quinta-feira, março 30, 2006
o pilinha esguia
Bentley, o Pilinha-Esguia
O senhor Bentley, também conhecido por Pilinha-Esguia, costuma visitar lares com a seguinte desculpa:
- Cof, cof, 'tou velhinho - longa pausa absorta no vazio. - Velhinho... a família, os filhos, disseram: escolha um lar.
Mentiroso.
Visita-os aos magotes, o canalha e, apanhando a ocasião, mal as enfermeiras e auxiliares de enfermagem e médicos viram costas, aproveita a oportunidade para chagar os cornos a algum solitário.
- Ó, a morte! - diz, endireitando-se e recuperando por milagre a voz normal e saudável, tem menos vinte anos no lombo.
- Os bichinhos a comerem, a comerem, morf-morf. Os bichos a mastigarem! - e ri, ri, os olhinhos relampejantes.
A idosa escolhida por alvo, de cabelo ralo branco, arranjado de manhã numa temporária permanente, encolhe-se dentro do roupão e das chinelas e tenta afastar-se no andarilho. O senhor Bentley volteja ao redor da pobre, como um orangotango.
- Ó-ó-ó!Oh! Oh! Oh! Ah-ah-ah!
Parece uma borboleta que sofreu pavorosas mutações genéticas, pelo modo como adeja os braços em movimentos ondulados, mas o dobrar de joelhos revela o macaquear símio.
- Deixe-me...! - sussurra de olhos esgazeados, assustada, caminhando passito a passito.
- Vão-te comer os olhitos, os vermes! Nham-nham! Os bichos! Os vermes! As pulgas! Para que insistes em viver se já podes estar morta?! Não compreendo - ele, o Iluminado - o porquê da obstinação quando tens a MORTE TODA À TUA FRENTE! Sim, pois não queres ser cadáver?! Olha a velhaca... quer ficar para semente - sibila, baixinho, o asno - ... para semente, a velhaca... Não Sabes O Que Perdes! Festarola da boa! e cicia maquiavélico As bactérias primeiro comem-te os intestinos, hi, hi, e os órgãos internos. Comem-te toda por dentro! Ficas feita numa papa...! diz, esgazeado, com o queixo perto do nariz da velha As moscas, bzz-bzz, deixam os ovos na tua carne. Os vermes nascem e começam a morfar, a morfar, a morfar. Crunch-crunch-crunch. Os escaravelhos juntam-se à paródia... e as vespas! E as pulgas... hop, hop. Comem-te toda até ficares sequinha, só pele seca e osso! Festa rija, sim senhora, sim senhora...
Vendo a enfermeira-chefe ao fundo do corredor, hop!, logo salta com o chapéu-de-chuva para cima, cola-se ao tecto como uma salamandra nojenta e esponjosa.
- Um... um homem mau... - debita, débil, a velhota.
- Sim, sim, vá dar uma voltinha. Faz-lhe bem - diz a enfermeira sem parar, condescendente, batendo a mão ao de leve no ombro da vel, perdão, idosa.
- Ali, ali... - aponta com o dedo curvado, debilmente, para cima.
- Vá lá dar a sua voltinha e depois venha lanchar, não se esqueça! - diz, risonha, já no fim do corredor.
O Pilinha-Esguia apanha-os sempre desprevenidos e sozinhos, por vezes nos dias em que as famílias os visitam. No momento em que estão sós, o genro foi à máquina buscar café, a filha está no jardim a apanhar ar ou a ver as instalações, a tia velha está no conversê, de costas, com o auxiliar de enfermagem, e lá desce o senhor Bentley, de guarda-chuva (mas donde diabo é que ele veio?!), sorrisinho matreiro e - com vermes nas mãos. Sim, vermes.
- Este vai comer-te a pele. As bactérias liquidificam-te por dentro. Tens quanto, três, quatro meses de vida? Prepara-te. Vai ser um baile, a tua cova! As moscas correm a depositar ovos na tua carne e as crias alimentam-se dela.
- Á,Á,Á! - grita o pobre de olhos esbugalhados, muito alto, sem forças para se levantar do sofá e fugir. - ÁÁÁÁÁÁÁ! Ááááááááá!
- Mas o que é isto?! - exclama o auxiliar de enfermagem, confuso. - O que é que lhe deu? Sente-se mal?
Bentley, o Enraba-Passarinhos (alcunha que ganhou do tio por ter uma pilinha muito pequena), está ali mesmo ao lado, mas sem sobretudo. Ninguém o reconhece. (Ai se o reconhecessem era porrada na certa. E merecida. Comeu poucas. Mereceu todas. E mais ainda.) Veste um pijama e escondeu o chapéu de coco num saco de plástico do Continente. Amarelecido, enrugadíssimo, arroja as pantufas no chão e sai, devagarinho, porta fora.
- Hi, hi, hi - ri-se, mansamente.
Alça para o céu, allez-hop!, sem ninguém dar pela marosca.
Outro lar de idosos o aguarda!
Um gajo tem de arranjar actividades na reforma, não é?
30 Março'06
quarta-feira, março 29, 2006
"6 - Descreva brevemente a sua linha editorial (autores em que pretendem
apostar, géneros, público-alvo, etc).
A linha editorial pode resumir-se simplesmente na procura de livros bem
escritos, independentemente de géneros, trate-se de ficção ou ensaio, cujos
compromissos contratuais não esmaguem à partida o projecto e que sejam
estimulantes de produzir e de ler. Desde que tragam qualquer coisa de
substancial e de novo ao nosso projecto e aos leitores portugueses que gostem
de algo mais do que livros que parecem escritos por e para personagens de
telenovelas. Dado que temos de nos cingir a uma quantidade reduzida, faremos
por pesar mais o prato da qualidade, tanto no conteúdo, como na promoção, como
na relação com livreiros e leitores."
Encomendas : encomendas@livrosdeareia.com
Recepção de originais : originais@livrosdeareia.com
Emotion and poetry
Poetry and Emotion
Poetry is about emotion. About taking your heart and placing it in somebody elses beating chest, creating a one identity, a new heart.
Poetry isnt math. Or science. Or astrophysics. It cannot abide logic. Much less be as technical as setting up an air-conditioned.
Its sole purpose is to fail understanding.
A poem cannot have a universal meaning because everyones heart beats to its own rhythm.
Those who put mechanical understanding before emotion fail in the long run and will not be remembered, nor their poems.
Human memory is based upon feeling. Care. Love. Affection. Hate. Envy. Relief. Those make us humans. Man and woman feel akin to flesh. Veins. Body warmth.
Our descendents will never ever look for a machine, or a machine like explanation, to find a sense of humanity.
A poem is a comrade. A friend that makes you feel. Or helps you feel. Or helps give name to what you feel. Or, lacking a name, a sense that you do not have those feelings alone. You are part of something bigger.
So poetry that puts anything else before emotion in its interpretation fails. In the present. And future.
Those poets are working in the void for the void. They are not working for their fellow human being. Maybe its zen poetry.
But I doubt it.
terça-feira, março 28, 2006
"Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro requerem contra João Pedro George e Objecto Cardíaco uma providência cautelar não especificada com a finalidade de impedir a distribuição e venda da obra Couves & Alforrecas: Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto. Passa-se isto a um mês das comemorações do 25 de Abril de 1974."
'Tás fodido, lol.
'Tou-me a rir, mas não tem graça nenhuma.
Não, meu lindo, para certas e determinadas coisas, nós ainda estamos a 24 de Abril de 1974.
Boa sorte. Espero que ganhes. E porquê? Não tenho nada contra a MRP, mas valorizo a liberdade de expressão. E se ela a valorizasse também não faria isto.
segunda-feira, março 27, 2006
A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio.
Encontra-se também na cidade
- não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa,
neste papel, neste tinteiro;
há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto,
comum, ridículo, de um operário, que do outro lado
da rua está pintando a tabuleta de um açougue.
Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos
que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens.
Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa
tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato.
Há para mim uma plenitude de sugestão
espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo.
Há para mim um significado
mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo,
nas velhas latas num monturo, numa caixa de
fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania,
rolarão e se perseguirão rua abaixo.
É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus,
a tomar plena consciência de sua queda,
atónito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas,
e lutasse para recordar esse conhecimento,
lembrando-se de que não era assim que as conhecia,
não sob aquelas formas e aquelas condições,
mas de nada mais se recordando.
[Negritos meus.]

Poema feito para um grupo de quatro gravuras da autoria de Fernanda Garrido (patente na Galeria Diferença, ao Rato).
QUATRO GRAVURAS
Para Fernanda Garrido
O rosto que em si se recolhe
Oculta e mostra as
Imaginações do mundo
Subtis e palpáveis.
Cada quadrado é uma janela
Cristalina: longes de mar
E de montanha, abrigos
De imagens, memórias
Do coração. E a cisão
Contínua, de quadrado a quadrado,
Como películas de um filme
Interminável.
Mas as janelas comunicam entre si,
Alternando no diálogo
A sua posição e cor
Na definição rigorosa
Do seu ser em aberto.
Tudo cabe na pupila que as rasgou
E na que as visita:
Sugestão de quadros dentro do quadro,
O fluir da vida e do tempo.
A dádiva demora-se
E envia-se em todas
As direcções do vento.
Lisboa, 2006-03-25
Maria Teresa Dias Furtado
domingo, março 26, 2006
ISTO É PARA SE LER ALTO, MEUS MENINOS!
LER ALTO! (Enquanto esperam numa fila qualquer para tratar de uma merda qualquer.)
I dare you...
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PASTELARIA - MÁRIO CESARINY
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante -
ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Nobilíssima Visão (1945-1946)
sábado, março 25, 2006
"I got really upset yesterday upon hearing that over 10,000 portuguese illegals will be forced to leave within two weeks. They are told to pack up their things, sell properties and go back to Portugal----back to nothing. That is so heart wrenching.
I have lived in Portugal---for one and a half years. I know the conditions these people will be faced with. Portugal, although part of the European Union, is still considered the poorest nation in Europe. They are 50yrs in debt to the Union. Billions in debt.
People live in the poorest and delapitated homes while a small percentage live in well to do homes. There is an extreme gap between upper class Portuguese (who are doctors, bankers, lawyers and business owners) and the low-income working class ( farmers, bakers, and factory workers)
When I went to Portugal, my father-in-law was a business man and my husband worked for him. I went to work at a hair salon for 5000 escudos (I was there when it changed to euros January of 2004, so that is 35 euros a week, roughly) After my brief stint there I moved on to work at of all places, McDonald's.
Within three months, I worked up from Cashier, to Grill, Trainer and finally Swing Manager. It was easy, considering that I had already worked for Harvey's (Canadian equivalent of McDonald's) in my youth, and all the handbooks were writen in English. The point of my story is that my husband's aunt in Portugal says to this day,"Why did you leave a good job to go back to Canada?" I was making 585 euros per month.
That is considered a substantial amount and a high paying job in Portugal.
The truth is that it didn't cover all my expenses. I lived for free---bonus.The fact is that the cost of gas in Portugal is over $2 CAD and I worked in downtown Aveiro (a 15 minute drive from Vale de Ilhavo where we lived)and I worked 6 days a week. Plus, the cost of groceries, you can not go to the grocery store too often. Things were way too expensive but we missed home and we used to buy things that we missed about home like cream cheese, ketchup (not the same---way too sweet), instant coffee (WE MISSED TIMMIES---so that would have to do) and potato chips (way too oily).
What I hated most was the way the Portuguese treated immigrants (portuguese that have moved away to America and return). I was born a Canadian but the fact is my heritage is still Portuguese. I used to be ragged on constantly by customers. They are rude and when I would devulge that I am a Canadian they would make rude comments like "I could tell by the way you pronounced your verbs that you were an immigrant" and "If Canada is so great why did you come here to live? To rub in our face that you are wealthy?" One time I almost lost it with a customer when he was picking on one of my Brazilian collegues. He started yelling at the girl saying that immigrants had no rights to come to Portugal and steal jobs from the Portuguese. Well, I couldn't let him say that without me interferring.
I said in my portuguese dialect,"Sir, you have no right to talk to this lady like that. If portuguese were willing to work, she wouldn't have this job in the first place" That ticked him right off. He looked at my name and said, "That is NOT a portuguese name. Where did you come from?" I answered,"If you didn't see my name, would you think I was something other than Portuguese?" He looked at me with bloodshot eyes (he was obviously intoxicated---which is the norm of most portuguese men) and mumbled,"No." I handed him his order and smiled and said cheerfully,"Volte sempre" (Come again)
The fact is, when these 10,000 portuguese return to their homeland they will be faced with a lot of degration. If they do not have money, they will be forced to live off the meger government assistance until they find work. Most are said to be in construction. Construction in Portugal has been given to the Africans, Brazilians and Chech's because they work for lower wages. Now when all these Portuguese workers return, where will they work? They will be forced to live in squaller.
The homes in Portugal are made of hollow clay bricks, plaster and cement. There is no insulation. Winter is horrible. Everything is damp. You feel wet all the time. It's better outside the house than in. Heating is a fireplace or a portable heater. Summer is great---the house is like it's air conditioned.
I just feel for these people who are used to our way of life now here in Canada and they will be faced with hard times in Portugal. My heart really cries out to them.
But why is the government singling out Portuguese illegals? Why not other people who are here illegally?
Why only the Portuguese?
I have so many questions why this is happening.
I am thankful that my whole family came in the late fifties and became Canadian citizens. I am truly thankful to God that I was born here and not in Portugal. I don't take my country for granted because I know what it's like to live away from all the things that are Canada. Freedom and a good way of life. I don't agree with everything my government does but it is still Canada.
My Canada.
God keep our land glorious and free!"