segunda-feira, dezembro 30, 2002

Não resisto... lol
Aviso:
A informação que se segue destina-se apenas às senhoras! Homens, desviai o olhar! (Depois não digam que eu não avisei...)

The Keeper!

domingo, dezembro 29, 2002

"A Amnistia Internacional nasceu em 28 de Maio de 1961. A sua criação teve origem numa notícia publicada no jornal inglês "The Observer" em que era referida a prisão de dois estudantes portugueses por terem gritado «Viva a Liberdade!» na via pública."

Viva a Liberdade, viva!
'Tá quase... o ano de 2003 'tá mesmo aí à porta...

terça-feira, dezembro 24, 2002

Exaltação do amor

Sofro, bem sei... Mas se preciso fôr
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrêla alcançar... colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!

Se êsse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!

(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro -Bazar de Ritmos- 1935)


(Há sempre esperança para quem ama, meus lindos...)
Para mais poemas deste senhor...

http://www.jgaraujo.com.br/poesias/poesias.htm
Cartas de amor, quem as não tem...
Todas as cartas de amor são... ridículas...

E que tal um poema, hum?


I

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

II

Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;

De teu ventre - uma enseada
- porto sem cais e sem mar -
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;

- Do teu corpo só de alvuras
- das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...

Gosto de ti
desesperadamente;

Gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
- Gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...

J. G. de Araújo Jorge


Como é que se diz... eu gosto de ti?
Ora, com um poema!
(Vá lá, meninos, fiquem atentos.)

Se quiserem mais poemas passem pelo #poesia_e_prosa ;)



quinta-feira, dezembro 19, 2002

Acho que já percebi porque é os links vão quebrar...

(Tenho mesmo de aprender a usar o espaço que tenho na netcabo...)
(Sem foto porque não sei como a hei-de pôr aqui.)

DESAPARECEU 07/11/2001
Bruno Miguel da Silva Sousa
8 Anos de idade - S. Cosme - Gondomar
Qualquer tipo de informação por favor contactar:
Policia Segurança Publica Gondomar - Telf: 22 483 03 81
Policia Judiciaria do Porto
ou outra entidade policial da sua área de residência

Contactar no IRC PTnet #Gondomar (waist; Lobo_Fantasma; Justt)

PEDE-SE O APOIO DE TODA A COMUNIDADE CIBERNAUTA PORTUGUESA
A AJUDAR ESTE PAI
NO REENCONTRO COM O SEU FILHO

(Mensagem que vinha hoje no e-mail.)

terça-feira, dezembro 17, 2002

And now for something completly different!

Como é que raio se usa um ftp e se envia uma página html para o espaço que eu tenho na netcabo?!? Não percebo nada daquilo! Há algum site que esprike? Assim muito, mas muito de-va-ga-ri-nho?


link.
Deprimida, deprimida, deprimida...

Merda de tempo.

Ponho aqui os links para os livros que já escrevi... ou não? (Sim, é uma pergunta.)

terça-feira, dezembro 10, 2002

sábado, dezembro 07, 2002

"Anyone who needs constant encouragement just isnt going to make it. You need stamina, self belief, and a dogged obstinacy. It also helps to have a thick skin and an ego that makes Everest look like a pimple on a sheep's bum." -- David Gemmell

Ego. Montanhas, resmas de Ego ajuda! lol
Olá. Sorry, não tenho aparecido por cá. Não tenho tido vontade nenhuma de escrever. Algures no Alphasmart tenho poucas linha de que ainda não fiz upload para o pc.

Em relação à escrita - falar sobre o quê?
Sempre tive um bocado de medo de falar sobre o livro que, na altura, escrevesse. Já 'tou um pouco a perder isso, essa paranóia.

Vou experimentar, aqui, a ver se estou ou não a perder esse medo talvez parvo ou talvez não tão parvo quanto isso. Vou falar sobre o livro que me anda aqui na cabeça. Sobre a Julie e sobre o Patrick.

Vou? Bolas, travei outra vez. De repente não quero falar mais. Nem sequer tenho título! Quero muito começar a escrever a personagem do Patrick - mas temo que, no papel, ela se modifique.

E gosto do fim em que pensei. Não me parece que o vá alterar. Agora só falta o resto - escrever!

(Agora? Vou? Now? Tem de ser...?)

(Péssimo defeito, a preguiça, péssimo...)

sexta-feira, novembro 29, 2002

domingo, novembro 24, 2002

Já devo ter ultrapassado a marca das 40 mil palavras, mesmo assim 'tou um 'cadito atrasada. Mal atinja (se atingir, mas espero que sim), as 50 mil palavras do meu nanonovel, volto ao blog. Talvez daqui a 5 dias já tenha terminado (hopefully!).

Until then **

terça-feira, novembro 19, 2002

sexta-feira, novembro 15, 2002

Já tenho o alphasmart em casaaaa!!!!! E é LINDO!!!!!!!! Não preciso de porra de pc portátil nenhum! O Alphy basta-me e em muitas funções é superior a um portátil! (Isto é, para quem apenas precisa de um portátil devido à função de processamento de texto.)

Oh yeah, i'm happy... :D

segunda-feira, novembro 11, 2002

Isto vai ficar paradito até mais ou menos o dia trinta deste mês. ;)

Cya then *****

sexta-feira, novembro 08, 2002

"Welcome to Suck Club.

This is the place for everyone whose work sucks.

The first rule of Suck Club is you don't talk about Suck Club. Others will do that for you, while pointing and laughing.

The second rule of Suck Club is you don't talk about Not-Suck Club. Those people with talent make us cry.

The third rule of Suck Club is when your plot says stop or your characters, you will continue to flog them, dead horse-stylee.

The fourth rule of Suck Club is no strong characters, no tight plotting, no exploration of themes and NO GODDAMN ENCHANTING POETIC TURNS OF PHRASE

The fifth rule of Suck Club is if this your first night at Suck Club, or if you've been here for years, you have to Suck.
_________________
Words are never enough
They're just cheap tarnished glitter

http://bernowrimo.blogspot.com"


I'm sooo there!!!! *ui..*

Tirado de nanowrimo.org
Porcaria da alergia! Péssimo dia hoje, péssimo. Devia 'tar a escrever, mas não me apetece nem bocadinho. Estou cheia de sono e a beber café. Aiiii... 'tou mal.

Mali :/

(Como é que se faz beicinho com smile?)
Olhem-me este site!

Altamente!

quinta-feira, novembro 07, 2002

Can't sleep... :(

Malditos ácaros.

Hei, ganda nick.
(Registei...)

Preciso de um acarocída para executar um acaromicídio. :|

terça-feira, novembro 05, 2002

Acho que já percebi uma coisa. Ao fim de anos!, só hoje percebi que escrever mal não tem importância. Que se lixe, que se dane, que se f*da. (Foi só para vos captar a atenção, hehe...).
Nunca me tinha dado conta, antes, do maldito editor que partilha a consciência comigo e que se activa mal eu agarre na caneta ou no teclado. (Honestamente, não sabia que ele estava lá.)

E só hoje, também, realizei (no sentido de entender, à inglesa), de maneira clara, que apenas o hábito diário me fará escrever melhor. Nada mais e nada menos do que escrever todos os dias para que, um dia, escreva como deve ser. Só escrevendo todos os dias - e sim: mal! - conseguirei algum dia calar o editor.

Sabem quando a gente sabe uma coisa e não quer saber que a sabe? Quando prefere não tomar conhecimento dela? Eu já sabia isto, mas escondia-o no fundinho da mente, no sotão, nas águas furtadas da consciência.

Escrever mal não importa porque escrever é criar. Criar é uma actividade superior à de permanecer frente à tv, com a desculpa que a “inspiração” não bate. A inspiração doma-se, i. e., convoca-se mercê da escrita diária, boa ou má.

Posso escrever mal. Uau. Que alívio.
É que eu não sabia, percebem?

(Note to self: amanhã arrumar a cozinha.)
(Alternativa: casar com gajo rico com money suficiente para contratar empregada doméstica último modelo.)
(Última ansiedade/desejo que me afastará do Nirvana nas próximas encarnações: Eu Quero Um Alphasmart!!!!!)
(Edição de última hora: aceitam-se doações de empregadas domésticas. Falar com gerente do blog.)


-\\-
Criar o hábito diário da escrita tem muito de semelhante com criar o hábito de ir correr ou fazer ginástica todos os dias. No primeiro dia, depois de cinco minutos de corrida, estamos estatelados no chão a pedir misericórdia. Mas, pouco a pouco, custa-nos menos e talvez ao fim de um mês uma hora a correr sem parar já não pareça grande sacrifício.

É igual com a escrita. Se não existe o hábito, encher uma mísera página A5 será assaz difícil, mas se nos obrigarmos todos os dias a escrever, ao fim do mês talvez nos surpreendamos agradavelmente ao notar que acabámos de escrever três páginas A4 de um lado e doutro.

Criar hábitos. Mantê-los. That's it.

[Ouvindo: Sting, “that's not the shape of my heart”.]
Now you see me...
Now you don't...


So which letter of the alphabet matches YOUR personality, huh?




[Tenho um texto para pôr aqui, mas 'tou com preguiça de o passar ;P]

domingo, novembro 03, 2002

sexta-feira, novembro 01, 2002

"The problem with America is stupidity. I'm not saying there should be a capital punishment for stupidity, but why don't we just take the safety labels off of everything and let the problem solve itself?"

LOL

(tirei do forum do nanowrimo.org)
"The first rule of writing is -- to write!" -- William Forrester, Finding Forrester

quarta-feira, outubro 30, 2002

"Don't get it right, get it written." --James Thurber

Também abifado do forúm de nanowrimo.org.

(Ai meu Deus, espero não ter já ultrapassado o meu limite internacional... *rói-unhas*)
Netcabo is evil, i say, Evil!
(Um reles giga de tráfego internacional e 20 pó nacional, quando no nacional me fico sempre pelos 100 megas... peloamordedeus, grandessíssimos vigaristas, pá...)
Quando escrevo não gosto de contar tudo. Irrita-me. Não quero dizer tudo. Que os leitores usem as célulazinhas cerebrais, é o meu lema. Não conto tudo, a história toda, o resto que os leitores adivinhem. Afinal a história também lhes pertence. Não digo como as coisas acabam porque reconheço ao leitor outra forma de acabá-las. Reconheço-lhe a liberdade de decidir. O livre arbítrio para ir por este ou aquele caminho ou simplesmente ficar parado e dizer: não, não vou por aí.

Não gosto de dar a papinha toda feita, já mastigada, a quem lê. Porra, que pensem! Há um déficit de reflexão neste país para o qual pretendo contribuir o menos possível.
(Ideia: será que o leitor sabe que é livre? De criar, recriar, co-criar, não criar, destruir o objecto lido? Será que ele sabe?)

Para dizer a verdade, enquanto primeira autora (ou leitora original...), reconheço a mim própria o direito de não conhecer tudo. De desconhecer porque a personagem se comporta desta ou doutra forma; de que o caminho que a narrativa toma me seja velado. Ok, concedo: bela desculpa para não ter as peças da história logicamente ordenadas! Sim, até pode ser isso... mas pode ser isso e outra coisa em simultâneo. Não tive vontade de me alongar em detalhes e/ou (apesar de autora) tais detalhes (cenários, pensamentos, descrição de características físicas, etc.) estavam-me ocultos. Escondiam-se de mim. “Anda jogar às escondidas! Conta até cem e depois vens à procura da gente!” “Não quero contar, quero esconder-me!” “Assim não brincas!” Conta-se muito rápido, depois vai-se à procura e... nada. Fugiram todos. Todos aqueles malditos 'detalhes' (mistérios).

Resumindo: não acho necessário dizer absolutamente tudo. Que o intuam, leitores, que o descodifiquem. Ou que, não o sabendo (seja lá o que for), a ele voltem, no silêncio da noite, às voltas na cama enquanto tentam adormecer.

Dizer tudo é, considero, partir do princípio que o leitor é imbecil e que o crânio tem a mera função de sustento capilar, além de servir para uso ocasional do chapéu (ou outros ornamentos).

Dizer tudo, acho, é acreditar que o ser humano leitor não tem qualidades, estrutura, para ser criatura livre e autónoma.

O livro que tudo diz não concorre para a nova criação de ideias, conceitos. Acaba por ser um livro fascista no qual a liberdade é domada pelo acto de a restringir ao leitor.

O livro que diz tudo, pormenorizadamente, é paternalista, trata o leitor como criança.

Portanto escondam... escondam muito. ;)

quinta-feira, outubro 24, 2002

"If a thing is worth doing, it is worth doing badly." -- G.K. Chesterton

De todas as citações que já vi até hoje, esta tem de ser a minha preferida!
"And always remember: pillage *before* you burn!"

LOL

(Also stolen...)

(Too much - or to less? - cafein today...)
"Without music, life would be a mistake." - Nietzsche

Olhem que bonito. Tirei do forum do nanowrimo.org. Ontem fiquei até às 5h30 só a ler as mensagens. Ah, se ao menos existisse algo - minimamente - semelhante em português...

(Tenho ali um texto para pôr aqui, mas ainda não o passei a computador.)

terça-feira, outubro 22, 2002

"As vezes a ideia pode ser muito semelhante a tantas outras, mas o que difere é no toque pessoal do autor. Um mesmo enredo contado em mil diferentes maneiras, cada um com o seu grau de espectacularidade (existe?).
Ghostboy em 21/10/02 19:31"


Se existem diferentes formas de contar a mesma história? Claro. Há obras que narram a história (por exemplo) de uma família através dos diferentes olhares de cada um dos seus membros. (Pronto, lá tinha de vir a gata para o pé do pc...)
:)

segunda-feira, outubro 21, 2002

Vejam isto...

Obras em línguas estrangeiras are great. Estou tentada... e daí... humm, não sei. Mas acho que é uma terrific idea!

Leiam com atenção. Começa a 1 de Novembro e termina a 30 de Novembro.

"What is NaNoWriMo?
National Novel Writing Month is a fun, seat-of-your-pants approach to novel writing. Participants begin writing November 1. The goal is to write a 175-page (50,000-word) novel by midnight, November 30."


domingo, outubro 20, 2002

Duplo Espaço


O Sr. Bentley acredita que cada espaço contém em si outro espaço no qual o seu duplo habita, actua. Crê que os dois espaços se interceptam e contaminam. O Sr. Bentley tem um gato, porém cuida ser possível o duplo ter um cão – com idêntico nome. Se o Sr. Bentley urrasse: “Sam? Sam! Sacana, onde te meteste?!” e lhe aparecesse, cabisbaixo, de rabo entre pernas (jamais o orgulhoso felino se comportaria tão miseravelmente), o cão reconhecendo-o como dono, ele julgaria normal, comum. Estranharia, quiçá, que a tal realidade invisível (alternativa...) não tivesse tocado a sua antes. Para ele a troca é (seria) prova incontestável da ordem do Universo. Só um Universo trocado estaria composto.

O Sr. Bentley põe o totoloto todas as semanas. Tem uma chave que nunca modifica. Ele acredita na natureza sagrada dos números porque, de acordo com o colega de trabalho, há muito deixou de ter fé na natureza sagrada dos homens. Quando matou a mulher por ela se ter esquecido de pôr o totoloto na semana em que o primeiro prémio saiu à chave do Sr. Bentley, a descrença nos homens que o colega adivinhara apenas se confirmou. Melhor: materializou.

E contudo o Sr. Bentley supunha ser o duplo o verdadeiro assassino (não obstante a cristalizada lembrança das suas mãos fixas no pescoço da esposa). Devido à esdrúxula teoria de espaços no interior de espaços, não se surpreende ao ser preso e acusado do crime que, para si, foi de facto cometido pelo duplo invisível.
Só o colega fez a acertada ilação: a Sra. Bentley tinha posto o totoloto atempadamente. E guardara o recibo. A Sra. Bentley planeava safar-se com o dinheiro – e o amante.

- E a massa...?
- Alguém levantou o cheque.
- Mas quem?
O colega ergueu os ombros e fez uma festa a Sam.


[O outro conto que foi recusado. Hoje 'tou a litle bit depressed...]

sábado, outubro 19, 2002

Há quem os pare?


Qu’isto no parir não há ajuda que valhe ou deixe de valer. Salete, parturiente em final de estação, semeou descendência Lisboa abaixo, com a força de um tsunami japonês. Começou a desovar na Avenida da República, antes de conseguir entrar no Metro. Empurraram-na, aos gritos, para um táxi de cor creme e condutor moreno, o bigode russo devido ao tabaco. A mulher tentou refrear-se, mas o puto sai a mil à hora seguido de cinco dezenas de irmãos. O taxista pôs-se a milhas e a mulher seguiu parindo Avenida da Liberdade adiante, os filhos, que num alvoroço de membros, placenta e sangue iam aos atropelos derrubando viaturas, árvores, pessoas, cães vadios, pombos, gaivotas e semáforos.
No Rossio Salete arremeteu a deusa Eileithya, deidade maternal descida do Olimpo cujo frustrado propósito era prestar auxílio à puérpera. A parição extrema foi qual terramoto, derribando Lisboa até atingir o Carmo e a Trindade. Centenas de recém-nascidos submergiram a Brasileira e levaram de enxurrada o poeta Camões.
Na investida apocalíptica um transeunte, espavorido, pôs-se aos berros:
- Pare! Pare! Pare!
- Calem-me este gajo! – guinchou outro, devorado no aluvião de bebézinhos esperneantes, cobertos em placenta e sangue e a chorar como almas perdidas.
Salete, quando cai ao Tejo, aos revoluteios colina abaixo em imortal trabalho de parto, interroga-se como é que o cornudo do marido lhe fez um disparate destes.
Logo o marido.
Não podia ter sido antes o corno do amante?
(Já lá dizia o sábio da minha terra, copofone com as cotas em dia, depois de uma berzundela em cima: “No que toca a parir não há quem nos pare!”)


[Um conto que foi recusado por uma revista. Publico-o aqui.]

sexta-feira, outubro 18, 2002

segunda-feira, outubro 14, 2002

Se os Canalhas não actualizarem tiro dali o link. Com muita pena minha, adoro aqueles gajos.



Vemos o gato especado a olhar para a janela ou para o ralo do esgoto à espera de caçar a mosca e pensamos, “não, não tem interesse nenhum. Ali não está o livro, ali não está nenhum livro.”
Vemos a vizinha, idêntica a milhares de vizinhas, a carregar o saco das compras, a queixar-se das dores nas costas, a alisar a permanente que fez no dia anterior. A falar sobre a gradação dos óculos e cogitamos, “não, aquilo não tem interesse nenhum”. E tornamos a caminhar, à coca de algo em Grande, um desembarque pirata, quiçá! (Sem nos determos na ideia de que o rio está a trinta quilómetros.) Vemos o vizinho que tem diabetes e que todos os dias cumprimentamos, vemos o cão dele, manco e cego de um olho, velho, tem mais de doze anos, diz o dono. Vêmo-lo e, presuntuosos, continuamos o caminho. “Dali não tiro nem um parágrafo.” E queremos sempre algo extraordinário. Queremos a Miss Marple, o Poirot, o Doutor Watson, aquele do elementar. Queremos marcianos a rondarem-nos a porta, com raios laser ameaçadores. Queremos o Tom Cruise a fazer de bom da fita (“Ah, sim, haverá uma fita. Hollywood não, mas um filme europeu. Intelectual.”). Queremos a Jenifer Lopez. E cenas de sexo a valer. À americana. E depois aparece o carteiro que te diz: “Não há nada hoje.” Para ti, é subentendido. Nem cartas de rejeição nem porra nenhuma. Mas esse Algo Extraordinário vem logo depois da esquina, está assente! Os livros não enganam e eles sempre te (vos, nos) prometeram magia.

Então... porque ela não acontece, porque não a descortinas? Porque és cego. Porque somos cegos. Para o velho com diabetes, para a vizinha com língua de trapo e que se queixa dos bicos de papagaio. Para o carteiro que, se pensarmos bem, tem milhares de histórias. O homem é uma enciclopédia ambulante de estórias humanas, reais, e não tão vulgares como supomos.

A magia vive no gato quieto, à espera da mosca. A magia do livro incógnito e extraordinário e grande já está em nós. É feita dos pequeninos milagres que escolhemos ignorar. A magia não está fora. Está, vive, respira cá dentro.

quinta-feira, outubro 10, 2002

quarta-feira, outubro 09, 2002

"SpamCop helps you punish spammers for sending you their junk mail. This service is free. Often, spammers lose their accounts and even get charged "cleanup fees" by their internet providers. In addition, reporting spam to SpamCop results in blacklisting the sites responsible for allowing it to be sent." Oh, sweet revenge... ;)

sexta-feira, outubro 04, 2002

Escrevam ;^p

(O segredo - the big secret - é a perseverança. Não é a Musa - aquela cabra - nem a inspiração. É mesmo o trabalho. É escrever, escrever, escrever e escrever. Escrever porcaria, merdinhas que não valem um corno, até que, ao fim de muito trabalho, lá se vê uma pérolazita. Esse é o grande - escondido - segredo. Agora há é que praticar.)

segunda-feira, setembro 30, 2002

Usem a raiva. Usem o ódio. A compaixão. A intolerância/tolerância. Façam uso dos vossos sentimentos. Verdadeiros. Entranhados. Não os mascarem. Não os ignorem. A verdadeira obra, o verdadeiro livro é-o mercê da veracidade.

«O Caso do Parquímetro», por exemplo. Não torneei nada, não tentei mascarar os meus sentimentos com palavras bonitas, eufemismos. (Morte aos eufemismos!)

De certeza que muitos se chocaram. Há palavras que eu nunca uso, sabem-no as pessoas com quem convivo. Não digo palavrões. É preciso estar Muito irritada.

Não pensem: isto vai parecer mal, é melhor substituir %&@£# por sacana ou outro vocábulo. Sigam os vossos instintos mais primários. São os certos. Não vão, ao escrever, pelo caminho da diplomacia, do meio termo, do bonito, do “giro”. “Fica mais bonito assim...”

A falsidade para com vós próprios não vos leva a lugar nenhum, só à íntima insatisfação em relação ao vosso trabalho.
Eu sei: a frio vão ler o que escreveram e sentir vergonha. Óptimo. Vão querer modificar/censurar tudo. Péssimo. Vá lá, respirem fundo – e não mexam! Quietiiinhos! Tira a mãozinha! Não risques essa palavra! (Logo depois seguem a eito a frase e o parágrafo...)
Vá. Mãozinhas quedas. Arrumem a caneta e o caderno e porta fora. Leiam o texto apenas quando a lembrança da vergonha vos faça sorrir.
“Os livros são objectos transcendentes”- Caetano Veloso in “Livros”.

Nós só em parte somos transcendentes.

domingo, setembro 29, 2002

Já me estou a passar com O Independente. Se não voltarem a pôr o site "no ar", tiro dali o link.
A novela que fizemos em conjunto, os outros e eu, parafraseando Unamuno.

"A minha novela!, a minha lenda! O Unamuno da minha lenda, da minha novela, aquele que fizemos juntos o meu eu amigo, o meu eu inimigo e os outros, os meus amigos e os meus inimigos, esse Unamuno dá-me vida e morte, cria-me e destrói-me, ampara-me e afoga-me. É a minha agonia. Serei como me crio ou como há quem me crie? E eis como estas linhas se convertem numa confissão frente ao meu eu desconhecido e incognoscível; desconhecido e incognoscível para mim próprio. Eis que faço a lenda em que hei-de sepultar-me. Mas voltemos ao assunto da minha novela.

Porque imaginei, há já alguns meses, fazer uma novela em que quisera pôr a mais íntima experiência do meu desterro, criar-me, eternizar-me a partir da condição de desterrado e de proscrito. E parece-me agora que a melhor maneira de fazer essa novela é contar como ela deve ser feita. É a novela da novela, a criação da criação. Ou Deus de Deus. Deus de Deo.
Teria de inventar primeiro uma personagem central que, naturalmente, seria eu próprio. (...) Chamar-lhe-ia U. Jugo de la Raza.”
Miguel de Unamuno, in Como se faz uma Novela, Grifo (Editores e Livreiros), pág. 63.

(Talvez o que adiante se segue não tenha muito a ver com o que acima transcrevi, mas aturem-me por favor., ok.)

O que importa, na demanda criativa, é o processo e não o resultado, porque é o processo que me mostra a mim próprio(a) o eu. É o processo que me revela. A mim e aos outros. Logo, o resultado não influi, não influencia, não tem nada a ver com essa intimamente pública revelação do eu ao eu e do eu aos outros, exteriores, alheios a mim.

(Nota: isto foi tirado/roubado/plagiado/mastigado e finalmente metamorfoseado da série “Northern Exposure”, cujos episódios vejo agora na reposição da Sic. A história de um médico que é despachado para os confins do Alasca, lembram-se? Bem, voltando atrás, parafraseei a ideia exposta pelo locutor de rádio, Chris. Aquele gajo supergiro, mas isso não interessa nada. Adiante.)

“Quando o leitor chegar ao fim desta dolorosa história, morrerá comigo” (Unamuno, Como se faz uma Novela, pág. 65)
“Mas o pobre Jugo de la Raza não podia viver sem o livro (...); a sua verdadeira realidade estava já definitiva e irrevogavelmente unida à da personagem da novela.” (pág.66)


Então a quem interessa, em última análise, o resultado do processo, i.e., a obra final? Se não ao autor (uma vez que o processo da criação é o fim último, o fim que se busca), a quem? Ao leitor. Pois que a partir dela pode iniciar o seu próprio processo interior, a sua metamorfose íntima. Ou intensificar. Ou finalizar.

A minha liberdade, que intimamente expresso e construo, exprimo e edifico (muito me agradam os sinónimos!), servirá para dar uso à liberdade de outrém. Porra, isto não é melhor do que ser um ditadorzeco de 5ª categoria?!
(Não respondam. É retórica.)

Não sei se consegui expor, de forma clara e com princípio, meio e fim, algumas ideias que andam por aqui a redopiar. Fica a tentativa.
E uma ideia. E se nós (eu e praí mais dois ou três leitores assíduos do blog – e ‘tou a ser optimista) usássemos a personagem que Unamuno inventou - Jugo de la Raza – para construir uma história (ou desenvolver a que Unamuno iniciou nesta obra), uma narrativa...? Nós, em conjunto. Tipo, transmitiam ideias que eu escreveria. E eu depois contaria todo o processo de criação da história. Bom, deixo a proposta...

sábado, setembro 28, 2002

[Género do gato. Update: é gata mesmo. Ai que porra... :( ]

:: Diferenças entre Escritor e Autor ::
- (Ou Escritor Vs Autor) –

Escritor fica. Autor morre.
Escritor é lembrado. Autor é esquecido.

Durante a vida jamais um Escritor o saberá que o é. A única certeza que tem é a de ser um Autor (como milhões de outros).
Autor, muitas vezes, coitado, arroga-se o título de Escritor. Mas, não obstante a petulância, pode estar certo...
A longo prazo (tipo, o fim do Universo...) todos acabamos em cinzas. Todos somos esquecidos...

Escritor não ganha um chavo durante a vida com a sua obra e aufere milhões (sejamos optimistas) após a morte... aos editores. E demais intermediários.
Autor ganha que se farta, balúrdios.

Escritor é pobre e menosprezado. E vem em dois formatos (mais ou menos portáteis): o juízo dos outros incomoda-o; o juízo dos outros não o aquece nem o arrefece (tem um mecanismo que mantém a temperatura interna constante).

Autor não é pobre. Pode ser rico. Não é menosprezado – é invejado. Gasta recursos (que podia usar na escrita) a tentar modificar o (a seu ver) erróneo julgamento dos contemporâneos. Não digo iguais porque o Autor recua um passo ante o termo, ambivalente.

Escritor tem um emprego e quando lhe perguntam o que faz, ele diz o nome do ofício que lhe paga as contas e não do que lhe alimenta a alma. “Sou canalizador. Funcionário Público. Taxista. Professor. Polícia.”
Autor também tem emprego (embora ele prefira o vocábulo ‘trabalho’,tentando dizê-lo como se fosse uma coisa suja), porém apresenta-se como Escritor.

(Nota – ou aviso à navegação - : quem o é não o divulga. Nem a si mesmo. Trata-se de um ofício secreto. Escondido, até, dos deuses.)

Escritor sente o livro. Pare-o. (O Livro é Parido.)
Autor pensa o livro. Fá-lo. (É construído. Nasce de um ser estéril, sem útero.)

Ao Escritor importa somente a Arte. Não o perturbam futuros dividendos, dinheiro que fará à custa dela. (Como um chulo...)
O Autor é vice-versa. A Arte vem, enfim, vem depois... (se é que vem...)

Escritor parece que sabe tudo sem nunca ter aprendido nada.
Autor tem infinita necessidade de conhecimento, pois a sabedoria nele inata é nula.

E tantas, tantas diferenças há...
[Todavia não considerem que percebo alguma coisa disto!]
[Lá porque o escrevi, nãoo tornei vero.]

(Ah, quem me dera ser escritor(a)! Mesmo com letra pequena.)



quinta-feira, setembro 26, 2002

quarta-feira, setembro 25, 2002

Burrinha... só agora notei que o Ghostboy pôs um link do Escrita no blog dele... ai, esta falta de atenção.
Bom, obrigada e retribuo com outro para o teu blog ;)
[Que vergonha... ao que eu cheguei, reduzida ao uso do WordPad...

Eu Quero Masé O Winword!!!!!!!!!

Olha, por enquanto vai este..
(Raiva...)]

{A mensagem que se segue tem bolinha ao canto superior do monitor. Vá lá - visualizem.}

Filhos da puta.
Filhos da puta.
Filhos da puta.

Vou à biblioteca. Não pago parquímetro (mea culpa, admito. Mas, porra, estes cabrões comem tudo tudo, um dia tarifam-nos o ar). Meia hora lá dentro. Saio. Vejo o carro bloqueado. Pela primeira vez na vida. Aquela filha da puta da algema amarelo-canário, feita de propósito para as patas das viaturas. Vou a correr. Alcanço os funcionários (são dois, se fosse um apanhava porrada todos os dias) da Loures Parque. Ok, esperam dez minutos porque não tenho ali dinheiro (nem no multibanco. Exacto. Sou Pobre.) para que me desbloqueiem o carro e me deixem ir para casa (trinta euros, esse o custo de retirar a gigantesca, odiosa, algema amarelo-canário).

[Pausa.]

[Filhos da puta. Filhos Da Puta. FILHOS DA PUTA!!!]

[Fim de pausa.]

Além dos trinta euros (pagos por uma pessoa a quem telefonei, desesperada, pedindo auxílio), há ainda o custo de outros trinta, da multa ela mesma, que podem ser pagos (esmifrados, extorquidos) ou nos correios.
Ou no multibanco.

Esta merda de governo. Esta merda de país. Mas estes filhos da mãe, sacanas, biltres, crêem mesmo ser isto justo...? Não há lugares de estacionamento, Lisboa mais parece uma lata de sardinhas com tanto carro. Solução: parquímetros! Para onde vai o money dos ditos cujos?! Quem se abotoa com ele?!? Quem?! Para que é que serve?! O que é feito dele???

Ah - pagam funcionários. Para passar multas. Compram bloqueadores de carro. Pagam ao advogado da empresa. Pagam os carros da empresa. É um círculo vicioso. Quanto pagam de impostos estas estuporadas empresas, criadas para nos sugarem, esmifrarem até ao último cêntimo?

Fui à Biblioteca José Saramago. Que não tem parque próprio. Quem levar o automóvel tem de pagar parquímetro. A informação, a cultura, o conhecimento - pagam-se. Tudo se paga nesta merdinha de país. Pagam-se as merdinhas mais ridículas. Paga-se para ter acesso a coisas, ou benefícios, que - supostamente - são gratuitos. Doze contos à viola. Por meia hora de biblioteca. Porra, mais valia ter comprado uma enciclopédia.

Algures deve existir uma empresa privada que achará o preço baratíssimo e congeminará a aplicação de qualquer, pequeníssima, taxa.

FILHOS DE UMA VACA!

[Estou furiosa, triste, deprimida. Abismada. Portugal Não É Europa.]
[A gerência do blog tem um comunicado de última hora da autora piursa: não vou pedir desculpa pelo uso de linguagem escabrosa.]
[Cabrões. Cabrões. Cabrões. Cabrões. Cabrões. Cabrões.]
[Bis. Bis. Bis. Bis. Bis. Bis. Bis.]


P.S. O incidente ocorreu no início do mês de Setembro. Como estava privada do computador, só agora pude fazer o post.



segunda-feira, setembro 23, 2002

Bolasssssssss, 'tava a ver que nunca mais era Sábado, irraaaaaaaa! Já cá tenho o piruças em casa, ver se não se constipa outra vez senão ganha logo na lotaria um par de estalos...

Uff!

sábado, agosto 24, 2002

quarta-feira, agosto 21, 2002

Porque é que veneramos mais a arte do que os homens? Será apenas impressão minha? Respeitaremos, de facto, mais a vida humana do que uma obra artística?

Pergunto-me o que teria acontecido se o General von Choltitz tivesse obedecido às ordens de Hitler e reduzido Paris a cinzas.

('Hitler contata o General Choltitz, ordenando que ele destrua as pontes sobre o Sena, para dificultar a invasão dos aliados, os quais, para acudir os guerrilheiros em perigo, apressavam a marcha sobre Paris. Choltitz, argumentando que a destruição das pontes deixaria os próprios alemães bloqueados na cidade, convence o Alto Comando Alemão a revogar a determinação.
E, depois, ignora outra ordem do ditador nazista para incendiar Paris, "transformando a cidade em um monte de ruínas". Choltitz informa Berlim que havia mandado colocar toneladas de explosivos em locais importantes como o Louvre, a Notre-Dame, os Inválidos e a Torre Eiffel. Mas não faz nada disso. Na realidade, o general alemão, que nunca fora adepto do nazismo, admirava a beleza da capital francesa e, num gesto de bravura, prefere correr o risco de incidir na ira do Fuhrer, a destruir Paris.')


(Ver também este link.)

Quase – quase – aposto que a demonização (esta palavra existe...?) dos alemães seria superior e ainda hoje presente. Tenho a certeza que os odiaríamos desmesuradamente (hoje!) por isso e não pelos milhões de vidas humanas que pereceram nos campos de extermínio.

Estou quase segura que a entrada em França de qualquer cidadão de nacionalidade alemã seria proibida. (Ok, estou no reino da fantasia, porém...)
Será que me engano ou o nosso ódio é maior quando alguém destrói uma obra de arte e não quando comete homicídio? Não sou exactamente imparcial na matéria, quiçá exagere, me engane.
Todavia, se estiver certa... porquê?

Porque o homem morre e a obra fica. Porque, de divino e imortal, o homem só tem a arte. Ele é imortal na medida em que a obra artística é rememorada pelas gerações vindouras. Logo, conclusão (bué facciosa): destruindo a arte destrói-se a parte humana que é divina. Cometo heresia acrescentando: ao aniquilar-se a Arte aniquila-se Deus. (O Deus que em nós se expressa artísticamente.)

(Ok, ok, estava a lavar a loiça quando estas ideias me ocorreram, façam o favor de dar o devido desconto.)

[Ouvindo (over and over again) ‘Left of Center’ de Suzane Veja.]
[Género do gato. Update: nada a acrescentar. Ainda em branco. É gato? É gata...? Gente não é certamente e a chuva não bate assim. Já tentei ver, mas ele/a não deixa...]

segunda-feira, agosto 19, 2002



Que idade tinha eu na altura em que a série deu na televisão portuguesa? Dez anos, talvez.
Marcou-me imenso.

(Prontossss, já parei com a Candy ;)
A sequência inicial!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

('Tá em francês, mas que se lixe!)
http://candyneige.com/

Hoje deu-me uma Candynite aguda... hehehehe

(Não acredito, 'tou a ver o último episódio!!!!)
(Ok, pronto, não é video, mas já não nada mau!)
(Não, não tenho 7 aninhos... :[ )
Eu não acredito, já existe uma petição!!!! LOLOLOLOLOL

International Petition for the come-back of Candy Candy.


Quando era pequena tinha uma adoração por esta série animada...! Até hoje guardo o desgosto de ter perdido o último episódio da Candy Candy... :....(
*sniff*

(Porque é que que repetem mil e uma coisa, às vezes sem interesse nenhum, e não tornam a repetir a Candy Candy...?)

(E se eu começasse uma petição...?)

(Alguém assinava...?)

(Quem se lembrará da Candy Candy...?)

(Os gajos da Sic é que podiam pegar nesta ideia.)


sábado, agosto 17, 2002

quinta-feira, agosto 15, 2002

Morcheeba - Otherwise.

Adoro o início. Ah!, se eu soubesse música poria a pauta aqui. As colcheias e semicolcheias são, hoje, parte de uma língua ignorada a cujos segredos me permitiram acesso apenas por dois anos. Depois acabou. Não percebo porque acabaram com a música (Educação Musical? Já nem me lembro do nome da disciplina...) e mantiveram as aulas de matemática...
(Porra para a lógica economo-materialista.)

Passemos à escrita.
Escrever à mão ou a computador? Qual o método preferencial?

Adopte aquele em que se sinta mais à vontade. Confortável. Agora, por exemplo, escrevo à mão. Depois deixo ficar o texto 'de molho'. Não lhe toco por um bocado. Daqui a umas horas ou dias passo-o a computador, aproveitando o maravilhoso recurso do Word: o corrector, hehe... A seguir copio-o e coloco-o na área de edição do Blogger. Copy & Paste, fazer dois ou três cliques e voilá!
/me in awe

Prefiro escrever à mão porque escrevo melhor assim. Noto. Outros escreverão um português sem falhas, escorreito, ao teclado do Pc. Óptimo. Ainda bem. Não sendo esse o meu caso, prefiro o método manual ao mecanográfico, embora seja (comparando) lento.
Mas dá-me espaço para reflectir. Por vezes no início da frase penso no fim da mesma quando, dois parágrafos antes, não teria a mínima pista, percebem? É um processo lento, mas com resultados razoáveis, eficazes, seguros. E regulares.
Para mim, sejamos claros.

Já escrevi livros a computador. São sempre os piores, embora um tenha sido publicado. A diferença reside no entusiasmo, na rapidez. Ao teclado eu vejo as imagens que se formam no cérebro e tento descrevê-las o mais rápido possível, antes que se esfumem e desapareçam. No teclado consigo apanhá-las todas . O que não me acontece quando escrevo à mão já que as imagens mudam, transformam-se. A+B não é igual a C. À mão é do género: A+ 322 a dividir por redondas cornucópias menos sabão e cinco pijamas é igual a iguanas transexuais. No computador consigo acompanhar toda a sequência de pensamentos antes que se convertam noutra coisa, topam?

Dantes fazia dois tipos de livros: o livro 'a sério', escrito à mão. Pensado, meditado; e o livro 'para me divertir' era feito a computador. Era o livro para eu brincar. Divertir-me. Gozar. (Nota para eventuais brasileiros que cheguem ao blog por engano/proposta irrecusável dum gajo italiano: este termo aqui em Portugal tem outro significado, ok! Lol.) Eram construídos sem plano, nem mesmo básico. O máximo que fazia era anotar uma cena gira que surgisse (mesmo tendo só duas linhas) e ir escrevendo a partir dela o que me viesse à cabeça.

Já não faço livros desses. Já não escrevo a computador tais livros. Há imenso tempo que não escrevo um livro todo maluco só por pura diversão. O facto não me causa sentimentos negativos. É que prefiro escrever manualmente, dedicar-me a sério a uma obra de cada vez. Pensá-la.

Ah. Ia-me esquecendo.
Escrever a teclado. Rescrever tudo à mão. Tornar a passar a computador (modificando aqui e além algumas coisas). Fiz isto com 'A Fada dos Sonhos'. Deu um trabalho do Ca-Ra-Ças! Mesmo assim, não sou muito apologista das 'duas versões'. Escrever a primeira versão e depois escrever a segunda versão da obra. Comigo o método não funciona. Acho uma perda de tempo e, agora, não o aplicaria com tanto afinco como o apliquei n' "A Fada dos Sonhos". Não tenho pachorra. Prefiro 'gastar' o tempo de outra maneira: a pensar. A pensar na ligação entre os capítulos 8 e 9, por exemplo.
Episode1Page

Parece giro, o site. :: Lembrete - colocá-lo nos links. ::
Hum... não, por enquanto não ponho outro piercing, mas... se por acaso passar por uma loja de piercings (sem estar à procura) e encontrar um de que eu goste E ter money para o pagar... aí vou pensar que é destino. É fado. Entro e ponho e não se fala mais nisso lol!

(Foi basicamente assim que pus o primeiro.)

quarta-feira, agosto 14, 2002

Os mestres Zen são famosos por sua irreverência. Eles chamam um ao outro de "desmiolado", as sagradas escrituras de "papel inútil" e o Budismo de "uma doença". As pinturas Zen retratam grandes mestres como ridículos e cômicos. Desse modo eles previnem que seus alunos os idolatrem como seres iluminados e os ajudam a perceber que devem buscar a iluminação sendo eles mesmos.

"Frequentemente os mestres Zen referiam-se uns aos outros como 'sacos de arroz velhos' e outros termos descorteses; não por inveja, mas porque isso os distraía de pensar que fossem considerados, pelos padrões comuns, especialmente sagrados. Eles perceberam que tudo é sagrado, até potes de comida e folhas secas caídas levadas pelo vento, e não há nada particulamente venerável acerca deles mesmos." - Alan Watts

- Timothy Freke: "Zen Palavra Básica", p. 60

Giro, não é?

Tentem pensar da mesma forma em relação não só à escrita, mas também em relação aos Grandes Autores, aos Consagrados. A 'falta de respeito' talvez nos dê acesso ao verdadeiro Respeito.

A Tua Verdade é única. Não vás à procura da Verdade nos outros. Nos Consagrados. Nos Grandes Autores. Se ele/a escreveu de determinada maneira, tal não se transforma irrevogavelmente em dogma. Quebra os dogmas. Dos outros. E os teus.

sábado, agosto 10, 2002

Abifado daqui.

'Remote Linking forbidden'! Porra, isto até parece urrado por um oficial nazi em alemão. Worbidden!!
Cabrões.
(Dá a sensação que fui ao Louvre e gamei a Monalisa, chiça...)

Porém, deixo o link! Arte é arte! Há que ser superior a estes sacanas nazis.

Fui.


Jackson Pollock.
:: Esta é para ti Neblinazul ;) ::

Talvez através da mentira da arte (ou do embuste?) se possa ver melhor (descortinar, intuir) a verdade da vida. A arte ou o exercício artístico é insight (discernimento intuitivo). Just go with the flow. É deixarmo-nos transportar pelo rio sem tentar controlar o destino final, a direcção.

Suponho que a arte (ou o exercício dela ou a tentativa do seu exercício) engloba tudo – incluindo preconceitos. Agora que penso nisso... algo construído através do véu do preconceito talvez, ainda assim, seja arte. Os criadores/autores não conseguem ser totalmente isentos quando criam/escrevem/pintam/fotografam, etc. Não se pode extirpar o preconceito, as ideias preconcebidas, da arte porque, desconfio, estaríamos em simultâneo a extirpar a arte da arte. Há que aceitar tudo (presumo). Take me as I am or don’t take me. Quem é que me disse uma vez que Eça de Queiroz tratava as mulheres muito mal? (Lembrete: cortar no queijo.) E porém, Eça persiste em nós e nós persistimos em lê-lo. Criador não é santo embora por vezes tenha intuições iluminadas.

Para mim arte é também mentira pois é nela que inteiramente nos podemos expressar, sem medos (ou com receios atenuados) do julgamento social. Se tirar a parte negativa de mim, o que de mim fica? Como me posso expressar sem ela? Eu preciso do negativo, da mentira, do logro. Da fábula. Ou, quem sabe, necessito sublimá-los pelo exercício da escrita.

Ying and yang, um não existe sem o outro. A complementaridade dos opostos. Duas faces da mesma moeda (e não me lembro de mais clichés).

O exercício da arte engloba tudo, tudo aceita. Melhor: aceita-nos por completo. Não é admissível socialmente rapinar carteiras no Metro, mas podemos pintar um quadro irónico em que a simpatia do autor vai para o ladrão das carteiras. Ele por isso não é preso. (Não sei se me explico como deve ser.)

Quanto ao resto, quanto ao que vem depois. Depois da obra estar terminada e pronta a ser re-criada pelo observador; depois da obra já não ser nossa e estar disponível aos olhos e julgamento do mundo. Tudo isso, em sentido estrito, é ruído. Bom ou mau, não importa. Elogio ou censura, não interessa. O julgamento do mundo, dos nossos pares, é ruído. Cheguei a esta conclusão há já algum tempo, todavia não consigo consolidá-la no meu peito. Está-me presente no juízo, na cabeça, e muitas vezes tenho de parar (com as lamúrias e as queixas) e recordar-me disto. Tenho de centrar-me. Eu sei que o olhar exterior não é relevante. Aquele momento único – o da criação – já passou e nele não havia espaço para mais nada nem mais ninguém. Mas ainda não possuo a sabedoria para me livrar da avidez (o desejo da fama, da massa, all of that, hehehe...). Quiçá um dia lá chegue... talvez...

A abstracção total aos juízos que tecem sobre a nossa obra é, considero, algo, não digo essencial, mas conveniente à criação mais isenta e mais pura. Ao exercício artístico mais puro possível. Não são a honraria e os louvores (ou críticas) exteriores que nos fazem avançar. Não é isso (no, not that). Logo, não será isso que nos deve ocupar, tomar o nosso tempo, atenção e recursos emocionais.
Não possuo essa abstracção, embora a deseje. Porém ainda não a quero tanto como quero o ruído. Enfim, é a juventude... lol ;)

Portanto, que se lixem as redomas onde nos fecham e classificam; que se danem os exames preconceituosos com que nos julgam (ao observador também é necessária a tal abstracção, pois ele é co-criador da obra pelo simples acto de a observar). Somos superiores a isso. Temos de ser. Continuo a afirmar: não olhar para os lados. Just do your thing. O resto que se coza.

P.S. Sim, a nível intelectual, de raciocínio, parece simples, mas na prática a conversa é outra (infelizmente).
P.S2 Acho que o meu gato é uma gata (*sigh*). Burra, burra, burra que eu sou! Como é que não diferencio um gato de uma gata?! A confirmar-se o facto terei de arranjar um primeiro nome para o/a (?!?) Queiroz.



5:07

To sleep or not to sleep.
To dream or not to dream.
Maldita insónia. Malditos ácaros.

Ya. Fui. Went. Ok, prontoss, num empurres, já vou!
4:57 da manhã... não consigo dormir :|
(Caraças...)

Note to myself: greymatter, han? Como é que raio é que aquilo funciona...?
(Podia ter escrito: 'como raio é que aquilo funciona?', retirando o duplo 'é que', mas às vezes é giro
repetir palavrinhas só pelo simples prazer de repetir palavrinhas...)
::..::

(Sensação de dejá-vu...)

quinta-feira, agosto 08, 2002



The last twenty years of Miller's life, spent in Pacific Palisades, were humbling ones. His body slowly deteriorated, yet his wit and artistic capabilities stayed in tact. Miller spent much of his time reflecting on his turbulent life with interviewers and close friends. When often questioned about writing he has said, "It's a curse. Yes, it's a flame. It owns you. It has possession over you. You are not the master of yourself. You are consumed by this thing. And the books you write. They're not you. They're not me sitting here, this Henry Miller. They belong to someone else. It's terrible. You can never rest. People used to envy me my inspiration. I hate inspiration. It takes you over completely. I could never wait until it passed and I got rid of it" (Kraft 1993:477).

Tirei deste site.

:..: Escritor é canalha? :..:

Sacana? Filho da mãe? Da puta que o pariu? Da avózinha sarnenta? Cabrão?, malandro?, biltre? Desavergonhado, cínico, gentinha, ordinário, patife, pulha, velhaco, tratante, mariola, falso, bandalho, etc. e tal?
Resposta possível/provável - sim.
Mas não só.
Ele/a (e indecisos) também é santo/a.

Lembro-me da primeira vez que li Henry Miller. O final de um dos 'Trópicos' ('Trópico de Câncer' ou 'Trópico de Capricórnio', não recordo qual) chocou-me.
Não foi o sexo, a forma mecânica como era descrito, mas outra coisa que me causou choque.
Foi o facto de ter mentido a um dos amigos.
Foi uma Revelação. Nós podemos mentir/aldrabar/ludibriar os nossos amigos e depois (ainda por cima) escrever sobre isso?! (ou seja: lixá-los duas vezes...)

Não sabia. A sério. Juro-vos que me era desconhecido.
O gajo ficou com o dinheiro que o amigo lhe entregara, à confiança, para dar a outra pessoa. Henry Miller, aquele cabrão, sorridente, concordou. Eh pá, vai em paz. Confia. Eu dou-lho.
A real pinóia. Abotoou-se com ele.
Tudo bem, a outra pessoa, o terceiro elemento, era a namorada do amigo e era uma besta, um algoz. (Confiando - ...? - no retrato de H.M.) Ok. Mas o amigo confiou nele!

Adorei. Uau. Fiquei fã do homem. Quer dizer que, na escrita, podemos ser filhos da mãe! Podemos ser sacanas de primeira apanha! Lixar os outros! Tramá-los! Sem consequências! Amei, amei, amei (como dizem os brasucas).

Significava que a escrita não tem regras. É isenta de moral. A escrita, ela mesma, fundamenta-se, baseia-se na excepção. A ressalva, a marginalidade que se permite.
A sociedade necessita dos seus marginais, das excepções (como é que podem existir regras sem o seu contraponto?). A sociedade permite, melhor, fomenta os seus marginaizinhos encartados: os artistas. Os criadores, autores, os que artisticamente se exprimem.

A natureza da arte é a mentira.
Mentira que, dado a relação estabelecida entre criador-'leitor'/observador (o pacto da suspensão da verdade), se transforma/transfigura em verdade. Outro tipo de verdade ou uma verdade que se conjuga, mistura na verdade vigente.
(Já agora, o que é verdade? E o que é a verdade?)

Talvez a verdade actual seja o somatório de mentiras primeiro toleradas e depois nela integradas. Logo, a criação precisa da sacanice, da canalhice. É o seu oxigénio.

No dia a dia não sou dada à violência. Detesto conflitos, agressões, falsidades de qualquer género. Porém, quando escrevo... Ah!, quando escrevo posso ser tudo, deus e o diabo, para as minhas personagens. Quando escrevo estou além (ou pelo menos é para lá que aponto). Quando escrevo exerço a excepção.

À regra.
Porque a escrita não tem regras nem moral.
[Desconfio que o Henry Miller (e outros de idêntico calibre) diriam isto de forma, bom, mais gráfica, ehehe...]

terça-feira, agosto 06, 2002

Ando com vontade de pôr outro piercing: logo abaixo do lábio inferior, na reentrância que fica por cima do queixo. Uma bolinha de metal. Não ficava giro? Cá em casa passavam-se, LOL.

segunda-feira, agosto 05, 2002

Apetece-me escrever mesmo sem nada para dizer.
(A rima é involuntária.)


(Não sei onde pára o meu gato Queiroz - homenagem ao Eça. Vadio. Está a entrar nos 5 meses e já começa a passear muito por fora.)
(Porra. Porque é que não arranjei uma gata?)
(Porque é que os gatos desaparecem sempre quando mais precisamos deles?)
(Não. É. Hoje não tenho nada para escrever...)


De vez em quando a gente escorrega e cai na folha em branco, como a mosca no prato da sopa.
(Não embirrem com as minhas metáforas-comparações, pela vossa saúde!)


Ver se a sopa d'alface já 'tá pronta...


:..:
Lembrete: pôr link dos Canalhas ali ao lado... (gosto de lhes ler as canalhices...) ;)

sexta-feira, agosto 02, 2002

Depois de curado o trauma causado (-ado, -ado, fica mal. Um dia exemplifico melhor) pelo casamento evangélico da minha prima (que eu adoro, nem pensem o contrário), cá volto à escritura.

Costumo ler o ‘Diário de Notícias’ há anos. Mais ou menos desde a época em que os meus textos passaram a ser aceites pelo ‘Dn Jovem’. Começo pelo fim, a última página. Gosto de ler a coluna do Vasco Pulido Valente, embora metade das vezes não perceba lá muito bem o que ele diz (a política é-me indecifrável). No ‘Faz de Conta’ de hoje ele termina com estas palavras de aviso - “Atenção o incrível acontece”. Para tornar claro o discurso, transcrevo o parágrafo anterior: “Para muitos portugueses (...) os partidos «viciam» a democracia. E nada melhor para corrigir esse «vício» do que um «homem» plebiscitado.”

Ele fala do perigo sempre eminente do regresso aos tempos da Outra Senhora, da ditadura (a dita que dura a dita que dura a dita que dura). Para nós – a dita que durou e para os da minha idade, a dita que jamais conheceram.

Não fui educada num regime fascista e opressor onde a censura imperava (tesourando ideias, consciências e espíritos). Não tenho o hábito de imaginar ao meu lado o censor da praxe, de lápis em riste, riscando metade do meu texto. Fui habituada à democracia, percebem? Não gosto nem de supor que um dia ela possa, no nosso país, chegar ao fim, e eu tenha (por exemplo) de submeter as entradas do meu simples blog à censura institucional (para Bem da Pátria). Mas nunca se está totalmente livre da reincidência deste mal. A minha (e vossa) única arma é o voto. Porém, como escrevo, tenho disponível ainda outras armas, outras formas não direi de luta, mas de vigilância. Possuo a arma do voto e a arma da escrita. Se o meu país voltar ao tempo da Outra Senhora penso que teria de emigrar. Pirar-me. O exercício da escrita, o exercício da criatividade artística, até o exercício da criatividade humana não é compatível com regimes de terror. Mais cedo ou mais tarde ia pôr a pata na argola...

À censura do Estado, a essa escapei porque nasci um ano antes da Revolução dos cravos (não, não sou centenária, hehehe).
Mas existem outros géneros de censura. Os portugueses praticam muito a da invisibilidade. Se não gostam de determinada pessoa ou obra, é simples: não falam nela. A obra não existe, a pessoa não existe. São invisíveis, ocultos. Funciona.

Todavia, a censura a que o autor (de qualquer tipo) está habituado é a sua. É aquela vozinha (irritante) que lhe diz: “Mas tu ‘tás parvo?! É que nem te atrevas! Não podes dizer/pintar/esculpir um absurdo desses! Olha que te lixam depois... olha que magoas pessoas que amas... olha que te fecham as portas. Não digas que não te avisei. Passa aí a alface, se não te importas.”

É esta vozinha chata que temos de aturar e contornar. O problema é que muitas vezes ela tem razão.
Ou seja, jamais estaremos livres da censura (nossa ou imposta do exterior).
O que eu faço por vezes é escrever aquilo que me dá na gana e depois... depois nada. Depois esconder, arrumar num sítio discreto. E esperar.
Os livros secretos (ou a escrita secreta) são-me essenciais. Como disse atrás: importa escrever. O resto logo se vê.

segunda-feira, julho 29, 2002

www.pessoasdesaparecidas.com

Vi a url no ‘Notícias Magazine’, tentei abrir, mas não consegui. Existirá sequer? O que me leva a:
O que é invisível não existe? O que não é visto não existe, não tem substância para os olhos e a mente dos outros?, é-lhes insubstancial?

(Reparem na virgulazinha logo depois do ponto de interrogação. Gosto tanto de juntá-los... ou, ao invés, o ponto de exclamação. É giro. É ‘cool’, porreiro, ‘à maneira’ – para usar uma expressão desactualizada. E sim, já vi outros autores fazerem o mesmo. Ó meus sacanas!, eu sei do que falo... hehe, não se ofendam – ó meus adoráveis, windos sacanas lol – Ponto e vírgula, fechar parêntesis.)

[Ao princípio tinha por hábito reparar no uso da pontuação gráfica, na disposição do texto, na frequência ou inexistência – Saramago, homem, exageras, pá, camarada! – de parágrafos. Vi que nem todos coincidiam. Tipo, se bem me lembro... o Milan Kundera (houve uma época em que comprei sucessivamente os livros deste gajo...), numa cadeia de perguntas, nunca punha o termo a seguir ao ponto de exclamação capitalizado. Eu esprico: “O quê? quem? porquê?...” Topam? Achei giro. Mais tarde vi que não era idiossincrasia do cavalheiro, outros autores faziam o mesmo. Mas, sei lá, não pôr letra grande depois de um ponto gráfico... isso não combinava comigo nem com o ensino gramatical que gramei na primária. Parecia-me errado. Lol! O tempo que se leva a aprender a desaprender tudo, santo deus... Bom, um dia vi em determinado livro outra forma de pontuar uma enfiada de questões. A vírgula vinha logo a seguir ao ponto de interrogação. Isto sim! Disto gosto!, pensei eu cá com os meus botões, hehehe... E tanto parlapiê para dizer que sim senhor, há regras, porém várias, imensas. Existem as da gramática, dama fina e nunca descomposta, com solução – por mais entediante – para tudo. E existem as regras de autores e/ou escritores que acabam por serem impostas ou generalizadas mercê do seu talento e, quiçá, divulgação... Não sou perita nisto. (Meus lindos sacaninhas, posso desdizer-me as vezes que bem entender, ok?) Só falo das dúvidas que tive/tenho/terei e como as resolvi. As minhas resoluções podem não ser necessariamente as suas/vossas. (Agora perdi-me: falava para ‘você’ ou ‘vós’?) Mas talvez sabendo o que fiz façam o exacto oposto (e isso é bom) ou, quiçá, a mesmíssima coisa (aspas idem). Repito: Não-Há-Regras! a primeira coisa a fazer nestas andanças é aprender as regras/praticá-las/apanhar-lhes raiva/ir à vacina/ficar livre delas/inventar as suas/praticá-las/apanhar-lhes raiva/ir à vacina/ter saudades das primeiras regras (ó menarcas da minha mocidade!)/etc. e tal.

Entendeu? Ou quer um retrato?
É bom sabermos bem aquilo que planeamos demolir/desmistificar/reconstruir.
Com caraças, perdi-me. Falava doutro assunto.]

Pessoasdesaparecidas.com
Uma pessoa desaparecida é um ser inexistente? Vi no site da polícia judiciária fotos de indivíduos desaparecidos.
O termo ‘desaparecido’ quase que diz, nos presta toda a informação. É meio termo entre ‘vivo’ e ‘morto’. Está desaparecido, logo, não é uma coisa nem outra. A ignorância, o não-saber, é o género de coisa que nos lixa a mioleira, provoca ansiedade que se fixa à pele, ao espírito da pessoa, misturando-se, juntando-se – dir-se-ia – ao seu DNA. Arrebenta-nos a alma este ‘não saber’, ‘não ver’, ‘não saber quando o saberá ou se um dia o saberá’.

Digamos que senti esta reflexão, embora só agora a traduza em palavras, enquanto ia clicando nos vários retratos.
Sabem, sabe (você/vós?, ai a porra, há que decidir-me!), os que escrevem, os escribas, os escritores (pronto, rendo-me) são vampiros. Alimentam-se das histórias, melhor, das pessoas que as geram, e que os rodeiam, desconhecidas ou íntimas, tanto lhes faz. (Pus aqui vírgulas em demasia...) O escritor não tem escrúpulos. Pode sentir vergonha e achar-se incapaz de tocar naquela história dolorosa, porém, lá no fundo da mente, ele arquitecta enredos e cenários, veste/despe/rearranja personagens. Bem lá no fundinho da mente... inda que não se atreva a pegar na caneta/teclado. Está sempre à espreita, atento a indícios.

Sabem a anedota... um tipo pergunta a um escritor o que ele faz e o escritor responde:
« D’après vous… ! »
(O senhor primeiro...!, este d’aprés vous mata-me...)
{Dúvida: aqui é vous ou vouz?}
Ok, ok, não tem lá muita piada e ouvi em francês e o meu francês já nem é sofrível, por isso dêem desconto.
O escritor é o “d’aprés vous”. Diga o cavalheiro primeiro a sua profissão. Os escritores são vampiros, para o bem e para o mal.
(Já perdi o fio à meada de novo, chiça!)

Ah! As pessoas de-que-não-se-sabe. Eu clicava, clicava e já ia congeminando, de forma abstracta, possíveis fins, destinos... cenários verosímeis não, porém o inverosímil achega-se incrivelmente à verdade. (Já vos/te disse para não usarem advérbios? Sim? Adverbs are evil! Por favor, ignorem/ignore o dito: usem/use advérbios, mas não à minha frente! E pontos de exclamação em demasia. Proibidos. Absolutamente proibidos. Sarna. Odeio. Detesto. Adiante.)

Aquele rapaz, uma muda de roupa, se calhar era porque... a mulher, foi morta de certeza porque... tão novinho, meu Deus, autista? Coitado, provavelmente... ou daí talvez não... amnésia? Hum, dava enredo à moda da Agatha Cristhie.
E sem a ponta de remorsos, percebem? Nem uma pontinha...
Perversa. (*suspiro*)

À laia de resumo: os ‘desaparecidos’ dos outros são os nossos ‘aparecidos’/’iluminados’.
Viventes. Vivos. Cá. Sem angústia. Sem ansiedade.
Ainda não terminei Unamuno. O homem não está a falar exactamente sobre o que no título se enuncia. Mas enfim, são prerrogativas.
Quero muito, muito, muito, muito, muito pôr o link do ‘desaparecidas.com’ ali ao lado. Se acaso o site existir. Se não, ver se desencanto alternativas.
(Eu devia masera ‘tar a marrar História de Portugal... vontaaaade... bendito blog, hehehe...)

Fui.
/away keyboard missing

sexta-feira, julho 26, 2002

Sonho acalentado: aprender a escrever bem.

Com o tempo e a prática a escrita vai aprimorando, noto. Mas vejo que todos os livros que eu não li durante a infância e adolescência (porque não havia cascalho para os comprar e porque nem a uma biblioteca itinerante – e muito menos fixa – tive acesso), todos esses livros que desconheço, que habitam na minha actual ignorância – me fazem falta. Não apenas ao nível da escrita, mas a outros níveis: emocional, intelectual, social. Às vezes tenho a sensação que só comecei a aprender a deslindar o mundo (i.e., as pessoas), a percebê-lo, quando comecei a ler livros. E só leio de forma regular desde cerca os vinte anos.

Não sou, hélas!, do género de pessoas intuitivo, que lança um olhar a um grupo de indivíduos e sabe logo o DNA de cada um. Não sou assim, dependo do olhar dos outros para entender o que se apresenta ante o meu. Logo, considero uma violência que uma das portas do conhecimento me tivesse sido negada durante tanto tempo. O meu ser ressentiu-se. Não sei se dá para “remediar” até ao fim da vida.

Assim, o sonho que tenho é aprender a escrever como deve ser. Aprender a construir histórias decentes.
Acho que este ainda é o meu sonho... (é que às vezes perdemos os sonhos de vista...)

Ai, pronto. O blog virou “my dear diary”! :-p
Vou mas é ler Miguel de Unamuno, ‘Como se faz uma novela’ (editora Grifo).

quinta-feira, julho 25, 2002

Estou a passar-me... acrescentei outra mariquice ao blog, de caminho vou lixando a template lol. Mas não resisto...!
"As seis supremas leis para quem quer escrever:
1 - Leia.
2 - Leia.
3 - Leia.
4 - Escreva.
5 - Escreva.
6 - Escreva."


"Basta sentar na frente do computador, ligar o Palm ou pegar a caneta, e o texto flui. Conclusão: não adianta só ficar esperando um momento místico de elevação quando ocorreria aquele insight único sobre a alma humana. Não espero mais pela visita da Musa Inspiradora que vai me ajudar a produzir o perfeito e completo conceito sobre o amor, o sentido da vida ou o propósito da morte em um parágrafo maravilhoso."

"Escritor não é quem publica, é quem escreve."

Roubei daqui.

quarta-feira, julho 24, 2002



Quem você é no sistema solar?
por Testelândia

Sim, ok, prontos... também gosto destes testes... ;^p
:: Conselhos para quem quer escrever ::

Leia. Leia. Leia. Escreva. Escreva. Escreva. Leia. Escreva. Escreva. Leia. Faça amor. Faça empadão no forno. Faça amizades. Faça amores. Perfeitos. Escreva. Leia. Rasgue livros. Coma livros. Escreva. Escreva. Faça caldeirada (uma camada de batatas, outra de cebolas, outra de peixe, pimentos, tomate, repita). Faça um disparate. Roube as histórias da família e amigos, descaradamente. (“Como tiveste a coragem de contar o que eu te disse só a ti em confidência?!”) Leia. Leia. Leia. Escreva. Perca amigos. Ganhe úlceras. Dê-lhe nomes, como Josefina. Escreva. Perca amizades. Faça amor. Escreva. Ganhe solidão. Ganhe o martírio da escrita. Leia. Leia. Leia. Faça pudim de ovos. Torta de laranja. Um bolo de anos. E leia e escreva e leia. Minta. Verseje. Narre. Relate. Fabule. Invente. Enamore-se. Fall out of love (cair fora de amor… expressão singela). Não escreva de pijama. Roube um cego. Engane um sério. Leia Henry Miller (mas pare antes de enjoar). Escreva de pijama. Um dia ainda hei-de escrever nua. Agora escrevo de pé. Leia. Leia. Escreva. Escreva. Start a fire. Start a game. Ponha fim à conversa para ir escrever. Faça mousse. Engorde. Devore livros. Mande à merda os que consideram, têm por ab-so-lu-to que escrever não é trabalho nem emprego, “é hobbie de fim-de-semana de quem não tem nada para fazer”. E leia. LEIA. L E I A! Mas escreva. Escreva mais, escreva menos, escreva acima de tudo. Ao fim de tudo. Até ao Entrudo... escreva, narre, relate, chicoteie, minta. Omita, misture, retire, embrulhe. A estória. Às fatias. (Escreva de bermudas às bolinhas amarelas.) E escreva. Faça chá de cidreira. Chateie-se, aborreça-se, enerve-se. EU ESTOU A ESCREVER!, grite ao energúmeno que lhe pede “5 minutinhos do seu tempo”. Tal gentinha não percebe que cinco minutos perdidos de escrita são cinco séculos ganhos no inferno. Mas mesmo que lá vá parar, lembre-se: escreva. Livros é que lá hão de haver com fartura.

P.S.: Ignore tudo acima, excepto Escrever.
P.S2: Coma farturas. Nhamm!


segunda-feira, julho 22, 2002

Como dar um comprimido ao gato
É morrer a rir...
Coloquei o motor de busca Altavista ali ao lado. O blog já 'tá a ficar mais çiiruuuu...! (O gato, pelos vistos, também quer escrever, saltou para cima da secretária...). Agora está atrás da cadeira, a ronronar. Graxista...
Ayira pôs um link do meu blog no seu. Que querida! Nem a conheço! O meu primeiro link, sniff... ;)

domingo, julho 21, 2002

Já pus o gato a dormir. Engraçou com a caixa de cartão dos correios. Prefere sempre aquilo que menos se espera. Tipo: brinca com uma folha de papel e ignora felinamente algo que comprei de propósito para o cavalheiro...
Continuando.
Como trabalhar o tema. Pois... errr... bela pergunta! Isto não avança, lol.

Bom, o tema.
Pessoalmente, não gosto de fazer sinopses, resumos demasiado elaborados, cheios de pormenores. Por experiência sei que são esses os livros que nunca irei escrever. Não consigo. Por outro lado, breves esquemas de uma história que há muito me ocupe o espírito são aqueles que conduzirão ao livro, à obra final. O máximo que faço é:

1º capítulo – o herói (a personagem principal) vai dar uma passeio e tem um acidente;
2º capítulo – ele sonha com uma mulher enquanto é transportado para o hospital;
3º capítulo – vê a fotografia dessa mulher na mesa do médico; etc...

Isso não significa que eu não saiba (ou não veja) o que acontece nesses capítulos de forma mais detalhada. Sei, tenho umas ideias, mas prefiro guardá-las até me sentar à secretária e escrever. Acontece-me muitas vezes essas ideias germinarem noutras e quando vou, enfim, trabalhar no capítulo, já sei mais do que semanas atrás.
Sou muito lenta, preciso de pensar as coisas com calma. Se faço tudo à pressa, sai porcaria.

...

Porque se escreve? Qual o motivo? Porque é necessário. Há uma necessidade absoluta de escrever que, entendo, não implica seguimento de nenhum género. Escrever é um fim em si mesmo.
Certa vez disseram-me que ser lido é a 2ª parte, o que vem depois do livro ser escrito e editado. Não sei se concordo muito com isto. Será que a necessidade de ser lido implica o imperativo da escrita? Não tenho bem opinião formada, mas, à primeira vista, parece-me que a resposta é não. Alguém eloquente, que frente a uma plateia faça maravilhas (e malabarismos) com a palavra, galvanizando multidões, pode publicar os seus discursos – e ser lido. Não vejo aqui a acção da escrita, o ‘empunhar da pena’, a palavra que passa directamente da mente para o pulso e o papel. Para mim (percebo-o agora, enquanto escrevo e medito em simultâneo) a palavra é silenciosa e audível mercê do seu mutismo. Uma vez li: o caminho é a Palavra. E logo acrescentei: escrita.

Para outros o caminho é a palavra dita. E para outros o caminho não é a palavra. Pode ser a imagem. E dentro da imagem pode ser, por exemplo, a fotografia.
Devia ter continuado a desenvolver o ‘tema’, mas não me apeteceu. À pouco lavava a loiça e ia pensando nestas coisas, assim, sem me forçar, divagando...
Bom, resumindo... importa seguir a voz da escrita e não pensar no resto, afastar do espírito eventuais consequências ou repercussões. Escreva apenas. O resto logo se vê.

...

(As reticências separam diferentes assuntos.)

Aplicar o que se aprendeu nos livros seguintes, sem ter a tentação de corrigir mil vezes os anteriores (os abençoados com o dom da preguiça sentem menos propensão a tais tentações, hehe...).
Ao escrever usar mais substantivos e verbos e menos adjectivos. (Aprendi com o José Cardoso Pires. Leiam! Escritor fa-bu-lo-so. Tenho a certeza que será um dos lembrados, um dos que ficam.)

Agora com licença, vou ver se o caldo verde está pronto.

quinta-feira, julho 18, 2002

:: Escrever sobre o quê? ::


Está um calor do caraças! Porra...! É nestas alturas que começo a sentir saudades da chuva. Isto do blog é giro, é um género de escape, de traição quase desculpável feita ao dever, à rotina obrigatória. Devia estar ocupada noutra coisa (no estudo *argh*) e não aqui.

Que se lixe. Chumbo.
Adiante. ‘Bora falar de coisas mais agradáveis.
(Brad Pitt! Brad Pitt! Brad Pitt!) Hehehe…

Não sigo, sistemática, uma fórmula. Ou melhor, não abordo de modo linear as diferentes fases da construção de uma narrativa ficcionada. Primeiro porque não sou capaz, segundo porque a própria estrutura do blog não o implica nem o obriga. Aliás, os blogs possibilitam-nos a chance de escrever uma obra sem o notarmos. Vamos devagarinho, capítulo a capítulo, “post” a “post” (esta palavra ainda há-de entrar no dicionário, devidamente aportuguesada, aposto).

Hoje vou falar sobre o tema. O autor (considero existir diferenças entre autor e escritor) decidiu escrever. E pergunta-se: sobre o quê? E depois de descoberto o tema, como trabalhá-lo? O tema é sempre um tema presente, uma história conhecida. É assaz difícil narrar a vivência quotidiana de um esquimó quando se é escandinavo; ou relatar o dia a dia de uma dona de casa com cinco filhos, um genro, uma sogra, um hamster e um canário quando nunca na vida se lavou um par de meias. O melhor é começar pelo que sabe, pelo que conhece, pelo que vê. Não acredite que a sua vida é corriqueira, aborrecida e que ao fim de dois parágrafos o leitor irá inevitavelmente cair no sono. Antes de tudo – valorize-se! O que para nós parece normal e sem mistério pode para outros ser a abertura a um mundo distinto. Vamos supor que, quem me lê agora (o anónimo do lado de lá do monitor), pertence à “corriqueira” classe média de um dado país ocidental e democrático.

Suponhamos também que possui carro ou tem a carta e só de vez em quando guia o automóvel do irmão (mas antes há que lhe descobrir o esconderijo da chave e depois fugir, pôr o carro a trabalhar e pirar-se antes que ele o fisgue). Vamos admitir que é maior, vacinado, teve sarampo na infância, partiu uma perna, os colegas escrevinharam coisas giras no gesso, você guardou-o durante uns tempos e agora não sabe por onde pára; frequentou a escola, estudou coisas horroroooosas (das quais não guarda na memória a vaga lembrança); fez amigos; não fez inimigos, mas houve malta que embirrou consigo e vice-versa; marrou que nem um possuído para conseguir entrar na universidade; teve aí o seu primeiro amor a sério (ou o segundo, ou o 19º).

Depois arranjou um emprego, uma casa, talvez o seu irmão um dia lhe tenha aparecido à porta a chorar baba e ranho porque apanhou em flagrante a legítima com o guarda nocturno. Talvez um dia tenha tido um acidente, grave o suficiente para o fazer reconsiderar a sua existência. (Ou não.) Sente-se confortável e desconfortável com esse conforto. Pensa: mas que porra de vida! O que é que eu posso tirar daqui!, dela, o que posso eu tirar de mim próprio que cative outros? Que desperte o interesse dos leitores? Bolas, o 007, esse sim, é que tinha uma vida do caraças! Com uma vida daquelas podia-se escrever três dezenas de livros! A minha é tão chata, tão normal, tão sem problemas nem tragédias (só aqueles probleminhas menores que irritam) que terei de ir lá fora buscar inspiração para uma história decente, pensa.

Mas pensa mal.

Acha que tem uma vida regular? Faz ideia, por esse mundo fora, de quantas pessoas tiveram acesso à escola, à vacinação? Quando era pequeno, teve de trabalhar para ajudar a família? Poliomielite, por exemplo, no seu meio tem quase o estatuto de lenda, mas noutros meios existe ainda.

A sua vida para um miúdo que viva no Ruanda não é normal. É paradisíaca. (Se miúdos do Ruanda terão algum dia acesso ao que você escreve é outro assunto e talvez um dia o trate aqui.)
O seu quotidiano, para uma mulher da Arábia Saudita ou do Afeganistão, tem laivos de fábula. Sabe como é o dia a dia de uma mulher árabe da Palestina? Acha que ela sabe como é o seu?

Nós não somos “normais”, “aborrecidos”, “corriqueiros”. Somos diferentes, multifacetados. E é a nossa diferença que devemos imprimir à obra que tencionamos escrever. A nossa diferença. Porque a nossa diferença conta.
A sério que conta, acredite.

Por hoje paro. Vou experimentar o método de não dizer tudo, largar o capítulo a meio e deixar o resto para o dia seguinte (ou semana, mês... isto é por fases, hehe...)
O webring 'Arredores' num funcemina :[ Chatice...

E em Portugal está um calor do Caraças!!!!

quarta-feira, julho 17, 2002

São 2:29 da manhã em Portugal, algures nos arredores de Lisbon City! (hehe...). Não tenho sono, quer dizer, até tenho, mas... mas há alturas em que a gente não se sente lá muito confortável às escuras. Suponho que é aí que o Stephen King vai arranjar inspiração. Eu prefiro ir para a net gastar a minha quota de tráfego internacional ;P (1 giga, só?! Cá p'ra mim é uma roubalheira, mas enfim...)

terça-feira, julho 16, 2002

Google! DayPop! This is my blogchalk: Portuguese, Portugal, Lisboa, Lisbon City!, Dunyazade, escrever, escrita, como escrever, escritor, Female, 101-105!

segunda-feira, julho 15, 2002

Desculpas Esfarrapadas Para Não Escrever
(e possíveis soluções...)

O gato. O gato amantíssimo. Vicissitudes de possuir um gato (ou, em verdade, ser-se possuído por um). Ele quer brincar, comer, ir à rua, mordê-lo, arranhá-lo; espreita o que você lê (e morde o livro que, por acaso, nunca é seu e custa um balúrdio). Ele salta para cima do computador para bisbilhotar o que tecla (e estraga-lhe o trabalho todo e, de seguida, formata-lhe o disco rígido. E, claro, você não tem nada gravado. Tudo era essencial e tudo estava lá dentro).

Resultado: é impossível escrever. O acto de entreter um gato (por ele exigido) é incompatível com o acto da escrita.
Soluções possíveis: e que tal arranjar um cão? Ou outro gato para fazer companhia ao gato que arranjou para lhe fazer companhia a si. (Não, não, estou a brincar! Não vá já a correr para a União Zoófila, homem! Dois gatos em casa?! Vocemessê está doido... lol).

Na dúvida – compre um peixe.
Voltando atrás. O gato tem ciúmes da escrita, você terá de se esconder dele para poder alinhavar um ou outro parágrafo. Ou aproveita as sonecas felinas. Vá a correr para a secretária e escreva, mal lhe surpreenda um bocejo.

O quê? Bem, a pergunta é pertinente. E se, resolvido o problema do gato, não encontra nada para ser dito? E se a história, tão clara momentos atrás, é agora confusa, inexistente ou não tem a originalidade que há pouco lhe atribuíra?
Como resolver isto?

À maneira Zen. Aplique o método budista (ou taoísta). Não faça nada. Não faça porra nenhuma. A ponta de um corno. Junte-se ao gato e vá dormir.
Espere. Dê tempo ao tempo. A história, regra geral, vem ter consigo, por isso não a force. Sabe, ela também gosta de brincar. A história é como um gato que se esconde e pula sobre nós de surpresa.
Agora com licença, o raio do meu felídio está aqui a reivindicar atenção, pleno de exigências.
(Outras desculpas esfarrapadas serão colocadas – “postadas”? qual o termo correcto? – no blog, numa próxima oportunidade.)

segunda-feira, julho 08, 2002

sábado, julho 06, 2002

O que é mais importante, experiência ou imaginação? Dicas.

A imaginação sobrepõe-se à experiência, transformando-se ela mesma numa experiência maior, mais intensa e vívida. Se o reino do que pode ser conhecido através da prática e observação é limitado, o devaneio e a fantasia não conhecem nem toleram restrições. Se já alguma vez escutou que a escrita só é possível a quem já “viveu” muito, não acredite. Não vá em cantigas. É falso. É do caudal inesgotável e imperecível da fantasia que todas as obras de expressão artística (incluindo as de arte) se alimentam.

Apele à experiência e dela obterá, muitas vezes, ignorância. Dela costumo tirar os sentimentos, mas, para dizer a verdade, os sentimentos e as emoções, quando os invento não deixam de ter a mesma substância que aqueles que verdadeiramente senti. “O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. Graças a Deus pela mentira, pelo engano, pelo fabular. Sem eles seria, creio, impossível a criação de qualquer obra de arte.

quarta-feira, março 06, 2002

O que é um escritor?


Quem o sabe? O escritor é criatura misteriosa que no imaginário popular flutua por entre o comum dos mortais, imbuído de uma qualidade rara, um elemento quase suprahumano, nas raias do divino.

Esta é a imagem. A realidade é outra.

O escritor não é um deus. A única diferença entre ele e outras pessoas reside no facto de escrever livros. É uma profissão como qualquer outra. Um ofício - mas escolhido e não imposto.
Talvez a primeira sensação de estranheza venha daí, de se escolher a profissão, o trabalho. Não afirmo que a maioria das pessoas não faça o mesmo. Consideremos, por instantes, que seja assim efectivamente na maior parte dos casos. Porém quem escolheu ser escritor sabe que fez uma escolha muito pouco atractiva em puros termos financeiros. Raros são os escritores ricos. Raros. Ninguém, no seu perfeito juízo, opta por algo que dê tão pouco dinheiro. Logo conclui-se que quem o fez só pode ter sido por gosto. Trata-se de uma escolha livre. Vinda da vontade que se cumpre. Não é de invejar?

A outra impressão de estranheza advirá do facto do que o escritor, mais do que decidir sê-lo, responde à chamada, ao apelo interno. É quase um sacerdócio. Se analisássemos bem no fundo descobriríamos que não chega a ser uma escolha, mas um caminho inevitável. Talvez tenha nascido com a pessoa, ou talvez tenha desabrochado devido a influências ambientais. É uma semente que germina no decorrer dos anos.
Há outros motivos que justificam a reverência e admiração nutridas por ele. Quem escreve contribui para a alma dos seus pares, para a alma - histórica e social - do próprio país e língua. O escritor forma, no presente, a forma como os do futuro se pensarão. Mesmo não dando indício visível de estar a contribuir activamente (escrever é uma coisa de aparência tão passiva) ele, parecendo nada fazer, faz mais do que se estivesse ocupado em acções e gestos (tantas vezes vazios) desgastantes e cansativos.

O escritor é quem é interiormente compelido a pensar-se e a pensar os outros. E talvez seja isso o que mais nos estranhe: a acção de pensar.

Quem é que nos dias de hoje tem tempo de se pensar a si próprio? Parvoice... não estamos todos demasiados ocupados a viver?


Alguns
conselhos perfeitamente dispensáveis




· Não
escreva para obter honrarias, fama, dinheiro. (É difícil
chegar a eles e mais difícil para quem os elege como alvo.)

· A escrita é um fim, não um
meio. (Não é meio para atingir algo, é um fim em
si mesma. Escreve-se porque não se pode deixar de escrever.)

· Escreva para si os livros que quer ler. Você é o
primeiro leitor, o livro tem de agradar-lhe.

· Não olhe para os outros, não
olhe para os lados. Não repare em quem escreve pior do que você
e já tem uma enfiada de livros editados, com traduções
em cinquenta e sete línguas, incluindo javanês, línguas
mortas e klingon. Isso não importa! O que os outros fazem e alcançam
não tem nada a ver consigo. Escrever não é uma corrida
nem uma maratona. Não está a competir com ninguém,
a não ser consigo mesmo.

· Você é o único juiz de si próprio.
Só você pode ajuizar os progressos que vai tendo ao longo
dos anos. Lembra-se do primeiro, o primeiríssimo!, livro que escreveu?
Recorda o orgulho, a felicidade? Olhava para ele horas a fio, construiu-lhe
um pequeno altar? (Err, bom, exagerei talvez! Lol). E agora, anos passados,
qual a opinião que esse livro amado lhe merece? É capaz
de dizer para si próprio que foi a melhor obra que escreveu? Não,
claro que não.

· As primeiras obras são, regra geral,
más. Para esquecer, deitar fora, queimar em sacrifício às
musas. Mas têm de ser feitas. Se não escrever textos maus
ao princípio nunca escreverá textos razoáveis e bons
depois. É um percurso necessário e geralmente habitual.
Não se envergonhe. Quase todos os autores que existiram de certeza
escreveram primeiras obras péssimas.

· Plagie, roube. Livros e pessoas. Ao princípio tinha muito
pudor em abordar situações que eu conhecia, mas cheguei
à conclusão de que é do que conhecemos que tudo deriva.
A primeira linha, o parágrafo, a página, o capítulo.
Roube as histórias escabrosas da família, a bisavó
que fugiu com o padre e o largou por um marinheiro esquimó. Use
isso, escreva sobre isso. Escreva sobre tudo. Tem vergonha, pudor? Medo?
Bom sinal, o livro é capaz de sair razoável.

· Mas... se é incapaz de usar as histórias
dos que lhe são próximos, há sempre o recurso ao
livro secreto. Escreva o livro para si. Não o mostre a ninguém.
Deixe-o guardado um, dois, cinco, dez anos. Há-de chegar a altura
certa em que ele verá a luz do dia. Tem de estar consciente que
também isto faz parte do acto da escrita. Quem disse que os livros
têm de ser lidos? Qual é a compulsão essencial que
nos assola? Escrever, certo? Apenas escrever. (Esteja à vontade
para discordar.)

· Escreve um romance e há dois meses que não lhe
sai uma linha? É normal. Isso passa, descanse. Um dia, de súbito,
vem-lhe à mente a continuação da história.
Atrapalhado, pega na caneta e começa a escrever mais do que aquilo
que originalmente pensou. Escrever, mesmo gostando, não é
suposto ser fácil e rápido. Disseram-me uma vez: desconfie
da facilidade, da rapidez. Passo-lhe o conselho.
· O que é mais importante: inspiração
ou trabalho? Trabalho. Se está à espera que a musa desça
para começar a escrever bem pode esperar. A musa é viciada
no jogo e raro abandona as slot machines. Não espere por ela. Arregace
as mangas, sente-se à secretária e escreva! A inspiração
vem na sequência do labor.

· Quantas horas trabalhar? Depende de si. Há quem consiga
escrever quatro ou mais horas por dia. Abençoados! Como os invejo!
Só aguento duas horas por dia e nem todos os dias. Cada um tem
o seu ritmo. Experimente diversos métodos de trabalho a escolha
aquele que se ajusta a si.

· Local? Silencioso, sem barulho, sem ruído.
A não ser que consiga trabalhar num ambiente ruidoso. Porém
a escrita exige tranquilidade. Provavelmente não pode ditar à
família que se adapte a si por isso o plausível é
ser obrigado a escolher uma hora em que ninguém faça barulho.


· Não duvide de si. Permita que os outros duvidem de si,
mas não o permita a si mesmo. Sabe o que quer: quer escrever. Quantos
no mundo se podem arrogar disso? Escreva. Sempre. Por entre as dúvidas,
falhanços ou até sucessos. Nunca deixe de escrever. Mas
que digo eu...? Se veio até aqui sabe perfeitamente do que falo.
;)