labirínticas a atiçar o fogo.
“Lá vem outro cabrãozinho foder-me o juízo.”
- Simples - diz erguendo-se e andando à volta do lume e do rapazola, certamente gestor de uma merda qualquer, uma Empresa de renome cujo trabalho lhe ocupa dez, doze horas diárias, contando idas e voltas, e escreve “umas coisas” nos “tempos livres” ou, pior, nos “tempos mortos”.
- Pára de olhar para os outros. Começa a olhar para ti. Eu repito, Pára De Olhar Para Os Outros e olha para ti, para dentro de ti, para o interior, mesmo o centro da tua divina chama. A chama desperdiçada por deus ao dar-ta.
- Mas... - diz o rapaz, timidamente.
E depois embarca num longo discurso, com grandes gestos de mãos para acentuar a grandeza do que diz, melhor: para se associar à grandeza dos Antigos e Presentes, que cita. A voz altera-se, tem um vozear de quase homem quando fala nos Grandes Escritores da História, os gestos são de político de bancada. É isso mesmo o que ele é: político de bancada que se confina às palavras alheias e não passa ao acto de construir as suas. E o guru sabe porquê: por sabê-las menores, não merecem estar lado a lado com os Grandes Escritores da História (Antigos e Presentes, Antigos e Presentes). A sua menoridade insultaria a grandiosidade dos outros.
- A única coisa que insulta seja o que for, mas que primeiramente te insulta a ti é a falta de colhões, a falta de coragem - proclama o guru, os punhos atrás das costas, recordando os passos de bailado do último combate de pugilismo a que assistiu pela tv cabo.
- Mas os Grandes, os Grandes! Como escrever depois deles! Como escapar à sua sombra! - objecta o moço, sorrindo com entusiasmo. “Estás mesmo com vontadinha de lhes escapar à sombra, nota-se.”
- Simples: não há sombra. Não há sombra - diz o guru ao baixar-se.
- Não seria melhor esperar - diz o rapaz, confuso e deixando de sorrir - que eu cresça e viva mais? Não terei de Viver e Aprender mais?
- Uma criança pode tornar-se escritor porque já experimentou um leque dilatado de emoções humanas – explica. - Concentra-te nos sentimentos, toca a alma dos leitores como se tocasses um violino, manipula-os, fá-los chorar e rir, odiar e amar, ter pena, compaixão, inveja, ciúme. São barro nas tuas mãos.
- Mas... - começa o rapazote, todavia cala-se e olha as pedras, os gestos grandiloquentes mortos, as mãos, mudas e pálidas, moribundas no colo. São longas e brancas, de tocar piano. Um desses rapazotes que, à beira dos trinta, têm ainda vivas as certezas adolescentes só nas coisas erradas. Apuraram-nas. Têm grandes discussões sobre os Grandes Autores da Actualidade, de Portugal, do Mundo, sentem-se menos do que os Outros, perguntam-se como poderão alguma vez escrever se os Outros já escreveram Tudo? São Medíocres, absolutamente medíocres, Thot, o deus da escrita egípcio, devia erradicá-los da terra cada vez que tentam construir a frase perfeita. O melhor é esperar mais um tempo, viver mais, ser Maduro, aguardar a Inspiração a meio da noite, sim, ou de manhã quando o despertador os acorda a meio de um sonho. Esperar, esperar, sobretudo não escrever nesse interregno de espera. Um Escritor faz-se nas Esperas da Não Escrita, pensam os rapazolas com pretensões literárias. E depois, na pausa sabática que lhes durará a inteira vida, fazem o corte e a costura dos Outros, os Menores, os que se Atreveram a Escrever Apesar de Medíocres! Como podem conspurcar a terra com tais livros? Eu só leio os clássicos, anunciam num trejeito de desprezo e talvez tentem fumar o charuto enquanto o dizem porque há uma aura literata no fumo abençoado do charuto. E com auras, ambientes de certo tipo, tudo passa, tudo passa. Como pode alguém ter a coragem de ser medíocre?!, perguntam-se, atarantados, numa confusão mental de formigas sem antenas, e um pouco ressentidos.
- A mediocridade conduz à excelência, meu estafermo - explica o guru num sorriso de quase ternura, mas o que ele quer é morder-lhe, morder-lhe o pescoço até escorrer sangue e a seguir gritar: Dói? Escreve sobre isso! Ler-lhe-à os pensamentos?, espanta-se o rapazote. Talvez leia, quem sabe.
Do esgoto nasce a flor. É o rancor, a inveja que os leva a criticar? Como te atreves Tu a ter coragem?! Logo Tu, um Irrelevante! A coragem é reservada a corajosos! (Como a água e o ar são reservados aos melhores? Como os direitos são reservados só a alguns?) Não sentimos todos? Não temos todos a necessidade de nos expressar de modo criativo? Se apenas os Melhores pudessem fazê-lo então não haveria nada, não haveria Arte, não existiriam no mundo livros, quadros, esculturas, música, dança, cinema que nos elevassem a alma, nos elevassem a alma até ao Panteão Divino, o sítio escondido que murcha na labuta da vida quotidiana, trabalho-casa-trabalho, escola-casa-escola, escola-casa-trabalho-casa. E devemos essa elevação aos Medíocres! Porque se atreveram, porque se atrevem, porque arrogantemente se atrevem. Uma estátua aos medíocres já.
- Mas... - contrapõe e leva logo um murro nos queixos.
- Queres saber a Verdade, cabrãozinho? - diz o guru num sorriso cínico a mostrar os dentes e a acariciar os nós dos punhos como as meninas acariciam o cabelo das bonecas. - E logo tu a queres conhecer! Como Te Atreves A Querer Saber A Verdade?! - a voz ribomba como a de um deus fodidinho de todo, alguém lhe cortou a vez na bicha ou furou-lhe os pneus. - Não há verdade a não ser a tua! - revela a tremer as bochechas escondidas nas barbas sujas e emaranhadas. - Como é que eu te posso dizer a verdade se só tu a podes descobrir?! Duques, só me saem duques! Idiotas que me questionam sobre maçãs quando só tenho pêras para oferecer! Queres que te facilite a vidinha, é? Que te desvende a verdade quando essa é a tua missão. A tua verdade é a tua verdade, a tua verdade não é a dos outros; a tua escrita, o modo como se desenrola, o modo como se desprende da ponta do lápis, o modo como se evola, é a tua escrita e Não Tem Nada A Ver Com A Escrita Alheia.
(Entretanto dois chapadões na cara do fedelho, fedelho de vinte e sete anos é certo, mas tomemos em atenção que apenas fedelhos colocam tais questões imbecis. Merece os dois chapadões. Para acordar. Para ouvir.)
- Deus só quer a tua verdade, está-se a lixar para a dos outros, ele já a tem, quer a tua, não entendes? A tua verdade pode ser pequena, medíocre, risível, isso não importa. Os medíocres de hoje são os excelentes de amanhã. Vós, rapazolas ignorantes, que tanto admiram os grandes actuais admirariam a sua vulgaridade antiga? - ri-se. - Então não. São magníficos porque persistiram na loucura, na mediocridade, na mediania, na sua escassa excelência. Porque se voltaram e olharam para dentro, para a chama, e tentaram expressá-la, torná-la visível ao exterior, partilhá-la com os demais. E os outros por vezes são como tu: críticos ambulantes. Críticos que exigem hoje a excelência em todas as ocasiões, atribuíssemos nós o poder aos críticos e exigiriam de crianças a impecável escrita de novo “Guerra e Paz”, de outro “O Nome da Rosa”. A bem da mediocridade há que ignorar os outros. A bem da literatura há que ignorá-los de todas as formas possíveis, a cada dia inventar nova forma de não lhes passar cartucho.
- Mas... - e leva um murro no estômago. O jovenzeco dobra-se, agarrado à barriga de dentes cerrados, toca com a testa no chão. O guru (quer ver a Fórmula 1 e despachar isto) segura nas lapelas do casaco e levanta-o.
- Sujei-te o fatinho, foi? Fica de pé, não te sentes.
O guru inicia uma dança à volta dele e da fogueira enquanto diz:
- Segue o teu caminho que fazes caminhando. O teu caminho é feito por ti. A cada passo abres nova brecha da estrada que antes não existia. Tu és o teu caminho, não olhes para os outros, segue-te a ti, a Arte resolve-se a ela própria e sempre no futuro. a Arte nunca se resolve no presente. O teu trabalho é expressares o fogo que tens dentro. Só isso. Sobretudo trabalhar muito e com tremendo entusiasmo porque esse entusiasmo É o fogo.
O guru pára, arregala os olhos e grita:
- Trabalhar bastante e com grande entusiasmo! Segue entusiasticamente a chama que tens dentro. - Acalma-se, baixa a cabeça, tem pouco tempo para estas merdas, a fogueira está quase a apagar-se e ele sem cavacas ali à mão. - Escreve aquilo que te incendeia, segue as personagens que te magnetizam, o que farão elas a seguir?, segue-as com fascínio e admiração. Segue-as de tal modo que ao fim de um mês a escrever desenvolvas uma tendinite. Se não conseguires ficar longe delas e as folhas voarem à tua frente, então, meu menino, tens um livro. E congratulo-te. Permite que o teu entusiasmo te consuma, te conduza, te inflame, essa paixão vai guiar-te para além da mediocridade, para o sucesso, mas sucesso, olarilas, sucesso aos teus olhos. O sucesso que sentes ao pegar no teu livro, feito terminado, revisto, e pensar de olhos luminosos: sim, eu compraria este livro! E é verdade. Fogo. O fogo, a paixão e muito muito trabalho. Trabalho perene, constante, rotineiro. O trabalho está para a escrita como a pressão da terra para o carvão: um conduz à literatura, outro ao diamante.
Dá-lhe um pontapé no rabo, o jovem aceita submisso. Desfere-lhe murraças na cara que apara com os braços erguidos. O nariz incha e o sangue suja o fato.
- Trabalha com este pensamento: que se foda a qualidade. Primeiro serei medíocre! Serei absolutamente medíocre e regozijarei com isso. Trabalha com este pensamento: vou ser verdadeiro, despir-me à frente do público, mas isso não é o que te assusta, pois não? O que vos assusta a todos é despirem-se, ficarem nus à frente de vós mesmos! Terem de lidar com a vossa verdade e os vossos sentimentos! Irás também magoar os outros. É necessário que magoes os outros.
«Lembra-te: dilacera os outros, paspalho! Quê, desejas ser escritor de sucesso, ou mero escritor, Sem solidão?! Não se faz, meu menino, a casa não gasta disso. Ah, queres ser amado... logo vi que eras desses... amado... visita as putas e paga o privilégio. Não serás amado enquanto escritor. Não é isso que importa. Não é esse o fim último. Custa-te estar só e escrever? Também a mim me custa muita coisa, custa-me levantar cedo de manhã e receber carrada atrás de carrada de meninos de bibe como tu, que discutem Política, Cultura, Arte e Cinema como adultos, mas não têm sequer a coragem das crianças, a coragem e a curiosidade que as leva a experimentar coisas inéditas. Inimagináveis. Tens medo dos outros? Ainda?! Há bom remédio: escreve e esconde. Isso é bom. Escreve e mostra, isso também é bom. Não há diferença final entre uma e outra escrita, só diferença de método. Método de agir após a escrita. Não duvides: há por aí muito escritor que não sente necessidade de revelar a sua obra, escreve para si, esconde, retorna a antigos livros feitos, relê-os, gosta, detesta, corrige, não corrige, tem uma arca cheia de livros, eu não duvido da sua existência. Estes escritores existem. O resto, o que vem depois não lhes interessa para nada. Podem até queimar as obras antes da morte e, descendo o caixão à terra, serão cadáveres felizes por apenas eles terem lido esses livros desconhecidos. Ignorados. Invisíveis. Ah, existem sim, mas infelizmente nunca me procuram. São ariscos como gatos no escuro da noite, corremos no seu encalço e deparamo-nos com sombras. Tu, óbvio, não és um deles.
- Mas... a... a Arte Superior... - murmura em vozinha de rato de ombros encolhidos e rosto desviado.
O guru agarra-lhe o cabelo com força e puxa-o, puxa-o. Exclama, furioso:
- Que se coza a arte superior! Puta que a pariu! A arte resolve-se a ela mesma e nunca no presente, já to disse, porra!
Arremete-o contra a parede de rocha e o corpo mole escorrega para o chão.
- Chazinho, chazinho de camomila é do que eu preciso, para os nervos - diz, a bufar pelo nariz.
O rapazinho remete-se à posição fetal. Tem o fato rasgado. O guru fica longos momentos em silêncio, de olhos cerrados. Depois enche os pulmões e repete:
- O que os outros vão pensar, a qualidade, a arte, ficar para a história, ser imortal, não ser medíocre, tudo isso é insignificante. Não tens nada a ver com os outros, escreve para ti primariamente, unicamente, se há leitor a que tens de satisfazer primeiro esse leitor és tu, o teu entusiasmo e gosto vão-se comunicar aos outros. Não podes fingir. Nota-se. Não mintas. Vê-se.
Mas ele vê que há ideias remanescentes naquela cabecinha de amendoim. E os prémios? Então e os prémios.
- Ai, ai... - o guru abana a cabeça. Tem a fúria de um fole esvaziado. - Sucesso é um livro continuar a ser lido daqui a cem anos, não para o nome do autor viver, mas para que os seus sentimentos sejam revividos pelo leitor, como se olhasse para uma foto e as pessoas saíssem do interior. O pior de todos os prémios é o Nobel. É maneira de dizer “Podes parar de escrever”. Dizer isso a um escritor é pedir a um peixe que deixe de usar as guelras para respirar. Os verdadeiros escritores têm pesadelos tenebrosos com o Nobel. Não o querem receber. Agora vai-te lá embora.
- Mas...
- Tu é que explicas a escrita a ti próprio, ninguém o faz por ti. Burro, burro. E com isto as corridas de carros vão a meio.
O candidato a escritor desce atabalhoadamente a encosta. No caminho cruza-se com outro, sorridente, de fato e gravata e com um corte de cabelo assim à foda-se.
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