Ando com esta ideia.
E o que é que eu fiz? Abri um tópico no Nanowrimo.
Agora há uma data de gente que o vai fazer também.
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sábado, setembro 12, 2009
domingo, março 29, 2009
Re-Post: Conselhos...
(Originalmente publicado a 24.07.02)
:: Conselhos para quem quer escrever ::
Leia. Leia. Leia. Escreva. Escreva. Escreva. Leia. Escreva. Escreva. Leia. Faça amor. Faça empadão no forno. Faça amizades. Faça amores. Perfeitos. Escreva. Leia. Rasgue livros. Coma livros. Escreva. Escreva. Faça caldeirada (uma camada de batatas, outra de cebolas, outra de peixe, pimentos, tomate, repita). Faça um disparate. Roube as histórias da família e amigos, descaradamente. (“Como tiveste a coragem de contar o que eu te disse só a ti em confidência?!”) Leia. Leia. Leia. Escreva. Perca amigos. Ganhe úlceras. Dê-lhe nomes, como Josefina. Escreva. Perca amizades. Faça amor. Escreva. Ganhe solidão. Ganhe o martírio da escrita. Leia. Leia. Leia. Faça pudim de ovos. Torta de laranja. Um bolo de anos. E leia e escreva e leia. Minta. Verseje. Narre. Relate. Fabule. Invente. Enamore-se. Fall out of love (cair fora de amor… expressão singela). Não escreva de pijama. Roube um cego. Engane um sério. Leia Henry Miller (mas pare antes de enjoar). Escreva de pijama. Um dia ainda hei-de escrever nua. Agora escrevo de pé. Leia. Leia. Escreva. Escreva. Start a fire. Start a game. Ponha fim à conversa para ir escrever. Faça mousse. Engorde. Devore livros. Mande à merda os que consideram, têm por ab-so-lu-to que escrever não é trabalho nem emprego, “é hobbie de fim-de-semana de quem não tem nada para fazer”. E leia. LEIA. L E I A! Mas escreva. Escreva mais, escreva menos, escreva acima de tudo. Ao fim de tudo. Até ao Entrudo... escreva, narre, relate, chicoteie, minta. Omita, misture, retire, embrulhe. A estória. Às fatias. (Escreva de bermudas às bolinhas amarelas.) E escreva. Faça chá de cidreira. Chateie-se, aborreça-se, enerve-se. EU ESTOU A ESCREVER!, grite ao energúmeno que lhe pede “5 minutinhos do seu tempo”. Tal gentinha não percebe que cinco minutos perdidos de escrita são cinco séculos ganhos no inferno. Mas mesmo que lá vá parar, lembre-se: escreva. Livros é que lá hão de haver com fartura.
P.S.: Ignore tudo acima, excepto Escrever.
P.S2: Coma farturas. Nhamm!
:: Conselhos para quem quer escrever ::
Leia. Leia. Leia. Escreva. Escreva. Escreva. Leia. Escreva. Escreva. Leia. Faça amor. Faça empadão no forno. Faça amizades. Faça amores. Perfeitos. Escreva. Leia. Rasgue livros. Coma livros. Escreva. Escreva. Faça caldeirada (uma camada de batatas, outra de cebolas, outra de peixe, pimentos, tomate, repita). Faça um disparate. Roube as histórias da família e amigos, descaradamente. (“Como tiveste a coragem de contar o que eu te disse só a ti em confidência?!”) Leia. Leia. Leia. Escreva. Perca amigos. Ganhe úlceras. Dê-lhe nomes, como Josefina. Escreva. Perca amizades. Faça amor. Escreva. Ganhe solidão. Ganhe o martírio da escrita. Leia. Leia. Leia. Faça pudim de ovos. Torta de laranja. Um bolo de anos. E leia e escreva e leia. Minta. Verseje. Narre. Relate. Fabule. Invente. Enamore-se. Fall out of love (cair fora de amor… expressão singela). Não escreva de pijama. Roube um cego. Engane um sério. Leia Henry Miller (mas pare antes de enjoar). Escreva de pijama. Um dia ainda hei-de escrever nua. Agora escrevo de pé. Leia. Leia. Escreva. Escreva. Start a fire. Start a game. Ponha fim à conversa para ir escrever. Faça mousse. Engorde. Devore livros. Mande à merda os que consideram, têm por ab-so-lu-to que escrever não é trabalho nem emprego, “é hobbie de fim-de-semana de quem não tem nada para fazer”. E leia. LEIA. L E I A! Mas escreva. Escreva mais, escreva menos, escreva acima de tudo. Ao fim de tudo. Até ao Entrudo... escreva, narre, relate, chicoteie, minta. Omita, misture, retire, embrulhe. A estória. Às fatias. (Escreva de bermudas às bolinhas amarelas.) E escreva. Faça chá de cidreira. Chateie-se, aborreça-se, enerve-se. EU ESTOU A ESCREVER!, grite ao energúmeno que lhe pede “5 minutinhos do seu tempo”. Tal gentinha não percebe que cinco minutos perdidos de escrita são cinco séculos ganhos no inferno. Mas mesmo que lá vá parar, lembre-se: escreva. Livros é que lá hão de haver com fartura.
P.S.: Ignore tudo acima, excepto Escrever.
P.S2: Coma farturas. Nhamm!
quinta-feira, março 12, 2009
O Senhor Etecetera
Olá kiduchos.
Bom, já não escrevo nada para o blog, assim, à séria, há demasiado tempo.
Deixo aqui um pequeno texto que já tinha escrito em Dezembro de 2008 e que é baseado num sonho que tive... já não me lembro quando, mas muito antes disso.
O SENHOR ETECETERA
Sonha com o senhor Etecetera, rapaz novo e aprumado, de cabelo negro de azeviche com risco ao lado. Usa suspensórios e camisa branca. Tem um sorriso jovem, aberto e cativante. No sorriso mostra toda a juventude e jovial alegria. É um rapaz com os seus vinte e poucos anos. É o senhor Etecetera que, sentado à secretária, a recebe sorrindo, dentro daquele quarto (será dele? Será dela?) e aponta para a máquina de escrever colocada em cima da secretária, num convite para começar a escrever de novo. Será um anjo, um espirito-guardião, um guia, este senhor Etecetera, que a recebe tão bem e a convida a retomar a escrita?
Ele olha directamente para ela e, ao seu lado, em cima da secretária, está a antiquada máquina de escrever, muito parecida com a primeira que teve, anos atrás. Era o oitavo ano e na altura servia para fazer trabalhos escolares. O senhor Etecetera é tão simpático, não força nada, não impõe – convida com uma jovial alegria. E de repente lembra-se de Júpiter, o Soberano Principal, o rei dos deuses.
Nunca mais tornou a sonhar com o senhor Etecetera, com os seus suspensórios e camisa branca, com o seu sorriso de inspiração e com a sua juventude, mas nunca mais esqueceu este senhor. Gostaria de voltar a sonhar com ele, mas se calhar os guias, ou deuses, só avisam uma vez do caminho a ser trilhado ou (re)tomado. Só uma vez os deuses nos visitam.
Bom, já não escrevo nada para o blog, assim, à séria, há demasiado tempo.
Deixo aqui um pequeno texto que já tinha escrito em Dezembro de 2008 e que é baseado num sonho que tive... já não me lembro quando, mas muito antes disso.
O SENHOR ETECETERA
Sonha com o senhor Etecetera, rapaz novo e aprumado, de cabelo negro de azeviche com risco ao lado. Usa suspensórios e camisa branca. Tem um sorriso jovem, aberto e cativante. No sorriso mostra toda a juventude e jovial alegria. É um rapaz com os seus vinte e poucos anos. É o senhor Etecetera que, sentado à secretária, a recebe sorrindo, dentro daquele quarto (será dele? Será dela?) e aponta para a máquina de escrever colocada em cima da secretária, num convite para começar a escrever de novo. Será um anjo, um espirito-guardião, um guia, este senhor Etecetera, que a recebe tão bem e a convida a retomar a escrita?
Ele olha directamente para ela e, ao seu lado, em cima da secretária, está a antiquada máquina de escrever, muito parecida com a primeira que teve, anos atrás. Era o oitavo ano e na altura servia para fazer trabalhos escolares. O senhor Etecetera é tão simpático, não força nada, não impõe – convida com uma jovial alegria. E de repente lembra-se de Júpiter, o Soberano Principal, o rei dos deuses.
Nunca mais tornou a sonhar com o senhor Etecetera, com os seus suspensórios e camisa branca, com o seu sorriso de inspiração e com a sua juventude, mas nunca mais esqueceu este senhor. Gostaria de voltar a sonhar com ele, mas se calhar os guias, ou deuses, só avisam uma vez do caminho a ser trilhado ou (re)tomado. Só uma vez os deuses nos visitam.
sexta-feira, junho 06, 2008
Escreva!
Participei com este poema no desafio do Escreva!
Não Acordes
Não acordes, Alice, esse coelho da cartola que ele pode beliscar-te e roubar os flamingos à Rainha. E ela corta-te a cabeça se não jogar croquet.
A rainha e o gato às vezes riem, mas de maneira diferente. O riso da rainha não é invisível e o gato pode dispensar o corpo inteiro quando sorri.
Não acordes, Alice, o jogo e lentamente adormece e lentamente adormece ao som da minha voz doce, cálida e lânguida. Terna como a chávena de chá quente.
Eu quero descobrir o que há debaixo desses folhos, Alice. Bebe o chá, Alice, e faz de conta que a mão que te amarinha perna acima é um navio a navegar o mar preguiçoso cheio de Sol.
6.06.08
Participem também!
Não Acordes
Não acordes, Alice, esse coelho da cartola que ele pode beliscar-te e roubar os flamingos à Rainha. E ela corta-te a cabeça se não jogar croquet.
A rainha e o gato às vezes riem, mas de maneira diferente. O riso da rainha não é invisível e o gato pode dispensar o corpo inteiro quando sorri.
Não acordes, Alice, o jogo e lentamente adormece e lentamente adormece ao som da minha voz doce, cálida e lânguida. Terna como a chávena de chá quente.
Eu quero descobrir o que há debaixo desses folhos, Alice. Bebe o chá, Alice, e faz de conta que a mão que te amarinha perna acima é um navio a navegar o mar preguiçoso cheio de Sol.
6.06.08
Participem também!
sexta-feira, março 28, 2008
Mortes
Isto era para participar num desafio do Escreva! ...mas depois esqueci-me... :|
Aqui fica.
*******************
[10 minutos, escrita automática.]
A morte, a morte de Cristo e a ressurreição do Coelhinho da Páscoa - Paz à sua alma; o Equinóxio e o equilíbrio do ovo na ponta mais estreita; o nascimento de todos do ovo universal primordial.
Há quem morra todos os dias um pouco; há quem se mata todos os dias um pouco - e há quem só observa porque participar é participar da morte alheia. Há quem ache a morte tão terrivelmente sagrada que um medo se apodera deles. Não, vou pôr-te à distância, ser terrífico, Shiva, Plutão, Deus dos Tenebrosos e Profundos Infernos, para aí não irei, o meu destino é viver ao Sol, à Luz do dia.
E a seguir a luz apaga-se. Apaga-se com o encerrar de mil sóis sem combustível, invisíveis num céu de pano escuro sem estrelas. (Pausa para o chá.)
Não temer a morte é mais fácil que não temer a vida.
A morte é o descanso, acredito - a morte é o Recreio! A obrigação de constantemente evoluirmos, nos transfigurarmos e renascermos, isso sim, é trabalho. Desprezo todos quantos temem a morte. Sempre desprezarei quem não se prepara para ela em vida. Acredito que é essa a nossa função enquanto vivos: prepararmo-nos para morrer (morrer... morrer...) Não tenho pena de quem, aos 80, 90 anos, teme a morte como uma criancinha de cinco. Vergonhosa cobardia, aqui o afirmo - vergonhosa cobardia.
Dor e morte não são sinónimos. Quem tem dores merece compaixão, simpatia. E eis o limite da minha consideração!
Quando morrer vou morrer com honra. (Honra, i.e., Coragem.) Bravura!
O renascimento. O ressuscitamento de... (e o relógio tocou).
Aqui fica.
*******************
[10 minutos, escrita automática.]
A morte, a morte de Cristo e a ressurreição do Coelhinho da Páscoa - Paz à sua alma; o Equinóxio e o equilíbrio do ovo na ponta mais estreita; o nascimento de todos do ovo universal primordial.
Há quem morra todos os dias um pouco; há quem se mata todos os dias um pouco - e há quem só observa porque participar é participar da morte alheia. Há quem ache a morte tão terrivelmente sagrada que um medo se apodera deles. Não, vou pôr-te à distância, ser terrífico, Shiva, Plutão, Deus dos Tenebrosos e Profundos Infernos, para aí não irei, o meu destino é viver ao Sol, à Luz do dia.
E a seguir a luz apaga-se. Apaga-se com o encerrar de mil sóis sem combustível, invisíveis num céu de pano escuro sem estrelas. (Pausa para o chá.)
Não temer a morte é mais fácil que não temer a vida.
A morte é o descanso, acredito - a morte é o Recreio! A obrigação de constantemente evoluirmos, nos transfigurarmos e renascermos, isso sim, é trabalho. Desprezo todos quantos temem a morte. Sempre desprezarei quem não se prepara para ela em vida. Acredito que é essa a nossa função enquanto vivos: prepararmo-nos para morrer (morrer... morrer...) Não tenho pena de quem, aos 80, 90 anos, teme a morte como uma criancinha de cinco. Vergonhosa cobardia, aqui o afirmo - vergonhosa cobardia.
Dor e morte não são sinónimos. Quem tem dores merece compaixão, simpatia. E eis o limite da minha consideração!
Quando morrer vou morrer com honra. (Honra, i.e., Coragem.) Bravura!
O renascimento. O ressuscitamento de... (e o relógio tocou).
quarta-feira, outubro 31, 2007
Amantes e Gatos
Escrevi este texto para participar neste desafio do Escreva!
E, porém, não segui as minhas próprias regras, lol: o texto tem bem mais do que as 300 palavras estipuladas :p Gostei da história e no entusiasmo, enfim, prossegui.
I hope you enjoy.
===============
Hoje de manhã ao sair de casa tive um encontro inesperado com o fantasma do meu gato morto. Na verdade parecia ser a mistura, esse gato, de todos os gatos que eu amei e tive. Era em parte branco, mas, num golpe de luz (ou de plasma esotérico ou seja lá o que for) o dorso brilhava em azul de cetim, na cor da noite, ou em cinzento – e aí lembrava-me da Queiroz, a minha gata que morreu e por quem chorei.
Mas este era indubitavelmente macho. E tão vívido de carnes e presença física que duvidei por instantes tratar-se de um fantasma.
Falou comigo.
- Olá – saudou-me. - Está um belo dia para andar pelas ruas.
- Ah sim. É vero.
- Já não te recordas de mim.
- Pois claro que recordo: és a quinta-essência dos gatos, és todos os gatos que eu já tive e vou ter. O próximo quando chegará à minha porta, podes dizer-me?
Ignorou a questão. Ao invés sacou de um cigarro não sei de onde, já aceso, com incomparável destreza filídia tendo em conta que gatos, enfim, não possuem polegares, e pô-lo na boca.
- Isso faz-te um mal...
- Estou morto – relembrou-me.
- Ah pois, é vero.
(Senti-me estúpida.)
- Vim lembrar-te que éramos amantes no Antigo Egipto.
- Nós? Mas tu és um gato.
- A tua perspicácia para o óbvio é notável porém pouco rara. É facto: sou um gato. Tu eras um sacerdote.
- Eu?! Deus Santíssimo: eu abusei de gatos!
- Não, não. De todo. Éramos amantes a um nível mais... espiritual. Tu eras o meu marido e eu o teu marido.
- Esta conversa é por demais absurda. Vou-me embora.
Ele acabou o cigarro, deu-lhe um piparote novamente com considerável destreza felina e miou que não, não fosse, por favor ficasse.
Senti-me ridícula e envergonhada. As coisas inenarráveis que o meu antigo Ser fez aos gatos. Ó, Deus Altíssimo, o castigo!, nem quero imaginá-lo.
Ensaiei uma desculpa. Ele emitiu um som de desprezo por entre a boca sem lábios que se enredou nos bigodes reluzentes.
- Antigo Marido – disse, pousando formalmente a pata direita no meu joelho esquerdo (eu ajoelhara-me), - vim apenas relembrar-te o quanto te amei, o quanto me amaste. Foi um belo tempo, o nosso, milénios atrás. Havia incontáveis manhãs iguais a esta. O meu coração ainda bate no teu, o teu coração está ainda alojado no meu e, por mais pessoas que eu ame no futuro, quero dizer-te que a ti vou amar-te por todo o sempre.
Envergonha-me confessá-lo: chorei.
Chorei tanto. Ele veio relembrar-me um amor que eu não sabia ter tido. Chorava ainda quando pediu indicações para a papelaria para comprar tabaco. Não fez tentativa de consolo, não tentou parar as minhas lágrimas... talvez porque a minha tendência “para o óbvio” ser “notável porém pouco rara”. Se houve e há amor para quê chorar? Não é lógico?
Porque me abriu ele o coração assim? Talvez para eu deixar entrar ar nele, uma brisa, uma água, um cheiro a terra molhada e a eucalipto.
Levantei-me. Estraguei as meias de vidro nos joelhos, sujei as botas de terra. Foi como se uma chuva tivesse vindo e me tivesse limpo todas as impurezas passadas.
Ó, Deus Sereníssimo, como eu amo os gatos!
E, porém, não segui as minhas próprias regras, lol: o texto tem bem mais do que as 300 palavras estipuladas :p Gostei da história e no entusiasmo, enfim, prossegui.
I hope you enjoy.
===============
Hoje de manhã ao sair de casa tive um encontro inesperado com o fantasma do meu gato morto. Na verdade parecia ser a mistura, esse gato, de todos os gatos que eu amei e tive. Era em parte branco, mas, num golpe de luz (ou de plasma esotérico ou seja lá o que for) o dorso brilhava em azul de cetim, na cor da noite, ou em cinzento – e aí lembrava-me da Queiroz, a minha gata que morreu e por quem chorei.
Mas este era indubitavelmente macho. E tão vívido de carnes e presença física que duvidei por instantes tratar-se de um fantasma.
Falou comigo.
- Olá – saudou-me. - Está um belo dia para andar pelas ruas.
- Ah sim. É vero.
- Já não te recordas de mim.
- Pois claro que recordo: és a quinta-essência dos gatos, és todos os gatos que eu já tive e vou ter. O próximo quando chegará à minha porta, podes dizer-me?
Ignorou a questão. Ao invés sacou de um cigarro não sei de onde, já aceso, com incomparável destreza filídia tendo em conta que gatos, enfim, não possuem polegares, e pô-lo na boca.
- Isso faz-te um mal...
- Estou morto – relembrou-me.
- Ah pois, é vero.
(Senti-me estúpida.)
- Vim lembrar-te que éramos amantes no Antigo Egipto.
- Nós? Mas tu és um gato.
- A tua perspicácia para o óbvio é notável porém pouco rara. É facto: sou um gato. Tu eras um sacerdote.
- Eu?! Deus Santíssimo: eu abusei de gatos!
- Não, não. De todo. Éramos amantes a um nível mais... espiritual. Tu eras o meu marido e eu o teu marido.
- Esta conversa é por demais absurda. Vou-me embora.
Ele acabou o cigarro, deu-lhe um piparote novamente com considerável destreza felina e miou que não, não fosse, por favor ficasse.
Senti-me ridícula e envergonhada. As coisas inenarráveis que o meu antigo Ser fez aos gatos. Ó, Deus Altíssimo, o castigo!, nem quero imaginá-lo.
Ensaiei uma desculpa. Ele emitiu um som de desprezo por entre a boca sem lábios que se enredou nos bigodes reluzentes.
- Antigo Marido – disse, pousando formalmente a pata direita no meu joelho esquerdo (eu ajoelhara-me), - vim apenas relembrar-te o quanto te amei, o quanto me amaste. Foi um belo tempo, o nosso, milénios atrás. Havia incontáveis manhãs iguais a esta. O meu coração ainda bate no teu, o teu coração está ainda alojado no meu e, por mais pessoas que eu ame no futuro, quero dizer-te que a ti vou amar-te por todo o sempre.
Envergonha-me confessá-lo: chorei.
Chorei tanto. Ele veio relembrar-me um amor que eu não sabia ter tido. Chorava ainda quando pediu indicações para a papelaria para comprar tabaco. Não fez tentativa de consolo, não tentou parar as minhas lágrimas... talvez porque a minha tendência “para o óbvio” ser “notável porém pouco rara”. Se houve e há amor para quê chorar? Não é lógico?
Porque me abriu ele o coração assim? Talvez para eu deixar entrar ar nele, uma brisa, uma água, um cheiro a terra molhada e a eucalipto.
Levantei-me. Estraguei as meias de vidro nos joelhos, sujei as botas de terra. Foi como se uma chuva tivesse vindo e me tivesse limpo todas as impurezas passadas.
Ó, Deus Sereníssimo, como eu amo os gatos!
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