segunda-feira, março 06, 2006

pedra

Pedra

 

 

- Eu não a devia ter morto, não a devia ter morto, não devia, não devia. Devia, devia.

(Está um homem velho a mijar contra a parede do Metro. Nojo do velho.)

- Ela começou.

(Ó, ledo engano...)

- Foi ela, foi ela! Só lhe abri a cabeça ao meio com a rocha... foi só uma... pequena... pedra...

             (Maior do que as tuas duas mãos juntas, e que são grandes! Uma cobre-te a cabeça até às orelhas.)

- Não doeu... rá... rápido...

            (Vermelho. E pedacinhos bonitos de cinzento e osso. Deve ter doído. Tantas vezes bateste. Ela não parava de se mexer.)

- Mentira. Foi só uma vez.

            (Não mintas. Eu estou aqui dentro, vejo tudo.)

- Não devia. Devia devia devia.

            (Ó, porquê parar? Psst... anda cá, anda. Olha aquela pedra acolá. Não é bonita? Grande e bicuda. Boa para esmagar... mas temos de voltar ao Metro. Usá-la. Na cabeça do velho nojento e depois lançá-la para a linha. Descarrilar a carruagem. Centenas de mortos. Vai ser bonito. Esperas que venha com velocidade. Não pode ser no fim, quando parou. Pega nela.)

- Não.

            (...)

           (Aquela rapariga pensa que és bonito. Observa-te o queixo quadrado, os lábios finos e o cabelo russo.)

- Não pensa nada. Eu sou feio.

            (Pensa sim. Consigo vê-lo. És lindo. És um pão. E sabes que mais?)

- O quê?

           (Vai-te achar ainda mais belo se pegares na pedra.)

- ...

[Pausa.]

           (Sim. Exacto. Vês? Sorriu! Sorriu-te! Caminha de volta ao Metro.)

- Não quero. Vou falar com ela.

           (...)

- Vou dizer-lhe que é linda e pedir-lhe um cigarro.

            (Faz isso depois. Ela espera por ti.)

- A sério?

           (Vejo-a a pensar. Vai esperar. Diz-lhe que compreendes com um sorriso. Ela vai entender. E anda. Vamos entrar.)

- Eu já volto! Já volto!

 

 

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