quinta-feira, fevereiro 24, 2005


Escreva!

Escreva!
Ando desaparecida, não é?
Bom, escrevi. Finalmente! E porquê? Para participar neste desafio:


"Super desafio: Narrativa de ficção
Descrição:Este é o desafio para quem gosta de escrever muito e com calma. Tem 6 meses para o terminar e até 20 000 (vinte mil!) palavras para usar.Esta é também a primeira oportunidade neste sítio para se colocar realmente à prova. Não a perca e comece já.Modalidade:Narrativa de ficção.Regras:* Entre 15 000 e 20 000 palavras (aproximadamente 56 páginas em Word).* Construir uma narrativa sobre uma história de ficção original. "

Mas vou fazer isto com uma pequena diferença: mostrando a história à medida em que a escrevo. Porque sim, porque me apetece. E para me obrigar a terminá-la.

Podem ver o primeiro capítulo aqui: A Imortalidade.


Abaixo segue um excerto.

A IMORTALIDADE

-1-

Paro em frente da casa. Casa? Mansão. É estranho, vivo aqui no bairro há tantos anos e só agora reparo nesta mansarda? Conheço os caminhos como a palma da minha mão, percorri os atalhos “n” vezes para ir às compras, visitar amigos, ir ao café, ao cabeleireiro, ir para o trabalho, e só hoje reparo neste mastodonte urbanístico? Tem um ar semi-abandonado, a fachada cinzenta é como a cara fechada de uma pessoa austera, rígida e sóbria. Alguém racional, céptico, lógico a todas as ocasiões, mesmo as mais fantásticas. Em vez de ver um edifício vejo um ser. A fachada apresenta um tom murcho de cinzento, heterogéneo, e um ar desmazelado – pequeninas plantas vão nascendo aqui e ali. Estranhamente, as janelas parecem limpas. Porque o estariam se todo o resto padece de incúria? Entro? Bato à porta? Com que desculpa? Direi que me perdi. Peta, mas... a curiosidade sobrepõe-se ao medo subtil que vem crescendo, como uma dor de dentes ligeira que ainda se aguenta.
A porta está tentadoramente aberta.
- Err... – entro, pé ante pé, projecto a cabeça para o interior. Limpo a garganta. – Olá? Está alguém?
Back to writing.


sábado, fevereiro 19, 2005

CIDADÃOS: AMANHÃ NÃO SE ESQUEÇAM DE VOTAR!
Votar não é apenas um direito cívico duramente conquistado por gerações anteriores à nossa e que deram a vida por ele - é também um Dever.
Milhões de pessoas no mundo inteiro não conquistaram ainda este direito e continuam a lutar e a morrer por ele.
VOTEM.
Votem em branco, votem à direita, à esquerda, votem de pino - mas votem.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Que vontade de não escrever...


[Ah, ter um livro para escrever e não o fazer...]

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Escreva!

É entrar, meninos! Senhoras e senhores, já abriu!


Antes de tudo leiam este post.

sábado, janeiro 29, 2005

quinta-feira, janeiro 27, 2005

terça-feira, janeiro 25, 2005

Signo solar.



Ascendente em escorpião.



Lua em sagitário.



Ultimamente ando a interessar-me pela astrologia.

domingo, janeiro 23, 2005

É impressão minha ou já não se fala da Casa Pia...?











Às vezes apetecia-me emigrar.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Em 1999 eu, estupidamente, assinei um contrato com a Editora Ulmeiro para a publicação da obra "À Procura de um Livro" em que usei o pseudónimo Anthony Andaluz (don't ask why). Ganhei dois prémios literários com esse livro. A Difel, depois de eu já ter assinado o contrato, quis também editá-lo. Se eu soubesse o que sei hoje...
Mas temos de fazer umas burradas para aprender como é a vida.
A Editora Ulmeiro NUNCA ME PAGOU NEM UM TOSTÃO FURADO.
Nada. Porra Nenhuma.

Essa editora publicou o António Lobo Antunes, sabiam?
E agora já não: I wonder why...

Resumindo: antes de tudo, antes de assinarem porra de contrato algum com uma editora qualquer - inscrevam-se na Sociedade Portuguesa de Autores. Estão mais protegidos. E a SPA depois é que assina o contrato em vosso nome.
E não aconselho, em caso algum, tendo em conta a minha experiência, publicarem pela Ulmeiro .

Os Escritores Trabalham e Merecem Ser Pagos!

Repito: Os Escritores Trabalham e Merecem Ser Pagos!

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Mágoa.

O JOGO

- Vamos jogar. Eu sou o agressor, tu és a vítima.
(Estamos no quarto, ele está sentado na cama. Eu, de pé, começo:)
- Estamos num quarto qualquer. É uma divisão fechada. Não há saída possível. Ou a porta está trancada e eu tenho a chave.
- Escondeste-a.
- Não é preciso. Sou maior do que tu. A chave pode estar ali, à tua vista, em cima da cómoda. Tu não tens força para a tirar e libertares-te. Eu tenho o poder. Eu sou o poder.
- Eu tenho medo. Eu sou o Medo. Tremo. Sou pequeno, magro. Tento abafar o choro. Choro por entre sufocos, aos gaguejos. Bato os dentes. Fungo. Tudo ao mesmo tempo. Abafo um pânico atroz, uma emoção para a qual não encontro nome. Tento não tremer muito para não te despoletar a ira, a força. Não olho para ti.
- Tens medo.
- Tenho.
- Eu gosto.
(Aproximo-me devagar dele. Levanta as pernas para cima, apoia-as na cama e abraça-se a elas. Eu continuo a caminhar com a leveza de um gato.)
- Gosto do teu medo. O teu medo dá-me força. Quase gozo. Tenho os mesmos sintomas exteriores que tu, mas subtis porque me controlo. Quero saborear o momento.
- Não haverão outros?
- Talvez, mas não sei se serão contigo.
- Mas já estiveste comigo antes.
(Paro. Penso.)
- Sim, já. Poucas vezes. Por isso é que o teu medo é tão forte, tão poderoso. Talvez duas vezes.
- Provavelmente eu já conheço a dor.
- É isso. É isso! Já a conheces!
- Mas tens tempo para estares à vontade?
- É possível. Sim. Desta vez tenho tempo.
- Uma hora? Mais?
- Não sei. Continuemos.
- Humm... tenho os braços enrolados à volta das pernas, a cabeça enterrada nos braços.
- Não te vejo a cara, só o cabelo negro.
- Castanho-claro.
- Porque é que eu disse negro?
(O olhar dele alumia-se.)
- Porque está escuro, mas brilhante o suficiente para me veres!
- Estamos na penumbra! Eu prefiro-a?
- Talvez.
- Mas o exercício do poder necessita de luz.
- Nem sempre. Continua.
- Eu avanço como uma aranha peluda, nojenta, devagarinho. Toco de leve no teu cabelo.
- Um choque eléctrico percorre-me a espinha, a carne. Dou um salto. Respiro com mais força, tremo. Suo. Colo-me à parede, vou até à porta, puxo desesperado a maçaneta, mas está irremediavelmente fechada e eu irremediavelmente perdido.
- Aproximo-me, pouco a pouco. É como se, ao ver-te, estivesse a ver um filme. Como se as tuas acções não fosse reais.
- Porque é que dizes isso?
(Paro de novo. Reflicto.)
- Talvez seja o meu estado de espírito. Talvez seja sempre assim: há o gozo da antecipação e em simultâneo existe um distanciamento do que eu faço ou estou prestes a fazer. Não sou eu, é o Outro. Não sou o eu normal, respeitado, respeitável, um homem comum; é o Outro, o homem das trevas, o homem escondido, a habitar esta pele digna que de dia se passeia sem temor pelas ruas. É o Outro. Como não posso ser sempre o Outro talvez exista um clique que actue nestas alturas, um estranho mecanismo psicológico que me faça sair de mim - literalmente -, que faça brotar de mim o Outro, rasgando-me a pele e saindo para a luz da noite, a luz lunar.
- Não acredito. Estás a desculpar-te. Tu és sempre o mesmo. Não te mostras todo à luz do dia por medo das consequências impostas pela sociedade. Tu és sempre igual: estás consciente do que fazes, do que me fazes, consciente do castigo se fores apanhado. Talvez estivesses Mesmo a ver um filme.
(Junto as sobrancelhas.)
- Um filme a sério? Como? Tu és uma criança a sério, preso num quarto a sério, prestes a...
- Espera. Não é isso. Eu sou verdadeiro. Mas porque me confundes com a personagem de um filme?
(Ficamos os dois em silêncio. Algo acorda em mim.)
- Porque já te vi antes num!
- Também já viste outras crianças antes.
- Mas a ti, a ti eu já vi de certeza! Portanto...
- Este pode não passar do primeiro encontro.
- É por isso que eu levo o meu tempo, saboreio cada segundo. Ninguém me vai interromper.
- Tu pagaste por este tempo sem distúrbios.
- Eu paguei por ti. Por isso é que ele, tu não gritas.
- Ninguém me virá ajudar. Já é normal.
- Pouco normal ainda. Foram poucas vezes.
- Poucas? Achas que o terror acaba ao fim de um, dois anos?
(Sinto vergonha. Digo a verdade.)
- Não sei.
- Ele foi vendido por alguém que o conhece, alguém que o devia proteger.
- Tu foste ven...
- Exacto. Eu. Eu. Continuemos. Encolho-me no canto da parede, longe da porta e longe de ti. Agarro as pernas, magras, fracas, ramos quebradiços.
- És moreno, bonito. Cativas-me.
- Mentira. Não me mintas. Nem preciso de ler-te nos olhos. Intuo-o.
- É verdade. Eu... tomo por ternura e amor ao belo, ou desejo tomá-lo, o que não passa de violência. Quero limpar-me da mácula, antes de a cometer. Não é a tua beleza que me impele nem um sentido perverso de ternura.
- Sinto os teus passos avançarem lentamente para mim. Abraço-me mais, escondo a cara, aperto-a com força contra os braços e joelhos.
- Coloco devagar a mão direita sobre a tua cabeça.
- Quase nem respiro. Tenho os olhos fechados com muita força, tal como os dentes.
- Fico assim um bom bocado sem me mexer.
- Só quero que isto seja um sonho, quero acordar, quero acordar.
(Vejo-o a estremecer, os olhos quase desorbitados.)
- É melhor pararmos. Tu não estás bem.
- Não! Continua, continua!
- Ai... eu, eu...
- Puxas-me o cabelo com violência.
- Não é preciso. Estás completamente submetido, sob o meu poder. É tão bom sentir esse completo domínio. Lá fora não é assim, nunca ninguém foi subjugado por mim. É este o respeito que eu quero. Respeito que confundo com dominação. Agora é só esperar mais um pouco.
- Para quê?
- Para tu acalmares. Quando ficares inerte, hipnotizado, não me darás trabalho. Posso fazer o que quiser. Não vais espernear, arranhar-me. Nada. É este o momento que eu quero. Que eu mais amo. A dominação absoluta.
- Hipnotizado... como o rato pela cobra antes de ser comido. Eu fico...
- Inerte.
- ...
- Sem acção.
(Tem os lábios entreabertos e os olhos presos num horizonte imaginário. Gotículas de suor acumulam-se no lábio superior. Respira com menos dificuldade, mas ainda aos soluços entrecortados. A pele da testa está lisa. Eu chamo por ele. Não me responde. Pego-lhe na mão: está como morta, não a prende na minha. Com medo vou para a janela. Vou abri-la, deixar entrar o sol, mas paro um segundo antes de o fazer. Regresso a ele.)
- ... mais vale... não... não... me debater. Termina mais rápido. Eles perdem o interesse... depressa.
- Eles?
- Se eu não me mexer. Se eu não me mexer. É mais rápido, acaba logo. Muito rápido. O pior, o pior é antes, o medo antes. O pior é antes.
(Quero acabar isto agora, não me agrada a morte no seu olhar.)
- Eu pego em ti pelo braço, tu deixas-te conduzir para a cama onde te deito de barriga para baixo e dispo-te as calças e...
- É tudo tão rápido, tão rápido! Mal me lembro. Porque é que eu não me lembro?
- No fim...
- Só me lembro do peso enorme em cima do meu corpo.
- No fim eu...
- Do peso.
- ... limpo-me. E limpo a mão do suor do teu rosto. Pus a mão no teu rosto. Podia ter posto uma almofada em cima do crânio, mas tive medo de te matar. Com a mão era mais seguro. Tu não gritavas, mas eu tinha de ter certeza. Limpo a mão molhada do teu suor e saliva às calças e...
- Vais buscar a chave à cómoda.
- E vou-me embora.
- Olhas para mim.
- Não vale a pena. Já não tens nada para me dar. É um vício. Hoje tomei a minha dose.
- Eu permaneço deitado na cama, nu da cintura para baixo.
- Vamos acabar.
- Não. Eu quero saber o resto.
- Nós sabemos o resto.
- Não sabemos as emoções.
- Vamos parar!
(Quase zangada abro a janela e a luz bate-lhe directamente na vista. Vira o rosto e defende-se com a mão em pala.)
- E agora...? - pergunta-me ao fim de um tempo.
- Agora nada. Agora vamos dar um passeio pelo jardim. Anda.
Fechamos a porta, sem levar a chave.



Regulamento Prémio LER/ Millennium BCP 2006

E NÃO É ANÓNIMO Outra vez!

Mas porque raio hei-de eu gastar uma porrada de dinheiro em fotocópias, tinta para a impressora, correio, etc., se eu sei que a minha obra Não Será Lida porque eu não tenho um nome sonante?!

E ninguém me diga o contrário porque não acredito!

"Os exemplares da obra devem ser acompanhados da identificação do seu autor (nome, morada e telefone de contacto)."

Se não há Obrigatoriedade de Anonimato nem vale a pena concorrer!

Sim, são 10 mil contos de prémio, sim, vão concorrer mais de uma centena de pessoas, sim, mesmo 10 pessoas para lerem mais de cem livros (cada um com mais de 200 páginas) num ano é pouca gente - Eu Sei Isso Tudo.

Ou aumentam os membros do júri ou arranjam outra solução!

SEM ANONIMATO NÃO HÁ VERDADEIRA COMPETIÇÃO!

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Mandei um mail para o contencioso da SPA no mês de Dezembro e outro este mês. Ainda não me responderam. Ai a porra.

Será que terá valido a pena ter-me inscrito?

sábado, janeiro 01, 2005

Uau. Daqui a três meses o blog faz três anos.

Três anos.

Será que chego aos dez anos?


Já não falta tudo.
Outro pequeno texto feito para o Escreva.

Aqui fica.


Tribo

Ao afastar-me do acampamento pela milenar trilha nómada, recordo a canção de ontem. Um paradoxo. A música dizia-me: “Vai. Vai! Agora! Parte! O mundo não é aqui, está lá fora. Parte, parte! Pega no mapa e abandona a tua casa, a tua tribo”, mas as palavras da mulher que a acompanhavam falavam da perda de um antigo amor, que a deixara por outra, e a mulher desde então esperava que o amor tornasse a acender a paixão de antes e voltasse para ela. Vejo uma imagem na mente: há uma corda e a música impele-me a puxar para um lado, mas essa mulher velha e enrugada (só tem a juventude na voz), melhor, as suas palavras puxam-me para o que conheço. Para as raízes da vida nómada. Para o que já entendo. Mas eu quero mais. Quero partir. E parti.

Feliz ano de 2005 :)

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Este é um conto que escrevi para o Escreva!, mas como o site está temporariamente indisponível deixo-o aqui.
(A propósito: novidades para breve. Estejam atentos!)

::A Porta no Meio::

Caminho sozinho numa vastidão, paisagem estéril a perder de vista. Do lado direito e esquerdo vejo terra castanha clara sem verde nenhum e à minha frente estende-se um cinzento desbotado do que me parece ter sido uma antiga auto-estrada, mas veículo algum se cruza comigo. Eu caminho no meio. Sei que tanto para a frente como para trás a via afigura-se infinita, mas algo me diz que existe algo em frente. O escape do infinito está lá, à frente. Por isso caminho. Sei que estou prestes a chegar. Posso caminhar durante mil anos, é apenas um segundo; não me canso, não sinto sono nem fome. Continuo a andar. Estou seguro: alcançarei a saída.
No meio da estrada há uma porta de madeira, de aparência gasta, a pintura branca desbotou e tem rachas. Rodo a maçaneta. Entro. Vejo uma sala com um sofá e por cima um quadro que apresenta um tema marítimo: ondas, muitas ondas, espumando no centro do oceano e nem uma gaivota para ver o espectáculo. Ao lado há uma estante vazia e do lado oposto entra luz matinal pela janela. Não fecho a porta. Sento-me no sofá e espero. Pela porta por onde acabei de entrar vejo um buraco rectangular negro em vez da auto-estrada deserta. Só eu podia vir por este caminho e entrar por ela, suponho. Não sei nada, não presumo nada. Ainda não creio em nada. Contento-me com suposições, teorias, a fé é demasiado definitiva para mim, a fé infere estrutura espiritual concluída, edifício completo. Eu ainda só tenho o terreno onde um dia construir esse edifício. E não tenho pressas. Se calhar faço uma piscina.
Pela primeira vez, porque já não ando, aborreço-me. Levanto-me, passeio devagar. Vou à janela. Observo uma imensidão azul. A estante está vazia. Nem tenho leitura para passar o tempo. Estendo-me no sofá e tento entreter-me sonhando acordado. Aborreço-me de novo. O poder imaginativo foi diluindo e não entendo a razão. Sei que não posso retroceder, voltar atrás. Então vou até à parede nua, começo a tactear, fecho os olhos e desejo fortemente. E ali está, outra porta, novinha em folha. Transponho-a e desemboco num quarto com cama de ferro negro onde uma dama verde, vestida de verde, está sentada com um círculo na mão direita. Olha lentamente para mim e torna a concentrar-se no círculo.
- Olá. Sabes onde está ela? Espero há muito tempo – minto.
- Também eu aguardo.
- Isso é o quê?
- A minha oferta.
- Para ela? – estranho.
- Sim.
- Temos de oferecer alguma coisa?
- Convém.
- Mas... ela virá à mesma mesmo sem termos ofertas? – pergunto, baralhado.
A dama verde responde após um longo silêncio que me angustia.
- Vem para instruir sobre a oferta.
- Eu não tenho nada, nada! – digo, crescendo em agonia e caminho em passos curtos e rápidos pelo quarto. – Nada!
A dama pega-me no braço, abre a porta, põe-me no sofá, olha em volta e descobre algo perto da estante. Baixa-se e levanta um livro velho, cheio de poeira. Entrega-mo. Está em branco.
- E agora?
Ela encolhe devagar os ombros e o seu rosto permanece plácido. Antes de sair, pergunto:
- Se... quando eu tiver uma oferta ela virá?
- Sim, a morte virá.
E sai.
Espirro por causa do pó a cobrir a capa. Limpo-a com o braço. Passo as mãos pelas páginas níveas. De súbito a imaginação fértil que eu julgara perdida retorna e pouco a pouco vou sorrindo, sorrindo, enquanto a primeira folha branca se enche de símbolos.




Inspiração: Like a Stone, dos Audioslave.
[Mal acabei de escrever, a canção passou na rádio. Synchronicity in action!]

quarta-feira, dezembro 22, 2004

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Bom, este texto será apenas publicado no Escreva! dia 22, mas apeteceu-me pô-lo aqui antes.

(Exercício: não usar adjectivos.)

Bê



O senhor Bê na praia tem o costume de empoleirar-se em cima dos castelos de areia construídos por petizes. Por hábito tira os sapatos, coloca-os lado a lado, antes aperta os laços; de seguida retira as meias, uma de cada cor, às vezes da cor das nuvens e do sol, outras do tronco do castanheiro e da flor do lilaseiro, hoje da cor da alface e do sangue (ele enaltece a bandeira de Portugal sempre que pode, embora em ocasiões confunda o hino dos lusos com o dos nazis e desate a erguer o braço direito como um foguete. Não admira a artrite) e dispõe-as ao lado dos sapatos. Levanta a bainha das calças até aos joelhos e, pegando no guarda-chuva como se fosse um espadim, avança para o castelo da vítima e remete contra os torreões, bramindo:
- Toma! O Reino jamais será teu, mouro!
(O senhor Bê folga fingir-se cavaleiro em luta contra a mourama, nos tempos da Reconquista.)
Após a investida de início, salta para cima do castelo e calca, pulando como uma rã em cima do alvo até desfazê-lo e no lugar sobrar apenas areia. Ao petiz escorrem-lhe as lágrimas, quase não consegue respirar devido aos soluços e fungos. Corre numa gritaria até aos pais, queixando-se da queda do seu castelo frente a um velho.
No entretanto o senhor Bê calça os sapatos e meias (não por esta ordem), pira-se e lentamente passeia à beira-mar, gozando a reforma e inalando o ar do oceano.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Eu quero neve pelo Natal.

Alguém sabe o que quer dizer Pé-Terra?
Desafio da semana: Palavra proibida - porque



Título: Palavra proibida - porque

Modalidade: Prosa



Prazo: 7 dias (até 12-12-2004)




Estrada

Então pois eu bem vi a raposa a oferecer um prato de lentilhas e grão cozido à galinha e a estúpida foi! Atravessou a estrada e zás!, levou logo o remédio para a tosse, a parva. Agora vai-se atravessar a estrada por um reles prato de lentilhas?! Ainda se fosse por umas cenourinhas, hum, apetitosas. Vá lá, uma saladita de alface, couve roxa, cenoura e salsa, marchava. Ai isso já marchava logo.
- Psiu, vizinha, ó vizinha!
- Hã, é comigo?
- Sim! Eu vou almoçar agora. Quer a senhora Dona lebre partilhar o almoço comigo?
- Consigo, Dona raposa? É uma óptima ideia, mas infelizmente não posso.
- Não pode?
- Não posso.
- Então?
- Ali o senhor lobo já me tinha convidado para uma festa e disse que tinha uma surpresa para mim. Adoro surpresas! Até mais logo, Dona raposa!
- Pois, pois. Adeusinho, adeusinho...
Desafio da semana: SMS


Título: SMS

Modalidade: Livre (prosa ou poesia)

Prazo: 7 dias (até 12-12-2004)


Descrição: O
que consegues escrever numa SMS?





Zé trabalhou quarenta anos anos. O cancro deu-lhe três anos de liberdade e um de sangue.
A morte libertou-a.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Países que aplicam e executam a pena de morte a crianças

São cinco os países que, desde o ano 2000, condenaram crianças e jovens à pena de morte e as executaram: China, República Democrática do Congo, Irão, Paquistão e Estados Unidos. Filipinas e Sudão têm crianças condenadas mas não procederam à sua execução.



Nojento.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Lançamento de As Não-Metamorfoses de Alexandre Andrade, editado pela errata, dia 10 de Dezembro às 18h30,
na sede do Clube Português de Artes e Ideias em Lisboa, Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29, 2º.
Apresentação de Alexandra Lucas Coelho e José Mario Silva.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Desafio da semana: Paisagem inesquecível

Título: Pôr-do-sol

É um laranja-fogo, fogo contido, aéreo e imóvel, a rodear o sol, círculo perfeito, meio laranja, meio amarelado. Adoro o espectáculo. Pouco a pouco vai encobrindo-se por detrás do monte castanho, vestido com o escasso verde das ervas rasteiras. O círculo transforma-se em meio círculo e depois, quase no fim, num gominho minúsculo. Por cima o céu permanece azul como se fosse dia, apesar do sol ter já ido dormir. Alguns fiapinhos brancos pontuam o azul, claro rente ao solo e ficando progressivamente mais escuro quando os olhos se levantam para cima, para o tecto estrelado da Terra. Muito bonito.


Desafio da semana: Cadeia de palavras


Molgraine

Molgraine, malabarista (mareografista), malhou.
Manco, maleita mascarou.
Mangrou-se: má manobra!
- Mano, matou-te [a] manipulação!

quinta-feira, dezembro 02, 2004



Aurora borealis.

Desafio do mês: Descrição de uma cena

O meu texto, abaixo.

Título: MAÇO


O gato branco torceu os bigodes, incomodado com o fumo quando viu acender o cigarro. Deu um salto para cima da secretária e abocanhou o maço de tabaco, fugindo com ele.
- Então...?
Ela seguiu-o. Viu o gato dar balanço para cima do lava-loiça e percebeu-lhe a intenção de arremessar o tabaco na água. Conseguiu interceptá-lo a tempo de o impedir, mas ele pisgou-se para o quarto, pulou para o armário e daí para o guarda-fatos. Aí ficou com a sólida recusa em sair.
“Sacana.”
Ela fez um trejeito com a boca, enrugou a testa e foi a correr buscar o escadote que costumava usar para trocar lâmpadas fundidas. Subiu cuidadosamente, tinha movimentos lentos e precisos. Quando os olhos do gato ficaram ao nível dos seus estendeu devagar a mão esquerda para o maço, pousado entra as patas felinas. O gato parecia indiferente aos avanços da bípede, mas a centímetros de alcançar o prémio ele empurrou o maço para o chão e pulou para baixo. Ela desequilibrou-se, temeu cair de costas, mas conseguiu segurar-se a tempo. Desceu furiosa o escadote, mas ele já ia a voar pela porta, o maço preso firme à boca escancarada. Quando o alcançou só foi a tempo de ver o maço completamente encharcado na água do lava-loiça, onde pusera pratos de molho.
- Sacana. Não pões pé na rua hoje.
O gato abanava a cauda, vitorioso.
Desafio do mês: Tema livre

Aqui fica o meu texto.

Título: Obras ou Odeio Arranjar Títulos

Homens das obras. Clínica, ir à clínica (isto é free-writing). Trocar penso. Free writing ou algo parecido, algo por aí. Magoei-me na mão a fazer o jantar. Faca de serrilha. Cortei a palma da mão esquerda, por pouco não acertei no tendão que move o indicador. Sorte - ter sido na esquerda. Sorte - não ter apanhado o tendão. Sorte, sorte, sorte. Next time I fall in love: adorava esta música anos atrás. Mas a malta cresce e aprender a gostar da Britney (uma Deusa). Que ninguém me diga o contrário. Uma Deusa. Free, free, free writing. Já não há muito free por aí, não é verdade. O contra-informação no outro dia foi cortado a meio "sem querer" ou quê? Santanetes, badanetes. Estesgajospensammesmoquevãoficarmaisumaporradadeanos. Que estúpidos. Isto já deve ter cem palavras. Sem palavras. Texto sem palavras. O free writing é giro, escrever o que nos der na gana, escrever por aí fora, como se tivéssemos uma caneta e a auto-estrada fosse o papel. Na tua casa desejo estar. Like a Stone. Adoro esta música. Mas a Britney continua a ser uma deusa (uma Deusa) Agora enganei-me e escrevi bRitney.
A quanto é que estão os. Agora esqueci-me do que ia a dizer. Ou mudei de ideias, não importa. Santanetes-badanetes. A bandana do Santana. Certo, aquele, o actor. Agora você, vocemessê (vossa mercê, excelência, doutor, engenheiro) estava a pensar que eu estava a falar do Outro?! Não seja parvo, homem. Claro que não era do Outro. Acreditam que se eu tratasse um juiz por "senhor doutor engenheiro" o tipo me podia processar por considerar o tratamento "ofensivo"? Esta coisa das "injúrias contra a ofensa e moral" é apenas outro nome que mascara a falta da liberdade de expressão.
Adiante. Afinal, Espanha está aqui mesmo ao lado.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

O que é que eu estou a fazer aqui a estas horas?
Dói-me as costas, não sou capaz de dormir.
Au.

Mas ao menos tive uma notícia boa! Eleições, eleições, eleições!!


Vá lá, políticos com Ética, apresentem-se, porra! O país precisa de vocês!
Eu sei que existem, Têm de existir!
ELEIÇÕES ANTECIPADAS!

Porra, Até Que Enfim!

terça-feira, novembro 30, 2004

(...)
SPA
Sede vandalizada esta manhã



A sede da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, foi, segunda-feira, vandalizada, por isso, durante algumas horas, trabalhadores e administração foram impedidos de exercer as suas funções, avançou a agência Lusa.

As portas do edifício da Sociedade Portuguesa de Autores foram coladas, mas uma empresa de chaves e a empresa responsável pela colocação das portas na sociedade conseguiram abrir uma das portas laterais.

Segundo Ribeiro Cardoso, assessor da administração, trata-se de mais uma tentativa de desestabilização da Sociedade a acrescentar a tantas outras que têm acontecido como telefonemas anónimos, cartas a cooperantes deturpando o que se passa, entre outras.


in: http://dn.sapo.pt/2004/11/29/ultimas/sociedade_portuguesa_de_autores.html

segunda-feira, novembro 29, 2004

E aqui ficam mais duas editoras novas portuguesas para juntar à lista.

Ariadne editora (Blog.)

Vislis Editores.


==============
(E, mudando de assunto.)
Se puderem telefonem primeiro para perguntar se a editora (seja ela qual for) está ou não a aceitar manuscritos.
Por exemplo, pelo que me foi dito por contacto telefónico, a Assírio e Alvim não está a
aceitar nada. Mas, se tiverem uma cunhazita: aproveitem!

(Usei a minha "cunha" há uns meses atrás e não deu em nada, snif. Noutra editora.)



quarta-feira, novembro 24, 2004

Já Agora!

Já Que Estão Com A Mão Na Massa, Meus C*brões, Aproveitem!

Idiota

Ideia: Portagem para entrar em casa.


Que tal fixar portagens à entrada das casas? A ideia é simples e altamente rentável, os contribuintes para poderem entrar nas próprias casas, teriam que depositar uma moedinha. Como sugestão, apresento desde já uma possível tabela de preços: Residentes - 0,50€ Familiares não residentes - 1€ Visitas convidadas - 2€ Visitas indesejádas - 50€ Vendedores porta-a-porta - 100€ Credores - 1500€ Bem... como uma ideia destas, e com actualizações anuais tendo como como base a "produtividade", "inflação","deflação" e todas esses indicadores da treta, isso é que seria factuarar. E não diga o amigo contribuinte que não sai a ganhar com uma proposta destas. Esta seria a solução legal para correr com as tais visitas indesejádas, vendedores, credores e até mesmo dos familiares com menos recursos...

domingo, novembro 21, 2004

Uma amiga, advogada, sobre o caso Casa Pia: "Aquilo vai andar até chegar às prescrições, vais ver."

sexta-feira, novembro 19, 2004

Os Marretas!

Cliquem, vale a pena.

(Será manamana...?)
Só agora vi este cartoon. 'Tá. Demais. :D



(Via WOW)
Não percebo tamanha fixação com o Pepe Le Pew. Montanhas de gente à procura de imagens dele no blog. O que é que se passa? É alguma parafilia? (Esta palavra é tão bonita.)





(Via Planície Heróica.)
Pedro namora:
"Quando o Bibi foi detido exigia-se uma pena exemplar. Mas quando foi o Carloz Cruz, começou a discutir-se o Código Processual Penal."

In Correio da Manhã. Hoje.


















Pois.

quinta-feira, novembro 18, 2004

Há desafios novos no Escreva!

Vão até lá, pratiquem a vossa escrita.
O Senhor B. é mau, mau que nem as cobras. Dez minutos. De Escrita Livre (?) ou Escrita Automática. Parece que os espíritos nos falam através da escrita automática. Não sei. Usa-se como técnica. Usa. Pois. Que porcaria qu’isto está a ficar, porra. Ora o Senhor B. Não posso dizer o nome ainda. Gosto tanto do gajo. Sério. Ao longe, ao perto. A minha melhor personagem! Adoro o tipo. É mau. Como as cobras. ‘Tadinhas das cobras. Uma editora disse: sim, se pagar metade. Eu: não, obrigada. Não há guito, não há cascalho. Se o tivesse publicava-o sozinha, meus lindos. Outra editora disse que sim e depois não disse mais porra nenhuma. Uma coisa que eu gosto tanto. Águas de bacalhau. Ultimamente ando a comer mais salmão. O Senhor B. Mau. Mauzinho, marotão. Não cuspa às criancinhas. Não use pombos como armas de arremesso. Ai, o malandreco. Fui tirar os pontos. Cortei-me no outro dia. Free writing, escrever tudo o que nos passa pela tola. Não corrigir. Acho que vou corrigir. Depois comecei a mandar o Senhor B. a outras editoras. A Asa devolveu sem ler porque “não se coaduna com a nossa...”. Não me lembro. Publicação? Estilo. Algo do tipo. Maldita memória. Telefonei a outra. Disseram: mande por e-mail. Mandei. Enfim. Não quero morrer sem ver aquele livro publicado. Aquele, aquele tem de ser. Oito minutos nisto. Escrita automática. Mexo a caneta, movimento-a. Penso: se tivesse cortado o tendão do indicador direito como escreveria? Junto o anelar e o polegar numa pinça. Daria? Para? Talvez. Com o hábito. Nove minutos. Pisco-pisco. Isto não é suposto ser fácil. E leio, algures: a vida é alegre. Whatever. Ou melhor: é suposto vivermos em alegria. Pois, é possível – com uma grande pedrada em cima. Cepticismo. Uma amiga certa vez chamou-me de cínica. Eu? Céptica, sim, mas cínica? Onze minutos. Eish. G’anda pratada.
Como não consigo escrever nada, vou tentar este método:

"Automatic writing is the most direct of Surrealist techniques.

Sit at a table with pen and paper; put yourself in a 'receptive' frame of mind, and start writing. Continue writing without thinking of what is appearing beneath your pen. Write as fast as you can.(...) in the purest version of automatism nothing is 'corrected' or re-written the unexpected material produced by this method can be used as the basis for further composition. What is crucial is the unpremeditated free association that creates the basic text."


http://www.duke.edu/web/lit132/automatic.html

quarta-feira, novembro 17, 2004

Dano Colateral
(via Médico Explica Medicina a Intelectuais)
Fonte: http://jornal.publico.pt/2004/11/17/Cultura/C03.html


SPA Apela ao Protesto dos Autores
Quarta-feira, 17 de Novembro de 2004

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) diz que nada vai mudar na polémica proposta de corte dos benefícios fiscais dos autores, prevista no Orçamento de Estado para 2005, "se estes não se mexerem". Esta afirmação foi feita ontem por José Jorge Letria, vice-presidente e administrador-adjunto da SPA, após uma audição na Assembleia da República perante a Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura na Assembleia da República.

"A SPA está numa posição privilegiada para agir, mas se os autores lesados não exercerem a sua pressão no poder político, há poucas esperanças de algo mudar". José Jorge Letria acrescentou saber que "para os políticos, defender estas ideias não é popular": "No contexto de crise que atravessamos é complicado para as pessoas compreenderem o investimento na cultura. Daí a importância de ter autores portugueses a dar entrevistas e a criticar esta visão do autor como um cidadão de segunda."

Já Pedro Alves, deputado do PSD presente na audição, argumentou que o corte dos benefícios fiscais dos autores "é uma medida de solidariedade para com o povo português, não de desprezo aos autores". João Abrunhosa, deputado do PP, reiterou esta posição e lembrou que "os benefícios fiscais não são a única forma de ajudar os autores".

Com este ponto concordou Pedro Osório, administrador-adjunto da SPA, referindo, no entanto, "que os benefícios fiscais eram o único 'bombom' a que os autores se podiam agarrar, num país em que nem sequer temos medidas de incentivo à valorização profissional (por exemplo, descontos na compra de instrumentos e materiais necessários à produção artística)".

Na audição, a SPA aproveitou também para discutir outros problemas relacionados com a defesa dos direitos do autor, como o combate à pirataria. "A SPA quer promover a ida de autores reconhecidos às escolas para fazer pedagogia anti-pirataria - é preciso explicar às crianças que comprar um CD pirata é o mesmo que roubar um disco de uma loja", frisou Letria. Outra questão abordada foi a Lei de Protecção da Música Portuguesa, que impunha uma taxa de 40 por cento de música portuguesa nas rádios nacionais e foi aprovada por unanimidade em 1981, mas que nunca chegou a ser regulamentada. Osório deixou a pergunta: "No ano passado discutiu-se novamente o assunto, houve reuniões parlamentares e ficou prometida uma lei adaptada à nova realidade. Essa lei ficou no tinteiro. Que forças são estas que impedem que esta lei seja aplicada?"

quarta-feira, novembro 10, 2004

Desafio do mês: Descrição de uma cena (Abre em nova janela.)

"Título: Descrição de uma cena

Modalidade: Narrativa

Prazo: 20 dias (até 30-11-2004)

Descrição: Em 600 palavras (aproximadamente uma página) no máximo, descreva uma cena em que OBRIGATORIAMENTE terão de entrar as palavras 'ela', 'cigarro' e 'gato' pelo menos uma vez.

Queremos ver muita originalidade e boa escrita! Dia 1 de Dezembro os textos serão publicados."


Vá lá, Toca a Participar!
ATENÇÃO!

ATENÇAO! NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!

Abriu o site Escreva! É favor registarem-se para participar!

domingo, novembro 07, 2004

Uma palavra. Quinze minutos para escrever sobre ela. Uma comunidade no Livejournal. Em inglês, pois claro. É sempre na merda do inglês, estas coisas Nunca existem em português. Nunca. Irrita-me a falta de visão dos tugas. A falta de vontade, a falta de coragem, a falta de colhões.
Ok, não há uma comunidade em português dedicada a algo tão Intensamente Trivial que eu, ok, que se lixe – vou dedicar uma entrada a este assunto.
E gastar quinze minutos a escrever sobre ele.
Porque sim, porque me apetece. Catano.
Os americanos, os ingleses, essa malta toda que, tipo, domina o mundo, têm a
Original ideia de treinar a escrita. Fazem concursos entre eles. A fifteen minute word challenge! A thirty minute fiction challenge! Treinam o músculo.
Nós não. Nós somos etéreos. Nós somos puros. Nós somos essa merdinha toda que nunca leva a lado nenhum. Porra, hoje apetece-me pensar que se calhar eu devia ter, pelo menos, nascido em Espanha. Pelo menos.
Portugal, Portugal, Portugal – do que é que me serves?
Ok, uma palavra. Uma palavrinha. Qual? Pátria? Mátria, quiçá, fosse preferível. Se esta fosse a nossa Mátria talvez a malta fosse melhor tratada.
Arte. Expressão artística.
UmaPalavraUmaPalaUmaPalavra.
Não consigo pensar agora em nenhuma, porra.

[/rant]

E gastei nove minutos nisto, a computador.
Escrever é uma forma socialmente aceitável de esquizofrenia.
(Onde é que eu li isto...?)



Um dia quero fazer uma obra de arte com Todas as minhas cartas de rejeição.
Tipo, uma colagem, sei lá. ALGO.
Stolen from here.

"Choose Life. Choose a hobby. Choose an avocation. Choose a writer's group. Choose a fucking fast laser printer. Choose magazine subscriptions, pens, mp3 playlists and paper by the box. Choose good ergonomics, split keyboards, and repetitive stress injury. Choose WorldCon membership payment plans. Choose a story tracker. Choose your friends. Choose LiveJournal and RSI feeds to Neil Gaiman. Choose a Dell all in one laptop with Windows XP and Microsoft Word. Choose wordcount dailies and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that chair watching the first time you understood what death was become material in your next sure to hit the pro markets novelette. Choose scaring the shit out of people who don't understand writers as you hit the bottle, talk about imaginary people as if they were talking to you right now, and admire your wall of rejections.

Choose your future.

Choose Life.
"

quinta-feira, novembro 04, 2004

Olhem que giro.

"Pseudónimos de Camilo [Castelo Branco]

Na sua longa carreira de profissional das letras, Camilo assinou os seus trabalhos com vários nomes:

1849:
O Cronista
Fouché
Ninguém
Saragoçano

1849/51:
Anastácio das Lombrigas

1850/51:
Carolina da Veiga Castelo Branco

1851:
Anacleto dos Coentros

1852:
AEIOUY
C.da Veiga
A Voz da Verdade

1853:
Visconde de Qualquer Coisa

1854:
O Antigo Juiz das Almas de Campanhã

1855:
José Mendes Enxúdio
D. Rosária dos Cogumelos

1856/58:
João Júnior

1858:
Manuel Coco

1858/59:
Modesto

1861:
Felizardo

1887:
Egresso Bernardo de Brito Júnior

Sem data:
Arqui-Zero"

(Fonte: Literatura - C. C. Branco)

Reinvindico para mim o Anacleto dos Coentros (no feminino, pois claro) e o Visconde (Viscondessa) de Qualquer Coisa.



Este gaijo tem graça.

(Terá namorada...?)

Estagiários distribuídos com o 24 Horas

De forma a reduzir o ócio e também com o intuito de aumenta a experiência profissional dos novos homens do Direito, o jornal 24 horas e o governo, através do Ministro da Justiça, José Pedro Aguiar-Branco, celebraram um acordo que visa a distribuição de Advogados Estagiários pela população carenciada. Agora, qualquer pessoa pode levar um advogado estagiário para casa desde que, à quinta-feira, pague mais 8,90 Euros pelo 24 horas.

quarta-feira, novembro 03, 2004

O problema com os americanos é que eles nunca se elevam à ideia que nós temos deles.

O que fica mais uma vez provado ao elegeram pela Segunda Vez o Bush.

sexta-feira, outubro 29, 2004

Para melhor escrever: não ter expectativas.
Não esperar nada em troca.
Escrever apenas.



quinta-feira, outubro 28, 2004

Fodeu-se :( (Melhor: foderam-no.)

Parece que a Outra Senhora está a voltar, a grandessíssima cabra >:[

quarta-feira, outubro 27, 2004

[Atenção: isto é ficção!]

Projecto Para Deixar de Comer Meninos


Hoje é dia 14 de Setembro e eu confesso-me meninoólico ou, como se diz em inglês, kidoholic, a tentar terminar o vício antes que o vício me termine a mim.
Levanto-me e digo:
- Hoje comi um menino e não vou comer mais! Hoje comi um menino e não vou comer mais! Hoje comi um menino e Não Vou Comer Mais!
Resta-me convencer o sacana do corpo e da mente – to kick the habit.

15 de Setembro

Comi o menino e dois minutos depois comecei logo a espirrar. Interessante conexão. Aparentemente o Governo, composto pelas luminárias mais (in)competentes cá do burgo, resolveu aumentar os impostos sobre o tabaco. Quanto custará um maço de cigarros daqui a uns meses? Cinco euros? Mil marrecos? São espertos, os gajos, vão para o vício que tantos são incapazes de largar. O que me traz aos meninos. Porque não terá ainda nenhuma luminária a brilhante noção de taxar meninos como se taxa o tabaco? São dois vícios que muitas vezes se acompanham, dois hábitos que os consumidores não conseguem abandonar. Logo, é bater neles enquanto se pode! Qualquer dia comer meninos será taxado tal como o tabaco e provocará a desaprovação geral, atitude politicamente correcta de que hoje o tabaco é vítima. A verdade é que tudo isto faz-me rir à gargalhada. O consumo de meninos é um veneno para o corpo e para a mente. Não consigo nem imaginar a dificuldade de deixar o tabaco quando eu nem sou capaz de me abster de comer meninos. Hoje já comi um, o segundo menino completo de acordo com o meu plano de vinte e oito dias. Amanhã será a vez do terceiro menino que poderei consumir do princípio ao fim. Aquele maravilhoso veneno que me fode o corpo e a vontade. Depois começo a cortar: meio menino durante uns dias; algumas trincadelas miúdas a seguir até que virá a altura em que abandono o vício por fim. Mas os poucos testemunhos que li na Net referem a imensa dificuldade em largar o hábito, passaram meses para fazê-lo. Meses. O meu plano tem cerca de um mês. Conseguirei? Ai Deus, quero tanto. Tenho de agir na assumpção de sim, de que consigo.


Ando a sentir-me muito “edgy” (incapaz de parar, com grande energia e não saber onde gastá-la, mas uma energia espiritual e menos física) o dia todo. Veremos como será amanhã.


16 de Setembro


Um menino comido hoje. São 18h33 e não fui ainda assolapado com vontade de comer nenhum outro. Ontem dormi, ai, tão bem... Hoje foi, de acordo com o meu plano, o último menino inteiro que comi. A partir de amanhã como metade do menino e após quatro dias apenas uma trincadela ou duas. Esse é, de resto, o plano. É melhor chamar a isto projecto porque um projecto tem uma conotação no definitivo e ao mesmo tempo pensa-se em fases. Plano parece descrever algo que à partida tem mais hipóteses de falhar. Não se diz working plan, mas working process. Projecto é mais um processo. Tal como a guerra em que se podem ganhar as batalhas todas e mesmo assim dar a vitória ao inimigo. Se eu falhar agora sei que posso continuar e – falhar noutra altura, mas falhar mais perto do objectivo. Falhar até que a vitória me pertença. É um processo. Leva tempo. Largarei o filhodaputa do vício.
Nota: beber muita água ajuda. A água limpa as toxinas do corpo, controla a fome e parece controlar-me a ânsia de trincar outro pedacito do adorável veneno.
Há que fazer uso de todos os truques para primeiro controlar o corpo e depois reeducá-lo. O corpo e a mente.
Hábitos. Vícios. Li algures que o cérebro, se repetirmos uma coisa muitas vezes, traça percursos neuronais (não sei se é a expressão correcta). Tipo: forma atalhos. Dar cabo do vício é dar cabo desses atalhos, deixando de os usar, como uma estrada abandonada que em pouco tempo (quem dera!) é invadida por ervas e folhagens; e construir novas vias. E usá-las – para não cairmos na tentação de usar a estrada antiga nem deixar que a nova deixe de existir por falta de uso. Na infância aprender novas funções (como tocar trompete) é mais fácil porque o cérebro é maleável; em mais velhos o mesmo não se passa e demora-se mais tempo a aprender a tocar um instrumento musical. Porém, é possível. Muita gente o faz. É bom para o cérebro que precisa do exercício.

17 de Setembro

Comi meio menino. Ontem dormi tão bem! Mesmo comendo um menino por dia afasto os sintomas da insónia.

18 Setembro

Meio menino. E um chocolate inteiro. O chocolate também é um veneno, mas porra, do chocolate não abdico.

19 de Setembro

Meio menino. Bom, sou capaz de ter ultrapassado a quota hoje. Amanhã é o último dia do meio menino. Depois serão cinco dias a consumir pedacinhos miúdos. Duas, três trincadelas. Se tanto. Pensei em intercalar esses dias, o que na prática dará dez dias: um dia como, outro não; e depois repito. Ficará, talvez, mais fácil de abandonar por completo o vício.


20 de Setembro

Meio menino.


21 de Setembro

Quatro trincadelas. Comecei também a comer meninas à noite e agora passa da uma da manhã e eu não consigo dormir! As meninas são um veneno, mas, descobri, possuem-no em quantidades inferiores ao dos meninos e o consumo regular de meninas tem vantagens comprovadas para a saúde. Mas, penso, há que comê-las durante o dia.
Amanhã: dentista! Ó, ocasião festiva!
Not.


24 de Setembro

Quatro trincadelas, tal como ontem. Aumentei o meu consumo de meninas.

25 de Setembro

Meio menino.

26 de Setembro

Devido a uma dívida de cinco cêntimos decidi que hoje seria (e não ontem) o último dia em que como meninos. Afinal não havia dívida nenhuma. Não faz mal. Foram quatro dentadas bem dadas. Não prevejo abandonar o consumo de meninas.


26 de Outubro

Livre! Livre finalmente do vício! Há um mês deixei definitivamente de comer meninos. Estou tão orgulhoso de mim. E comer meninas fez de mim um homem infinitamente mais saudável.






Escrever na primeira pessoa é-me difícil: quero contar tudo o que a personagem não vê, nem sente nem sabe e isso é impossível na primeira pessoa do singular. Obrigo-me, agora, a transcrever para a primeira pessoa parte do que escrevi dias atrás na terceira – mas não funciona. Sinto que falta sempre alguma coisa. Talvez não seja esta a obra para tentar verdadeiramente essa voz narrativa. Espero. Espero por outra voz, outra personagem, outro tempo. Espero por outra voz que se junte à que eu costumo usar e onde me sinto confortável.

terça-feira, outubro 26, 2004

"House VIII in Gemini

If she is a writer, a painter or involved in another of the Arts, and if fame doesn't come when living, then it will come posthumously."


Posthumously.
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Entrada muito interessante. Leiam.

As Mulheres, o islão e certa islamofilia do ocidente

domingo, outubro 24, 2004

Ontem a bolinha no canto superior direito num certo programa da Sic era porquê? Porque entrevistaram o Carlos Cruz...?

Epá, não sei, 'tou só a perguntar.


Futurologia: ElesVãoSeSafarTODOS. (Menos o Bibi.)

Sou bruxa, vão ver.
O relatório do SIS sobre a pedofilia.

Leiam.

quarta-feira, outubro 20, 2004

"The following pictures reveal the truth about the barbaric attacks that were done by the United States of America's Armed forces against the Iraqi civilians in Southern Iraq. The United States used what is called "Uranium Bombs" against the unarmed Iraqi Civilians."

Imagens muito fortes.

segunda-feira, outubro 18, 2004

Visitem :)

Carlos Franquinho blog.



[Isto Não É Meu]

“- Não é uma coisa curiosa a posteridade – quase como jogar na lotaria? Será que o infeliz Guillotin, um médico e um filantropo, merecia que o seu nome ficasse para todo o sempre associado a uma máquina de cortar cabeças? É muito injusto. Enquanto outros nomes, como, digamos, Simão e Onan, devido a um mero acto fugaz, se petrificaram em conceitos de ignomínia. E essa Xantipa? Provavelmente a única justa aos olhos de um vagabundo entendido na vida da cidade.


Em contrapartida, temos esse felizardo do Maréchal Niel, que ainda cheguei a conhecer bem, e que não passava de um grande maçador. Não há nada mais desinteressante do que esses generais do Segundo Império, que se desvanecem na memória como sombras – imitações de uma imitação. Aquele comandou em Sebastopol, uma das carnificinas mais estúpidas de que há memória, e incentivou à adopção de uma arma ainda mais mortífera do que as existentes, e com tal zelo o fez que nisso encontraria a morte. Tudo, e mais o seu livro sobre a guerra da Crimeia, se afunda no merecido esquecimento. E que acontece? Um jardineiro genial não é que vai baptizar a mais bela rosa da sua cultura com o nome de «Maréchal Niel»? Assim se logrou um enxerto : enquanto o rebento histórico vai mirrando, esta flor desabrocha nos jardins em todo o seu esplendor mítico. Daí em diante esse nome ficou milagrosamente associado a um perfume e a uma cor. E é assim que sempre acontece – só poucos são dignos da sua fama.


Ducasse gostava de se entregar a tais puzzles, que lhe serviam para preencher as lacunas do seu tempo, precisamente como agora, enquanto escolhia flores numa florista(...).”

in “Um Encontro Perigoso” de Ernst Jünger, Difel, Págs. 38-39.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Esta noite sonhei outra vez com aranhas. Montes de aranhas, de todos os feitios e tamanhos, caminhando por uma rede horizontal de teias, como se fossem estradas interligando-se.

Cada vez que sonho com aranhas, são sempre em maior número do que no sonho anterior.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Blogs da Assembleia da República.

Quando é que o Paulinho das Feiras começa a escrever lá...?
Ou o nosso (nosso uma porra eu não votei no gaijo) Primeiro?

Era giro se cada um dos deputados fosse obrigado a ter um blog e a escrever nele todos os dias.

>:)

sexta-feira, outubro 08, 2004

Quando fui de manhã vê-la à árvore, a rola já não estava lá :(

quinta-feira, outubro 07, 2004

Há uma rola na árvore da vizinha, árvore que dá para o meu quintal
(e umas ameixas muito boas quando é tempo delas). A rola não é da vizinha.
Eu aproximo-me e ela não tem medo. Está encavalitada num ramo e encolhida.
Prepara-se para passar a noite ali. No muro, mesmo encostado à ameixoeira, deixei
pedaços de maçã e... alpista dos periquitos, não sei se come aquilo, mas
é o que se arranja. Tivesse avisado antes que vinha.
A rola tem uma anilha na pata e uma risca negra na parte de trás do pescoço, uma
espécie de semicircunferência. Não tentei agarrá-la se calhar é por isso que não tem medo.
Foi engraçado a maneira como chegou: aterrou no muro, depois empoleirou-se na árvore
e escolheu um ramo mais confortável. Vou deixá-la em paz.

quinta-feira, setembro 30, 2004

Houve um fogo ontem perto da zona onde habito. Aqui deixo duas fotos.
(Também tenho um video, mas não consigo arranjar um raio de um servidor gratuito
onde o colocar.)

Foto 1.

Foto 2.

CHOVE, PORRA!
This site is certified 61% GOOD by the Gematriculator
Facto sobre mim: eu sou paranóica. Não abro anexos nem de pessoas amigas, que conheço em IRL (in real life).

[Prontos, era só isso.]


quarta-feira, setembro 29, 2004

Cum caracinhas :[ Tirei fotos com a Mustek Gsmart e agora a porcaria do viewer não funciona >:(

segunda-feira, setembro 27, 2004

The Hierophant Card
You are the the Hierophant card. The Hierophant,
called The Pope in some decks, is the preserver
of cultural traditions. After entering The
Emperor's society, The Hierophant teaches us
its wisdom. The Hierophant learns and teaches
our cultural traditions. The discoveries our
ancestors have made influence the present.
Without forces such as The Hierophant who are
able to interpret and communicate traditional
lore, each generation would have to begin to
learn anew. As a force that is concentrated on
our past and our culture, The Hierophant can
sometimes be stubborn and set in his ways. This
is a negative trait he shares with his zodiac
sign, Taurus. But like Taurus he is productive.
His traditional lore can provide a source of
inspiration for the creatively inclined, and
his knowledge provides an excellent foundation
for those who come into their own in the
business world. Image from: Morgan E.
Cauthers-Knox.
http://elfwood.lysator.liu.se/loth/m/o/morganc/morganc.html


Which Tarot Card Are You?
brought to you by Quizilla

Novidades! Meus windos, windos sacaninhas, novidades fresquinhas a sair do forno!

Mas só digo daqui a um mês, hehe... :)

domingo, setembro 19, 2004

noiseformind

"Extremamente desapontado com a atitude do Governo deste país resolvi começar a fazer online e GRATUITAMENTE a distruibuição da pílula RU-486 abortiva. Pra isso basta que contactem noiseformind@hotmail.com"
«Sim. Olhe, eu não sei quem o homem era, mas pelo que percebi era uma pessoa muito difícil. Ela diz que gostava da cara dele, das mãos e da maneira de falar, e pensou que era divertido fazer com que ele a cortejasse – porque ele tinha um ar todo intelectual, sabe, e é sempre um espectáculo ver um indivíduo assim, requintado, distante, inteligente, pôr-se de repente de gatas e a dar ao rabo. Mas o que é que se passa, cher Monsieur?»
«O que é que a senhora está para aí a dizer?», quase gritei. «Quando ... Quando e onde é que isso aconteceu, esse caso?»
«(...) Não me dei ao trabalho de lhe perguntar nomes e datas, e se ela na altura mos disse, já os esqueci. «E agora, por favor, não me faça mais perguntas: estou-lhe a contar o que eu sei, não o que você gostaria de saber. Não me parece que esse homem fosse seu parente, porque não era nada parecido consigo – tanto quanto eu posso ajuizar, é claro, pelo que ela me disse e pelo que sei de si. Você é um rapaz simpático e impulsivo – e ele, bom, ele estava longe de ser simpático – tornou-se positivamente desagradável quando descobriu que estava a ficar apaixonado por Helene. Oh, não, ele não se transformou num cachorrinho de colo sentimental, como ela esperava. Disse-lhe amargamente que ela era reles e inútil, e depois beijou-a para ter a certeza de que ela não era uma figura de porcelana. Bom, e não era. E depois descobriu que não podia viver sem ela, e ela descobriu que já estava farta de o ouvir falar dos seus sonhos, e dos sonhos dentro dos seus sonhos, e dos sonhos dentro dos sonhos dos seus sonhos. Olhe que eu não os condeno nem a um nem a outro. Talvez tivessem os dois razão, talvez nenhum deles – mas, sabe, a minha amiga não era a mulher vulgar que ele julgava – oh, era uma pessoa muito diferente, e sabia mais acerca da vida, da morte e dos outros do que ele julgava que ela sabia. Sabe, ele era aquele tipo de homem que acha que todos os livros modernos são uma porcaria e todas as pessoas jovens e modernas, idiotas, simplesmente porque anda demasiado preocupado com as suas sensações e ideias para compreender as dos outros. Ela disse-me: não imaginas os gostos e os caprichos que ele tinha, e a maneira como ele falava de religião – devia ser uma coisa horrível. E, sabe, a minha amiga é, ou melhor, era, muito alegre, três vive, e tudo isso, mas começou a sentir que ficava velha e azeda quando o tinha ao seu lado. Porque ele nunca ficava muito tempo com ela, sabe – chegava à l’improviste e enterrava-se num pouf, com as mãos no castão da bengala, sem tirar as luvas – e ficava a olhá-la fixamente, com um ar soturno. Ela em breve começou a dar-se com um outro homem, que a idolatrava e era muito, oh, muito mais atencioso, simpático e prestável do que o homem que você erradamente julga ser o seu irmão (não se zangue, por favor), mas ela não gostava muito de nenhum e disse-me que era uma coisa de gritos ver como eles eram corteses um com o outro quando se encontravam. Ela gostava de viajar, mas sempre que encontrava um lugar realmente agradável, onde podia esquecer os seus problemas e tudo o mais, lá aparecia ele, vindo sabe-se lá de onde, e sentava-se na esplanada à mesa dela, e dizia-lhe que ela era fútil e reles, e que não podia viver sem ela. Ou então fazia um longo discurso diante dos amigos dela – sabe, des jeunes gens qui aiment à rigoler - um discurso longo e obscuro acerca da forma de um cinzeiro ou da cor do tempo – toda a gente acabava por o deixar sozinho a um canto, sorrindo tolamente para consigo ou contando as suas pulsações. Se realmente for ele o seu parente é uma pena, porque não me parece que ela tenha uma recordação particularmente agradável desse tempo. Para o fim ele tornou-se uma autêntica peste, diz a minha amiga, e ela já nem o deixava tocar-lhe, porque ele tinha uma espécie de ataques, ou lá o que era, quando se excitava. Finalmente, um dia em que ela soube que ele ia chegar no comboio da noite, pediu a um rapaz que faria tudo para lhe agradar que fosse ter com ele e lhe dissesse que ela não queria vê-lo nunca mais, e que se ele tentasse encontrar-se com ela, seria considerado pelos amigos que a acompanhavam como um estranho indesejável e tratado em conformidade. Não foi muito simpático da parte de Helene, acho eu, mas ela deve ter achado que seria melhor para ele, a longo prazo. E deu resultado. Ele nem sequer lhe mandou mais nenhuma das suas habituais cartas cheias de súplicas, que ela aliás nunca lia. Não, não, realmente, não me parece que possa ser ele o homem que lhe interessa – se lhe digo tudo isto é simplesmente para lhe dar um retrato de Helene – e não dos seus amantes. Ela era uma mulher tão cheia de vida, tão pronta a ser doce para toda a gente, tão transbordante dessa vitalité joyeuse qui est, d’ailleurs, tout à fait conforme à une philosophie innée, à un sens quasi-religieux de la vie, e o que é que ganhou com isso? Os homens de quem gostou desiludiram-na profundamente, todas as mulheres, com raríssimas excepções, acabaram por mostrar que lhe tinham rancor, e ela passou os melhores anos da sua vida a tentar ser feliz num mundo apostado em a destruir. Bom, mas você vai conhecê-la e ajuizará por si mesmo se o mundo conseguiu destruí-la ou não.»
(...) Infelizmente, já não me restavam quaisquer dúvidas, embora o retrato de Sebastian fosse atroz – mas também era verdade que me fora transmitido em segunda mão.
«Sim», disse eu, «tenho que a conhecer, custe o que custar. E isto por dois motivos. Em primeiro lugar, porque lhe quero fazer uma pergunta – uma pergunta só. E em segundo lugar...»
«Sim?», disse Madame Lecerf, sorvendo um pouco de chá frio. «Em segundo lugar?»
«Em segundo lugar, não consigo perceber como uma mulher assim pôde atrair o meu irmão; por isso quero vê-la com os meus próprios olhos.»


in A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990, tradução de Ana Luísa Faria, págs. 160-162.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Deprimida. Tenho de voltar ao exercício físico, a única coisa que afasta sentimentos depressivos.

(A emissão segue dentro de momentos.)

[Ou não.]