quinta-feira, agosto 25, 2005

Warriors


Warriors, originally uploaded by solea.

Esta tipa tem fotos fabulosas. Não me canso de as postar.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Ice Angel


Ice Angel, originally uploaded by _Lia.

Sturm und Drang


Sturm und Drang, originally uploaded by solea.

Creepy...

segunda-feira, agosto 22, 2005

The minute before the storm


The minute before the storm, originally uploaded by Simon Pais.

Deus está por detrás das nuvens.

A fazer tricot.

domingo, agosto 21, 2005

One Autumn Day


One Autumn Day, originally uploaded by eyecatcher.

Eu não acredito que tamanha beleza seja possível.

yellow and red


yellow and red, originally uploaded by oferk.

E agora, um pouco de cor.

O Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa.

Mansion


Mansion, originally uploaded by solea.

O perfeito cenário para um livro de terror.

Winter in spring #2


Winter in spring #2, originally uploaded by solea.

Nunca vi uma paisagem desta ao vivo.
Quero saboreá-la. Um dia.

lonely bench in the forest


lonely bench in the forest, originally uploaded by solea.

Adoro este género de fotos. Vejam o set Winter.

Fotos incríveis.
Lindo!

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Epígono de mim, cá vou compondo,
De memória, um antigo desencanto:
Sem estrondo,
Nem pranto.

Quanto baste pra encher um volume pequeno
De que os amigos dirão bem e os inimigos mal.
Insensível às flores e ao veneno,
Vou em busca de alguém que é meu igual.

Alguém que não conheço nem conhece
A minha posição poética e política;
E a quem não aquece nem arrefece
A crítica.

Alguém que há-de dizer, ao ler-me
(Escrevo para mim. A ele é que me entrego.):
--Voa tão alto, este verme!
Vê tão longe, este cego!

(António Manuel Couto Viana, in Sou Quem Fui - Antologia Poética )


[Fonte: Por dois canudos.]

sexta-feira, agosto 19, 2005

Quero uma paisagem fria e gélida ao meu redor. Quero uma árvore dobrada sob o peso da neve. Quero neve, neve. Quero vê-la. Que se foda o Verão. Já estou mais do que farta de tanto calor. Quero um casaco quente e fofo e morno. Quero chuva. Quero inundações na minha rua, quero ir de barco para o trabalho. Quero remar. Quero um frio intenso que me congele e comprar mais edredões para me aquecer. Quero dar uma carga de porrada ao São Pedro, sacaninha de merda, já chega, basta. Basta de tanto sol. Quero mudar-me para a Noruega durante um ano. Quero patinar na minha rua num lago gelado. Ir de patins às compras. Quero espirrar, espirrar e ter constipações e apanhar uma pneumonia. Eu nunca apanhei pneumonias e nunca parti nada. Só as unhas, só o coração. Quero sentir aquele frio de agulhas que nos pica o nariz antes de nevar.
Quero caminhar por uma alameda de pinheiros altos cobertos de neve a sério.
Quero cair a fazer ski e partir qualquer coisa.


Quero ter um gorro e motivo para usá-lo.

terça-feira, agosto 16, 2005

"Transcrevo do Expresso de ontem: «Uma recensão [...] da escritora Marianne Wiggins ao mais recente livro de John Irving, Until I Find You, publicada no Washington Post há mais de um mês, foi 'desautorizada' pelo jornal, após queixa do autor. É que aos críticos daquele diário estão vedadas recensões de obras escritas por amigos ou conhecidos. [...] Em consequência, Irving e Wiggins conheciam-se. Pelo facto, o periódico norte-americano pediu desculpas.» Nós por cá não somos, nem podíamos ser, tão esquisitos. Ficava toda a gente desempregada, porque toda a gente conhece toda a gente, e aqueles que não conhecem não são recenseáveis nem escrevem nos jornais. Assunto arrumado. É verdade que podíamos ser um pouco menos promíscuos. O Expresso, que não se coíbe de publicar extensas recensões (laudatórias) aos romances do seu director, e tem mesmo três ou quatro colaboradores permanentes que só escrevem sobre os livros e plaquettes uns dos outros, é o epítome do nepotismo «crítico». Escrevendo depreciativamente sobre o livro de um amigo (Irving) do seu ex-marido (Salman Rushdie), Marianne Wiggins rompeu a deadline do conflito de interesses. Se tivesse elogiado era o mesmo. Os protocolos são para cumprir. Sobre a questão, assalta-me uma dúvida: quem terá sido o patusco que inseriu a notícia na p. 35 do caderno Actual, à laia de ilustração da tese contrária aos hábitos da casa...?"

in: http://daliteratura.blogspot.com/2005/08/conflito-de-interesses.html

domingo, agosto 14, 2005

AUTOBIOGRAFIA INCOMPLETA


Gosta de livros estranhos, esquisitos. Tem por hábito tomar banho. Tem [teve] um gato que não é [era] dela. Fala de si na terceira pessoa. Gosta da Britney Spears. Do Brad Pitt. Tem ódio mortal a Angeline Jolie por causa do Brad Pitt. Gosta do som e cheiro da chuva. Gosta do som e do cheiro do mar. Pode estar muito tempo, alheada, a olhar para o vazio, sem fazer nada. Não gosta que a chateiem. Detesta que apareçam sem avisar. Tem um grande sentido de justiça. É mais casmurra do que sei lá o quê. Já mencionei que adora o Brad Pitt? Devia ler mais. E escrever também.

Tem pretensões messiânicas. É morena. Tem a pele branca, mas na praia o sol tinge-a de vermelho. Tem dois pares de patins. Não tem certezas políticas, religiosas ou espirituais. Acredita no respeito por todos. Aprendeu na primeira classe que não se responde com “hã?”, mas “diga”. Detesta matemática. Abomina contas. Já apanhou duas multas. Já teve um Opel. Acha que a escola é uma perda de tempo. A escola a sério começa cá fora, considera. Gostava de ter aprendido latim em pequena por causa dos benefícios linguísticos. O seu português, hoje, seria superior. Gostava de ter tido lições de ballet e de piano. Gostava de ter tido o papagaio de cauda vermelha que viu uma vez, em criança. Gostava de ser mais alta. O seu ídolo de infância foi o George Michael, mas congratula-se, em adulta, por não ter sido o Michael Jackson. Basicamente o seu destino, aqui, na Terra, é o de Procurar. Agora o quê – não me perguntem. Eu sou apenas o narrador e estou quase a entrar de férias.

Acredita nas maldições do fogo eterno. Not. Crê-se iluminada, excepto quando a luz falha. Nunca gostou de bife de porco. Quer saber quando diabo o carro a ar comprimido será comercializado em Portugal. A cor favorita é o rosa. A sobremesa preferida é o pudim. Tem alergias. Ao pó, aos ácaros. Tem primos e primos. Tem questões consigo mesma. Nunca experimentou drogas, para sua grande pena, nem um reles charrozito. Não fuma (vide: alergias, em cima), bebe água. Costumava roubar fruta em criança por ser divertido. Gostava dos baloiços. Teve várias paixões. Teve alguns animais de estimação. Gosta de comprar cadernos A4 de folhas quadriculadas e canetas de ponta fina, cuja espessura seja preferencialmente a de 0.1. Aprecia muito a rotring xonox, mas acha-a demasiado cara, porra, vão roubar para a estrada. Sabe que não se pode ter conversas inteligentes com fanáticos, mas em ocasiões raras não se contem – e arrepende-se depois. Acreditou em Deus até aos onze anos. Hoje é agnóstica. Não crê em dogmas. Tem pena que não haja real igualdade entre os sexos. Profere sarcasticamente para si o dito: “O amor é lindo.” de cada vez que lê no jornal a notícia de mais um assassinato de outra mulher perpetuado pelo marido, ex-marido, companheiro, amante ou namorado ou ex-namorado. Só se sente bem com a verdade. Sente que biologicamente a natureza a impediu de aprender a mentir de modo diligente. O mundo é dos espertos, reconhece, com pena, mas depois é de quem?, pergunta-se. Gostava de ser bué rica. Gostava de ter lido muitos livros em pequena, mas não havia dinheiro para livros. se a tal história da reencarnação for séria, já decidiu: será homem na próxima vida. Todo bom, todo giro. Provavelmente gay. E astronauta, se poder ser. Gosta muito do cheiro do pão acabado de fazer. Odeia festas. Preza a liberdade. Não gosta que a obriguem a nada. No passado escreveu poemas. Não durou. Não percebe o porquê de estarmos aqui. Não podíamos aprender de outra maneira? Adivinha comportamentos, intui futuras situações, mais por obra e graça do bom-senso do que por habilidades psíquicas. Mantém para si as sentenças porque não quer arranjar problemas e o “Eu não disse? Eu não te disse?” possui o condão de irritar os outros. É Leão com ascendente em Escorpião e lua em Sagitário. Os escorpiões são muito vingativos. Não a lixem. Ela vai lembrar-se Sempre. Não perdoa – afasta-se. Exige respeito. Abomina secas. É impulsiva. Às vezes perde a paciência. Escreve melhor com raiva. Tem o secreto desejo de um dia ganhar o Nobel. Ou o Ignobel, tanto faz. O Óscar é que não. Tem pena de não ter lido a obra completa de Camilo Castelo Branco na infância. Acha o Brad Pitt uma brasa (o narrador abstém-se de comentar porque é macho, macho absoluto). Considera a lei do aborto em Portugal uma vergonha aviltante. Tem maior simpatia pelos comunas, mas depois lembra-se da Rússia, da Cortina de Ferro, da China e retém a respiração. Sente no mais íntimo de si que o Poder não vale nada, não adianta nada, o único uso que pode ter é o de ajudar o povo, missão eminentemente impossível porque todo o poder corrompe, logo a sua missão principal é por sua vez também corrompida. Às vezes pára para ver insectos no meio do caminho. Ou flores. Ou observar andorinhas.

Está farta de mandar fazer as bainhas às calças. Não sabe croché. Nem malha. Não gosta de arrumar, passar a ferro, limpar vidros. Gosta de ver filmes de terror, mas dos bons. Sonha demais. Pensa demais. Tem demasiados signos no elemento de fogo. Falta-lhe o elemento terra. Tem uma natureza idealista. Mas depois a realidade impõe-se na sua visível crueza e ela suspira, encolhe os ombros e desce a cabeça. Não é romântica. Acha as cenas românticas uma parvoíce. De facto, irritam-na. É céptica e ingénua. À vez. Gostava de saber ler música. Não tem médico de família. Tirou a carta aos vinte e um anos. Não tem irmãos. Tem duas avós vivas. Uma toca bateria nos Xutos e Pontapés. Not. Acha os cuidados da saúde mental em Portugal uma farsa. Não tem grande pachorra para miúdos. Ok: nenhuma. Acha que ser mulher é o mesmo que ter um carro que tem de ir ao mecânico todas as semanas. Dá um trabalhão. Pergunta-se amiúde: como é possível existir tanta gente estúpida neste mundo? Pasma-se. Alegra-se. Alheia-se. Passeia-se. Gosta de passear em grandes espaços verdes, por debaixo da sombra das árvores que, juntas e paralelas, formam avenidas. Gosta de estar sozinha. Sabe ouvir. Às vezes chateia-a que a procurem só para isso. Nasceu em França. Tem familiares e amigos no estrangeiro. Visitou até à data Espanha, França e Suiça. Gosta de saber segredos e de ver os bastidores do que quer que seja. Gosta de conhecer aquilo que não é mostrado ao público. Gosta do fim-de-semana e preferia que durasse três dias. Não vê as novelas da TVI. Nem o Herman. Gostava só de comer comida orgânica. E de ter painéis solares em casa. E um reservatório para armazenar água da chuva. E de aprender a cultivar legumes. Quer ter best-sellers internacionais. Não aprecia gente ruidosa, mal-educada e preconceituosa. Acha a Sheryl Lee um espanto, linda. Gosta de filmes de vampiros. Não tem dvd e tem pena. Não tem telemóvel. Não usa saltos altos. Por causa das costas. E dos entorses. Acha o preço das casas em Portugal um roubo descarado feito às claras. Chega sempre a horas. Ou adiantada. Não gosta de futebol, mas é do Benfica. Adora música. É preguiçosa. Analisando a sua vida sob a perspectiva católica conclui-se que acabará, decerto, no inferno. Acredita nos seres humanos – nas suas falhas. Gostava de conhecer os Neandertais. Adora o Bugs Bunny. Gosta de filmes com legendas e de ouvir as vozes originais. Gosta de tomar banho e de água quente. Quase morreu quando nasceu, não respirava. Começou a falar aos quatro anos. Cortava o cabelo às Tuchas. Na infância gostava de filmes de detectives. Adorava Hitchcok. Não conta muito sobre ela. Esconde bastante. É desconfiada. E paranóica. Já teve mais medo do dentista. Gostava de saber voar. Gosta de ser muito bem tratada. E de estar confortável. Usa óculos. Acha o assassinato de homossexuais por serem homossexuais uma abominação. Acha igualmente abominante o encarceramento de crianças. Estranha as pessoas boas morrerem cedo demais. É egoísta. Dá sangue. Nunca partiu nenhum osso. Não estranha o estado do mundo – só a entristece. Tem um problema nos olhos de que nunca mais se vai livrar, disse o médico ao fim de meses de tratamento. Fixe, pensou ela com cinismo. Acha o sistema de justiça, político e de saúde em Portugal uma farsa. Perpetuada no tempo. Quem é que leu isto tudo até ao fim?

sábado, agosto 13, 2005

Frases com que devíamos brindar todos os dias certas pessoas:
- 'Tão, pá, Ainda Não Te Prenderam?!

Mas com um sorriso, sempre com sorriso.


Todos os dias.


Toda a gente.



Epá, se calhar devia fazer uma petição online.



Tortura psicológica porque castigo a sério nenhum deles o irá sofrer.


Hoje estou azeda. Tenho de pedir desculpa à alma. Ela quer serenidade e ausência de julgamento, mas
eu, pá, eu olho para o meu país e sinto-me incapaz de não sentir raiva e nojo.

Não é justo, penso, quando assisto ao desenrolar de certos acontecimentos.
E depois penso que a justiça, verdadeira, tem seguramente de existir.
Caso contrário a vida não serve para nada.
E não é que este gajo rebenta com o blog logo agora que decidi linká-lo?


Grande sacana, >:(


Mas que mania esta de apagar o passado.
Penso


Penso no caso Casa Pia e que a nova ditadura se instala em Portugal e na Europa, brevemente, se não já hoje, seremos presa diária do terrorismo estatal; penso que é bom ter de novo um gato, mesmo que não seja meu e se esquive e não me deixe tocá-lo; penso que já estou farta do ioga e devia regressar aos pesos; penso que sete da manhã é muito cedo para me levantar e que as Sextas e os Sábados são dias óptimos porque não tenho esse problema.

Penso que certa pessoa já devia estar no olho da rua há muito tempo, ou preferencialmente no chilindró; penso que a falta de ética e a falta de verdade explicam o fraco progresso luso (verdade para fora: de nós para os outros; e verdade para dentro: de nós para nós); penso que se calhar o melhor é emigrar, este país daqui a escassos anos será um verdadeiro deserto, um mar de areia de norte a sul. Talvez a solução seja importar nórdicos, os seus valores e princípios morais.

Penso que devia estar a escrever outra coisa que não isto e que devia terminar “A Linha de Sombra” do J. Conrad. Escreve bem, o gajo. Escreves bem, pá!, grito eu para o navio.

Ah – tenho de ir verificar o chá.

Ando a ler também “O Homem que Amava Cerejeiras” de António de Cairu. Fabuloso. Transfusões de chá. Um tipo apaixonado por uma cadeira. Peixes de aquário que falam. Esquisito, como eu gosto. Adoro livros esquisitos. Escrevi um esquisito: “Senhor Bentley, o Enraba-Passarinhos”. (Relembro: sai no próximo ano.) Quero ver se consigo fazer mais livros estranhos. Talvez pôr nele um hipopótamo e levá-lo ao Tamisa. Ou Tejo, por ser mais perto. Num livro antigo inventei uma tartaruga voadora e noutro um dragão que falava à çopinha de maçça, pitosga e apaixonado pela Ponte Vasco da Gama.

Sim, gosto muito de livros esquisitos.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Considerações sobre o caso que toda a gente conhece


Já percebi aquilo do HJ. Ele tem uma grande máquina atrás dele. Uma máquina mediática, com muito poder, nascida e criada no poder, por influentes forças políticas, com imensos laços aí por esse Portugal (e não só, presumo). Muita gente de rabo preso, isto na gíria brasileira. Se o HJ cai imagino que terá aversão a cair sozinho. Pode arrastar muita gente com ele para a lama e o opróbrio. Gente poderosa que conhece mais gente poderosa – e nenhum deles gosta da lama, é tudo gente muito limpinha, com fatos limpinhos, BMW’s limpinhos, contas bancárias limpinhas e imaculados princípios éticos (ok, esta última era a gozar). Por isso unem-se, formam uma grande barreira, e por meios mediáticos (já que não há verdadeira concorrência neste país, muito está nas mãos de poucos) laboram na colectiva lavagem cerebral a este povo luso saloio e acrítico.



Acertei?


Sentem-se como ovos em cima do muro, em frágil equilíbrio, portanto atapetam o solo em algodão fofo – não vá o diabo tecê-las e o juiz RT regressar.



Eu realmente devia deixar de ser tão cínica. Faz-me mal ao fígado.


Mas, por outro lado, a exposição anterior não explica a queda irremediável do CC, qual anjo caído do céu. Se safaram um, porque não dois? Safar no sentido de afastar o veemente opróbrio público. A “Máquina” podia apoiá-los a ambos. Porque apenas um continua a ser saloiamente bajulado?




Alguém me explica...?

quinta-feira, agosto 11, 2005

Eu não percebo como é que o Herman José se tem safado do repúdio público generalizado.



Porquê?

E depois há estas merdas.


Raio de país.

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Bom, notícia pessoal.

Tenho um gato. É capaz de ser uma gata.
Quer dizer, não é bem meu (ou minha). Apareceu por cá com fome. Dou-lhe comida e abrigo à noite. Não se deixa tocar. Tem medo. Foge. Mas come a comida toda, o sacana.

Nem uma festinha lhe posso fazer.
Não acho o acordo lá muito justo >:(

Quer dizer, eu dou-lhe comida, água, um sítio para dormir e ele - não me dá nada.

Ai... *suspiro*

sexta-feira, agosto 05, 2005

Há tanto tempo que eu não escrevo poemas.

Tenho saudades.
E Se...


E se o nosso amor fosse todo feito de nuvens, das brancas e impolutas, que se desfazem no céu pela acção do vento brando, que nos tocam o rosto sem as sentirmos e se dividem no vazio em pedaços ínfimos, invisíveis a olho nu?, pergunta ela.
Parvoíce, diz ele. É impossível que este amor não seja assim para sempre.
Não creio. Ainda ontem o teu olhar divagou quando estavas perto de mim, quando nunca divagara antes. E nem foi pousar numas pernas, belas, jovens, desconhecidas, mas no nada e depois deslizou para o horizonte. Creio que se deslocou para longe, para a última rocha à saída do porto, aquela que mata os navios, os arromba, que lhes estraçalha o casco, mesmo os duros e fortes. Mesmo os impenetráveis e invencíveis. Como o Titanic.
E se as flores como os lilases, continua ela, caíssem à nossa volta, não teriam perfume, não teriam cor, nem textura. O seu brilho esmaecido reflectiria o nosso. Eu lembro-me do tempo em que os teus olhos eram pérolas brancas a olhar para mim, diz ela. Pérolas líquidas como se o mar jorrasse sémen marítimo na minha pele branca. Mas o brilho dos teus olhos ofuscava-a, tinha uma brancura superior.

[Escrito ontem, no trabalho, num momento de pausa. É pena serem tão breves... :/ ]

quinta-feira, julho 28, 2005

Quatro meses para escrever quinze mil palavras. Demorei. Agora tenho de fazer uma última revisão à A Imortalidade.
Depois coloco aqui o texto completo.
13º e último capítulo d'A Imortalidade

Observo a mudança do dia para a noite através da alteração da luz que ilumina a sala. Pouco a pouco os meus sentidos vão despertando, saindo do embrulho de gaze que os envolve. No segundo dia após Evangeline ter partido há uma explosão súbita dos meus sentidos, que se intensifica ao raiar do terceiro dia.
A plenitude aromática assalta-me as narinas como um exército combatente. Sinto a pele formigar no embater das moléculas. Todo o meu ser arde absurdamente, por dentro e por fora, num género de fogo místico e real, um fogo que me consome se não o apagar, um lume que devo suprimir cumprindo qualquer coisa, mas o quê não me é claro. Aspiro o cheiro da última página do quinto livro a contar da esquerda, na segunda fila de cima, sito na sétima estante – sei o lugar exacto de onde emana cada imperceptível odor. Conheço a localização dos insectos pelo seu cheiro e também pelo som que as patinhas produzem percorrendo os minúsculos e obscuros buracos abaixo do solo. Eu até oiço o mastigar desdentado das minhocas, lesmas e caracóis. Ao princípio abateram-se sobre mim numa homogénea multiplicidade, indiscernível, mas em breve fui capaz de os distinguir, incluindo o de Evangeline, ainda presente no sofá. Tinha a forma que o seu corpo ocupara. Depois, olhando para trás, aspirei o percurso que ela fizera desde a cela. Eu consigo cheirar os seus passos, o ondular do cabelo e vestido, o movimento pendular dos braços.
Os sons derramam-se sobre os meus ouvidos num conjunto escaldante, enlouquecedor. O som da erva oscilante, lá fora, o das moscas, mosquitos e cigarras, o som do suave crepitar dos livros e da madeira, o som da casa a envelhecer lentamente, o som do ar que me circunda.
A visão magoa-se com a luz solar. Não a suporto. Choro se mantenho os olhos fixos para a janela clara por mais de dois segundos. Recuo para as trevas e sinto-me subitamente bem, como se no ventre materno, no ninho. Do escuro vejo os móveis, as paredes, a divisão claramente na sua crueza, percebo maiores detalhes e com melhor percepção do que se estivesse lá fora, sujeita ao sol do meio-dia, e ainda mortal.
Mortal. Já não o sou.
Apreendo-o, de improviso, e não apenas por causa da brusca explosão dos sentidos (o simples roçar arrepia-me as estranhas como se eu fosse um violino com as cordas no interior, o toque intensifica o fogo inicial, para o qual não achava explicação e não sabia como extinguir), mas devido também à aterradora resposta para a solução final do lume a consumir-me de dentro para fora com crescente intensidade.
O lume é o apetite. E só o apagarei ao saciar-me, cedendo ao trovão ribombando nos ouvidos. Bebendo sangue.
Nunca tive tanta fome na minha vida. Comeria qualquer maltrapilho leproso e pestilento que me apresentassem. Comeria um cadáver se a carne ainda permanecesse morna ao tacto. Sorveria os fluidos putrefactos de um defunto posto na terra há anos. Qualquer coisa. Eu tenho de comer. É demasiado forte. Um imperativo físico igual ao acto de respirar para os humanos.
Os ouvidos detectam movimento abaixo dos pés. Com uma força que nem sonhava possuir esmago o chão com os punhos, esgaravato entre o cimento e a terra, que pus à vista fazendo uso das unhas a caminho de se tornarem garras, mas ainda sensíveis. Arranco algumas. E, com cuidado, pego na centopeia e amasso o seu corpo, deixando as pequenas gotas escorrerem na língua. Não chega. Açula-me o fogo.
E, num flash, vejo quem me poderá matar a fome.
O meu marido.
O horror daquilo que pensei abalroa-me. Mas a fome é tamanha. Recuo para o nicho mais escuro, debaixo da biblioteca. E choro. Grito, berro. Não reconheço os urros. São sub-humanos. Tenho as pernas dobradas, encostadas à barriga, seguras nos meus braços. Olho o tempo todo para a porta. A porta tentadora. Eu consigo, eu sou capaz. De resistir a isto. Sou capaz. Vou ser capaz. Sou. Sim, que me queime o lume por dentro. Não vou abandonar a pouca humanidade que me sobra. Não cederei à terrível tentação. Ela sabia. Cabra. Sabia que eu pensaria nele. Calculou que fosse a correr para casa e o matasse como um animal. Cabra, cabra!
Não. A culpa é minha. Não imaginei que o génio mau da lâmpada se libertasse sozinho.
Tento adormecer, contudo os sentidos em alerta impedem-me. Banho. Água. Preciso de um banho quente. Preciso de investigar o resto da casa, encontrar o quarto-de-banho, mas receio passar perto da saída e ceder à fome. Fico quieta, os olhos arregalados para a saída, as unhas a rasgarem as calças e a enfiarem-se na carne.
Resisto. Consigo resistir.
Consigo resistir.

A luz já não me magoa a vista. É uma fonte de prazer que me aquece o sangue e desperta o apetite. Mantenho-me o mais longe dela. E recolho-me à praia, ao anterior caos apaziguador. Já não resulta. Eu hoje sou aquela paisagem destruída. Tento fazer sentido disso tudo, do porquê.
Chego à conclusão que Evangeline era a minha sombra, o meu negativo, e que fui ao seu encontro com o fim inconsciente de me tornar um ser completo. Era o destino. Foi ele que me colocou no seu caminho, me indicou a direcção. Tem de haver uma razão para isto. Tem. Um propósito final, transcendente. Passei a existência a evitar o lado sombrio, a recusar o abismo. Agora não tenho escolha. Tenho-o em mim. Eu sou o abismo. Pondero se devo abraçá-lo ou não, se o devo manifestar. Estou viva, mas será necessário que mate para permanecer viva? Evangeline não comeu durante seis anos e meio e reteve ainda muita força. Não acho que seja necessário beber dos outros. Rejeito a tentação, mas não o abismo pois ele já me preenche. Eu caí e não há volta. E, pela primeira vez, sinto-me, por entre a dor física e psicológica, completa. Inteira. Eu própria. Sem máscaras. Sem cedências nem submissões. Vivo a minha verdade. Que é uma verdade terrível, o que não me consola em nada. Esta verdade íntima aterroriza-me, mas é quem eu sou. Já não posso fugir da sombra. Ela apanhou-me.

Leio livros. À noite. Evito o dia. A fome não amainou, mas descobri que, juntamente com a extraordinária força física, possuo grandes reservas de força mental e sou capaz de exercer autocontrolo.
Comecei numa ponta. Acabei de ler os livros situados na primeira metade da formação em U da biblioteca. Demoro tempo a saborear as palavras, os cheiros dos tomos, a imaginar a acção. Desconheço há quanto tempo aqui estou. Não conto o tempo. Durante o dia interno-me no nicho mais obscuro que encontro, dentro da casa cujas restantes divisões investiguei, e leio o Tao Te King de Lao Tse cem vezes. Mil vezes. Até a luz solar partir. Então retorno à biblioteca. E prossigo. Sem nunca deixar de sentir as picadas depauperantes da fome. Por vezes vou ter com Aníbal e leio algumas passagens das obras. Não devia, mas tenho pena dele. Não tem sequer o escape da morte. Para mim a morte é possível ainda. Pesquiso sobre o assunto, na ciência, na ficção. Como poderá um vampiro morrer de facto? Não confio nos mitos. Um dia quando for assolapada pelo desejo da morte, desconfio que rapidamente descobrirei um método, ou melhor, que outros o descobrirão por mim, basta dar-lhes a oportunidade.


O espelho reflecte a imagem de um corpo anoréctico. Evangeline não estava assim. Pondero que em trezentos anos acumulou força e poder. Era preciso muito para a quebrar. Eu nunca bebi sangue, nunca me alimentei. Talvez esta seja a via para a morte inevitável. As picadas da fome por vezes desvanecem e a cabeça fica-me leve. Retornam menos fortes. Mas a presença da fome é suprema. Diminui de força em apenas um a dois por cento. Quantos anos levarei até que desapareça? Até me tornar um esqueleto vivo?


Escuto passos e a seguir o abrir da porta da entrada. Assusto-me como um animal acossado, um coelho perseguido por cães de caça. Escondo-me atrás da estante. Domino-me e avanço para ver dois miúdos com cerca de dezasseis anos.
- Vamos embora – diz o rapaz, alarmado.
- Não, vamos ver o resto – contrapõe a rapariga, imprudente e vítima da mesma curiosidade que eu.
Mas ele não a ouve. Agarra-a pelo pulso e leva-a daqui para fora. Nunca mais voltaram. Não consigo reprimir o pensamento de que tinham os dois um ar apetitoso. E as roupas. Eram... diferentes. Há quantos anos estou cá?
Nessa noite arrisco ir à rua. Avanço cinco tímidos passos após transpor a porta. Rapidamente volto atrás, com o terror do que poderia encontrar lá fora. Que horrores me esperam ali? Prefiro ficar. Aqui estou segura. É ainda cedo para morrer. Não acabei de ler os livros.


Li a biblioteca inteira mais do que uma vez. Há várias semanas que não consigo ignorar a fome, como dantes conseguia. Mergulho a atenção no Livro da Via e da Virtude de Lao Tse.
Lê-lo é como fazer auto-hipnose. Este livro é a minha salvação.
Então, de repente, a meio da leitura, sinto uma presença atrás de mim.
Volto-me e vejo Evangeline. Ela regressou.
Quer levar-me com ela.
Quer que eu seja a sua companheira, a sua irmã. De infortúnio. Os vampiros, na terra, duram muito pouco e ela está sozinha. Só, como eu.
Traz-me sangue dentro de uma geladeira de aspecto futurista. Não reconheço o design demasiado avançado. Está repleta. Não esperava encontrar-me viva. Veio, mesmo assim.
E eu... bebo. Esgoto o sangue em minutos. Bebo cada gota. Como se bebesse, sedenta, de uma nascente de pura água fresca. E de súbito sinto brotar em mim uma misteriosa força anteriormente adormecida.


Escrevo no presente porque é nele que vivo há décadas – um presente infernal.
Aceito a fome. Aceito que a devo saciar. Aceito-me.
Vou com Evangeline. A porta da casa cerra-se, por fim.


A quem ler isto: fecha tu também a porta pelo lado de fora. Eu posso voltar. Eu posso já estar aí no interior. A observar-te. Das trevas.
E com fome.


Muita fome.





FIM





27 de Julho de 2005

(Restantes capítulos aqui.)

sábado, julho 23, 2005

Um dia vou ter de escrever sobre a liberdade.
O tipo era brasileiro.

"Polícia britânica confunde brasileiro com terrorista e mata

A Scotland Yard matou o mineiro Jean Charles de Menezes, 27, na estação de Stockwell, no sul de Londres, após tê-lo confundido ontem com terrorista ligado aos ataques de quinta-feira (21) na capital britânica. Menezes era natural de Gonzaga, no interior de Minas, e vivia há cerca de quatro anos em Londres como eletricista.
(...)

Hoje, a Scotland Yard admitiu o erro. A versão da polícia britânica é a que o homem foi atingido cinco vezes na cabeça depois de ter se recusado a obedecer a ordens da polícia de parar dentro de um vagão do metrô."
Um homem morrer nestas circunstâncias é uma tragédia e a Polícia Metropolitana lamenta", afirmou a Scotland Yard.
A ação ocorreu na estação de Oval, também no sul de Londres, onde na quinta-feira um suposto terrorista deixou uma mochila com uma bomba que não chegou a explodir. Ainda segundo a polícia britânica, o homem tinha saído antes de uma casa que era vigiada pelas forças de ordem por suspeitas de que pudesse ter um vínculo com os atentados de quinta-feira contra três estações do metrô e um ônibus.
Menezes teria pulado as barreiras da estação e entrado em um vagão de trem sem atender às ordens dos policiais(...)."
"(...)the suspect jumped on the train. Two witnesses said that as he entered the train he tripped, ending up half in and half out of the carriage, on all fours. Within seconds, as the clock tower outside the station chimed 10am, the officers caught up with the man and pushed him hard to the floor. Witnesses said that they then fired up to five bullets into him at close range, killing him instantly."

Link para a notícia.


Vejam lá, no Metro, se estão atrasados ou uma merda qualquer: não corram. Ainda levam com cinco tiros nos cornos.

Eu, realmente, acho que é preciso ter muita coragem para disparar cinco vezes sobre um homem Já Dominado.

G'anda polícia britânica. Fáxavor. Estilo do caraças.

sexta-feira, julho 22, 2005

Capítulo 12 d' A Imortalidade


“Passei a vida a fugir, a correr de um lado para o outro para evitar ser descoberta, capturada e destruída. Tudo o que eu sempre quis foi permanecer num sítio e ter um lar e uma família para amar e que me amasse e aceitasse tal como sou. Mas fui obrigada a fugir, a fugir sempre. O dinheiro pode solucionar certas dificuldades, mas não as piores, há casos de que nem toda a prata do mundo te salva. Conheci outros como eu, sem engenho, mortos em poucas horas, poucos dias ou semanas. Os mais argutos sobreviveram um a dois anos.”
Silencia-se e analisa-me a fisionomia, tendo a satisfação discreta de presenciar a crescente evidência do medo no meu rosto entorpecido.
Prossegue.
Noto que não tem pressa em partir. Depois de sete anos fechada não correu para o exterior. Após tanto tempo, compreendo, precisa de alguém a quem contar a verdade. E eu não posso fugir. Desta vez sou eu que estou presa. A psicóloga de serviço.
“Passei a vida a correr, a esgueirar-me, a abandonar tudo. A escapar-me às crescentes interrogações dos outros, ao seu olhar inquiridor, às questões às quais não dava resposta ou resposta vaga e insuficiente. Estou farta, farta de não poder ser eu própria. Nos momentos de desespero indescritível contemplei com seriedade a hipótese de terminar a vida.”
Mas mudava de ideias na manhã seguinte.
O desejo de viver era forte demais.
O dinheiro permitiu uma liberdade inicial, porém cedo realizou que a verdadeira segurança estava noutro sítio: fazendo parte de famílias mortais, como criada ou governanta ou ama ou enfermeira. Vivendo como eles. Ingerindo da sua comida e bebida e mais tarde vomitando-as por não poder suportá-las. Mas, pela segurança de estar num meio familiar, e também pelo desejo de ser integrada numa verdadeira família, ela fazia os sacrifícios necessários.
Teve vidas piores e melhores.
É o que lhes chama: vidas.
(Continua.)
Capítulo 11 d' A Imortalidade

Abro os olhos. Não vejo nada. Está escuro. Sou de pedra! Por Deus, sou de pedra. Oiço um riso débil, ao fundo. Depois, por cima do meu rosto aparece o de Evangeline, sorridente. Consigo distingui-la a ela, aos olhos azuis, aos dentes pontiagudos e perfeitos, mas como se envolta numa faixa de gaze. O seu cabelo roça-me a pele, mas não o sinto. Eu não sinto nada, nada!
Evangeline debruça-se sobre o meu corpo, pega com cuidado em mim e leva-me para o sofá. Estou desconjuntada, como uma velha boneca de trapos, tal qual os cadáveres que, antes de enrijarem, ficam moles, flácidos. Não sinto o seu toque na pele, não sinto a pressão dos braços na carne. Súbito apercebo-me que não discirno já o cheiro da sala, que a minha boca não tem sabor e que o silêncio me chega entrecortado, desconectado, por entre os ligeiros ruídos feitos pelos movimentos de Evangeline. É isto a morte. É este o verdadeiro inferno. A curiosidade perdeu-me. Nunca serei absolvida por este pecado.
Evangeline segura um objecto frente aos meus olhos.
A chave.
Continua exibindo o discreto sorriso de triunfo.
Ela subtraiu-ma. Surripiou-a quando me agarrou e prendeu. Por isso é que me largou de imediato. Já tinha o desejado. Compreendo que o sono e cansaço juntos fizeram com que não prestasse atenção. Se estivesse atenta notaria que fizera o mesmo a Aníbal: o agarrara, depois de beber o sangue, por motivo idêntico, tirar-lhe a chave. Revistá-lo. Mas ele escapou-se. Era essa a sua estratégia. Aproveitar o instante de indisposição e furtar-lha. Não resultou. Comigo sim. Porque sou idiota e dada a tentações. Enfim o abismo derradeiro está comigo, aqui, e habitar-me-á até ao final dos tempos. Fui tão burra que me esqueci estar ainda em posse da chave.
Guarda-a num colar que põe em redor do pescoço. Diviso-a com maior nitidez. Descaio, no sofá, ficando numa posição patética, mas ela não se ri. De ar compenetrado acomoda as almofadas à volta do meu corpo para que fique direita, fitando-a.
E começa.
A contar-me a verdade.


“Mortal idiota”, diz. “Imbecil. Julgas que após três séculos a sobreviver eu morreria ali, naquele antro? Julgas que não escaparia? Em trezentos anos escapei a situações piores do que esta. Quase fui queimada, enforcada, decapitada, mas consegui sempre esconder a condição imortal de humanos menos infortunados de inteligência do que tu. Apodreci neste cativeiro aviltante por sete longos anos. Aníbal é de pedra há seis anos e meio. E tu...
O teu destino não será menos terrível.
Vês o quadro?
O vestido. Ele mandou-o pintar, dez anos após termos sido retratados. Originalmente visto a farda de ama. Sim, eu era a ama de Aníbal. Desde os seus oito anos. Ali tinha dez anos.”



Estou desprovida de sensações. Nem o meu corpo pode expressar o terror que sofro na alma. Não sinto o coração galopar nem arrepios a percorrerem a espinha nem os pêlos da carne a alvorarem de medo. Nem sequer o som da respiração. Eu já não respiro. Eu já não respiro.
A primeira coisa que fez, quando foi transformada em vampira, foi dirigir-se à casa materna e comer a mãe, os irmãos e irmãs, tal era a força selvagem da sua fome.
Mas fora movida também pelo ódio e fundo ressentimento. Ela tinha-me mentido o tempo todo. Porque não dei eu ouvidos ao instinto? A sua família de sangue desprezava-a. Porque se amancebara. Porque, conforme as normas morais da época, era uma pobre alma perdida, merecedora de compaixão na teoria, mas recebendo na prática apenas mirares e epítetos acusadores. Evangeline não tivera escolha. Ou se amancebava ou morria à fome. Escolheu viver. Essa é a sua força: ela escolhe sempre a vida, seja qual a forma. A mãe cuspiu-lhe na cara o asco azedo do seu ódio. A mãe não amava os filhos, tinha-os, mas não os amava. E a pobreza crónica agudizava o desafecto. Dos irmãos e irmãs, de quem esperava a mínima compreensão, colheu pauladas, nomes vis, pontapés, estaladas, murros e a expulsão de casa, de onde saiu correndo, tapando os seios por lhe terem rasgado o vestido.
Voltou uma vez para reatar relações, meses após se ter mudado para a residência de D. Raimundo. Tencionava amaciar-lhes a disposição com o dinheiro do amante. Trouxe uma bolsa com moedas de prata. Recebeu tratamento idêntico e ainda lhe roubaram a bolsa sem se dignarem a um simples obrigado. Quando o dinheiro acabou dois irmãos visitaram-na exigindo mais, como reparação das ofensas insanáveis causadas por ela ao nome honesto da família. D. Raimundo entrou a meio da discussão, atraído pelo berreiro. Ao conhecer o sucedido mandou os criados expulsar os intrusos e pôs Evangeline de cama durante uma semana, depois de a ter gravemente sovado, por ter tido a audácia de se apropriar do seu dinheiro.
Evangeline era uma alma infeliz. D. Raimundo mantinha-a quase tão pobre como antes, mas ao menos possuía o conforto que jamais julgara ter ou merecer: um telhado sobre a cabeça, os seus próprios aposentos, e comida farta sobre a mesa. Não passar fome era o superior dos luxos. Mesmo as vestes baratas que lhe comprava eram mais sumptuosas do que os trapos de antigamente. Não lhe dava dinheiro, porém. Tratava as moedas de ouro e prata como filhos dilectos, acariciando-as, prodigalizando festas ao metal luzente e roçando os lábios nas bolsas cheias. Ter Evangeline subtraído uma das bolsas menos gordas das centenas que D. Raimundo possuía, foi como uma ataque à sua essência, um golpe profundo no coração. Evangeline aprendeu com a experiência e nunca mais se aproximou, nem sonhos, do dinheiro.
Odiava o velho igualmente por outras razões. O seu toque nojento, asqueroso, fedido, que tinha de suportar na pele, noite após noite, causava-lhe uma intensa náusea e crescente desprezo e animosidade. Ele servia-se dela sem considerações pelo seu pudor nem respeito pelo corpo. Usava-a como um alforge é usado para ter coisas, objectos. Engravidava-a vezes seguidas, pouco se incomodando com as recomendações dos físicos que lhe diziam ser a morte de Evangeline segura se tornasse a emprenhar. Não obstante persistia a forçar-se a ela, noites seguidas. Que lhe importavam os abortos sucessivos? Ao menos não lhe nasciam bastardos. Que lhe importava que morresse? Bastava arranjar outra jovem esfomeada que consentisse os maltratos em troca de comida. Arranjaria outra encardida, outra pequena rameira que iria educar primorosamente. Esta tinha-lhe dado certos trabalhos. Podia morrer à vontade. A próxima seria mais submissa.
Mais submissa que Evangeline, à época, seria impossível encontrar. Ela fazia os possíveis para não ser vista, não ser notada. Não abria a boca e concordava com o que quer que D. Raimundo proferisse, se acaso lhe dirigisse a palavra, o que raramente acontecia. Até os criados a menosprezavam, considerando a sua condição inferior à deles por ser barregã.
O toque e cheiros emanados de D. Raimundo: isso era o pior de tudo, mas cerrava os olhos e esperava que retirasse o seu corpo pesado e fedorento de cima de si, tentando adormecer rapidamente.
Foi, já saciada de uma maneira que nunca a comida o fizera, ao encontro de D. Raimundo. Mas descobriu que havia lugar para muito mais do que consumira. Se não da carne, pelo menos do sangue.
Encontrou-o a contar as suas amadas sacas de dinheiro. Sem se dignar a olhá-la ordenou com rispidez que se fosse, mas, compreendendo que Evangeline permanecia quieta, ergueu-se na intenção de a disciplinar com as costas da mão fechada quando, para seu indizível horror, viu que estava coberta dos cabelos aos pés de sangue molhado, seco e em vias de coagulação. Tentou gritar, debalde porque emudecera de um momento para o outro. Evangeline avançou para a mesa e ele recuou, encolhendo-se debaixo dela, espalhou o pecúlio de uma saca pela divisão num movimento de braço seco e brutal. A seguir baixou-se, puxou-o para fora do refúgio e antes de o matar torturou-o lentamente, arrancando pedaços largos de carne: parte do rosto, das coxas nutridas, da barriga das pernas, do estômago amplo e dos braços, deliciando-se no sangue que acabou por cuspir por não querer mais nenhum dos seus fluidos repulsivos a circularem-lhe no corpo.
Evangeline ficou com o tecido das vestes de D. Raimundo preso nos dentes. Retirou-o e decidiu ser aconselhável guardar o ouro, levá-lo consigo. Por esta altura a sua força já era espantosa e tinha também esquematizado o plano que lhe permitiria escapar e começar vida nova, incógnita, longe daquele pardieiro e dos que a haviam injuriado. Partiria. Iria viajar. Conhecer novas terras.
Matou os criados, um a um, e saiu, depois, em busca de uma jovem mulher burguesa da sua estatura e do seu tipo físico. Não importavam semelhanças de rosto. Ela resolveria isso.
Se eu pudesse sentir, estremeceria, mas os sentidos continuam num embotamento obstinado.
Encontrou-a facilmente.
Na noite escura e sem lua Evangeline via claramente como se fosse dia e possuísse olhos felinos.
Quebrou-lhe o pescoço e pô-la em cima do ombro como uma saca de batatas quase vazia. Em casa vestiu-a com as suas roupas, que depois rasgou em parte, e em seguida mordeu-lhe a carne ainda morna. Por fim com os dentes e as garras afiadas arrancou-lhe o rosto.
Deu um último olhar avaliador à casa onde viveu dez anos, agora mergulhada no caos e coberta de sangue pelo chão, móveis e paredes, antes de amarrar o saco à cintura contendo as moedas de ouro e prata e partir envolta numa capa castanha escura que a cobria de cima a baixo. Tomara banho e vestira as vestes da jovem burguesa.
Soube, anos mais tarde, que a manha resultara: julgaram-na morta e condenaram dois pobres desgraçados que nada tinham a ver com o massacre. Evangelina não mostrou arrependimento com a sua morte indevida.
- Ah – inclina-se para a frente, os nossos olhos estão ao mesmo nível, - a luz do dia não nos mata – confessa, risonha.
Outra mentira. Apenas outra das dezenas com que me alimentou.
Permanece a observar-me, sem se recolher para trás, expectante de algo, talvez da luz do reconhecimento no meu espírito
- Percebeste? – pergunta, enfim.
- Pisca os olhos se percebeste.
Não faço nada. De facto não entendo o que me tenta dizer.
- A luz do dia...
Detém-se.
- ... não nos mata.
E de imprevisto faz-se luz. É claro, claríssimo como água. Súbito as anteriores palavras descortinam o verdadeiro significado: o teu destino não será menos terrível.
Ela transformou-me num destes horríveis seres! Ela converteu-me num ser vampírico! Condenada à imortalidade!
Serei como ela. Deus Nosso Senhor! Como ela...

terça-feira, julho 19, 2005


Magritte
Capítulo 10 d' A Imortalidade


O homem de pedra. Já que o foi na vida, assim permanecerá até ao final dos tempos.
Estou cansada. Nestas alturas é habitual a minha imaginação divagar. Saio do corpo, quase. O espírito solta-se e desliza, viaja para o mar onde escuto o eclodir oceânico das ondas, uma após outra, e me vejo sentada na areia, olhando a água e a espuma. Sozinha, sem ninguém ao redor. Posso ali ficar horas. Na praia, no interior da mente.
Aníbal cortou o pulso esquerdo com a faca, deixou escorrer o sangue para o copo e passou-o pelas barras. Evangeline aceitou-o fitando-o com um olhar sério e, em seguida, mordeu a mão, o monte de Vénus, fechou o punho, virou-o para o copo e os dois sangues misturaram-se.
Devolveu o copo a Aníbal que bebeu avidamente.
Ela deixou-o beber em êxtase arrebatado. Viu-o lamber o copo. Retirar com o dedo o mínimo vestígio de sangue. Observou-o, ávida, e na fisionomia o discreto sorriso da vingança animou-se, qual raiar de sol na paisagem invernosa. Aníbal sentiu-se subitamente indisposto, pensou que era de esperar, porém a náusea veloz cobriu-lhe a extensão da carne em segundos. Não compreendia. Evangeline nunca lhe descrevera isto. E num relampejar de consciência percebeu o que ela lhe fizera. Fitou-a de olhos arregalados, enclavinhando a mão enrugada no estômago. Percebeu que ela não lhe deu a vida, mas a morte. Vai morrer à mesma. Zonzo, cambaleou. “Porquê?”, exclamou, débil. Não atingiu haver pessoas que preferem a morte a cederem. Mas Evangeline não estava derrotada ainda. Quando ele se virou para o túnel ela projectou as mãos por entre a cela, agarrou o casaco e tentou prendê-lo, mas Aníbal escapou-se. Fugiu, aos arrastos, pelo chão frio do túnel.
E agora tem até ao fim deste ciclo temporal para se perguntar: porquê?, porquê? Porque o fez?
(Continua.)

sexta-feira, julho 15, 2005

mil e uma pequenas histórias

Parabéns! :)

Aqui fica a 1001.

Para andar, basta pôr um pé à frente do outro, e para se chegar ao fim, basta mais um passo. Escrever não é diferente, seja uma pequena história ou mil.

quinta-feira, julho 14, 2005

Em 2003 comecei a escrever Senhor Bentley, o Enraba-Passarinhos. Terminei-o em 2004 depois de uns meses de paragem. Eu escrevo melhor se tiver tempo para pensar nas personagens, na história. Podia tê-lo escrito num mês ou dois, mas não seria tão bom.
A 13 de Abril de 2004 enviei o manuscrito à editora Difel – recusa;
mandei-o à Temas e Debates a 17 de Maio e obtive recusa novamente;
concorri ao prémio literário de Loures – não ganhei;
remeti-o à Oficina do Livro - e de novo lá veio a carta de recusa;
despachei-o para a Âmbar (a recusa veio a 13 de Janeiro de 2005) e Asa a 9 de Novembro’04, a Asa devolveu-o a 15 de Novembro sem sequer o ter lido;
a 19 de Novembro enviei-o para a Bertrand Editora e até hoje espero resposta, tal como a espero da Bizâncio desde 27 de Novembro de 2004;
encaminhei o manuscrito, mais uma vez, para outra editora – a Cotovia – a 29 de Novembro’04 e conheci a recusa a 2 de Fevereiro de 2005;
mandei o Senhor Bentley para a Caixotim a 13 de Fevereiro e a recusa chegou a 13 de Maio’05;
da editora Âncora ela veio a 9 de Maio de 2005, depois de lhes ter enviado o livro a 10 de Março’05.
Bom, vou ser mais sucinta.
Afrontamento: mandei a 21 de Março de 2005, recusa a 6 de Abril.
Editorial Caminho: remeti o livro a 22 de Março de 2005. Sem resposta até hoje.
Relógio D’Água: 28 de Março de 2005. Sem resposta.
Presença: 15 de Abril’05. Recusa.
Editorial Notícias: 20 Abril’05. Sem resposta.



Edições Saída de Emergência: mandei o livro a 22 de Abril de 2005. Sem grande fé, esperando resultados idênticos aos anteriores.

Mas logo no dia a seguir ao editor ter recebido o manuscrito obtenho uma resposta positiva!

Em princípio Senhor Bentley, o Enraba-Passarinhos sairá no primeiro trimestre do ano de 2006.


P.S. Não contem. Eu poupo-vos o trabalho: foram 15.
[Correção: 16, aliás. A editora Q de 9 demonstrou interesse inicial, mas depois mudou de ideias. Até hoje não sei porquê.]
[Adenda: afinal foram 17. Esqueci-me de adicionar a editora Amores Perfeitos que queria que eu pagasse metade da edição.]

quarta-feira, julho 13, 2005

Digamos que, por hipótese, eu queira falar do Caso Casa Pia.

Com os pormenores todos.

Mas! Trocando o nome dos intervenientes por outros.

Tipo, chamo ao, coff, aquele gajo que tem um nome, tipo, assim, metalizado - chamo-lhe, por hipótese (estamos ao nível do hipotético, meus lindos), o Meireles.

Posso fazer isto sem correr o risco de ser processada por difamação?
Porque não há €€€€€ para andar a pagar a advogados e sei lá mais o quê.
Ou terei de esperar pela conclusão do julgamento? Mas aquela porcaria Nunca Mais Acaba! Vou esperar, quê, Dez Anos?!?!?!?

Quem tiver conhecimentos jurídicos, por favor elucide-me.
Se me disserem "não, não podes", lá chegarei à conclusão que afinal eu vivo em Portugal - a 24 de Abril de 1974.

Obrigada.

[Nevermind: parece que sim, que posso falar sobre o caso, hehe. * Does wicked smile*]

terça-feira, julho 12, 2005

!!!!!!!!!!!!!!!!!!CONTRATO ASSINADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!






'Tou contentiii... :D



(E graças a Deus que foi assinado antes de Mercúrio Retrógado...)
"Critics are like eunuchs in a harem: they know how it's done, they've seen it done every day, but they're unable to do it themselves."

Brendan Behan



LOLOLOL.
Cataplasma

A ler. Urgentemente.



















Merda de país.

sábado, julho 09, 2005

Mas quem raio é que me visita tanto da Noruega, porra?!

Dear norway visitor: who the hell are you?
Descubra as diferenças 2


De quando em quando, cidadãos portugueses que vivem nos EUA desde os dois ou três anos de idade, e que nem português sabem falar, são deportados para Portugal (geralmente para os Açores) por via de algum crime cometido em solo americano. Quando isto acontece os portugueses indignam-se. E com razão. Afinal alguém que vive nos EUA desde os 2 anos de idade é um produto da sociedade americana, e não é correcto obrigar Portugal a receber essas pessoas que nem português sabem falar.

Frequentemente, cidadãos não-portugueses que nasceram em Portugal, e outra língua não sabem que não o português, são deportados de Portugal (geralmente para algum país africano) por terem cometido algum crime em solo português. Poucos se indignam. Não são notícia de abertura dos telejornais. Afinal, se é para causar distúrbios, que voltem para a terra deles.



Não gosto de preconceitos. Quando identifico um em mim tenho vergonha. E acho inconcebível que se usem argumentos rotos como a recusa do "politicamente correcto" ou a "criminalidade" ou a tal da "insegurança" para desculpar comportamentos e opiniões racistas e preconceituosos. Nós não temos vergonha (nós, portugueses) em sê-lo. Ao contrário, por exemplo, dos ingleses. Enfim, ao contrário de povos verdadeiramente civilizados. Nós ainda não somos civilizados. Para lá caminhamos. Mas vai levar o seu tempo. Estar na Europa é o que nos safa. De outra maneira não haveria salvação para o crónico atraso luso. Atraso em tudo, não só económico, mas espiritual, emocional, Ético, etc., etc., etc.

Às vezes é tão bom saber que não sou a única a pensar e sentir desta maneira. Não estou sozinha. Porque, em ocasiões, dá-me a sensação que estou.

É por isso que ponho este texto aqui.



(trackback)

sexta-feira, julho 08, 2005

À malta que me visita da Noruega, Peru, Noruega, Noruega, Argentina, Noruega, México, Noruega - OLÁ.

'Tão bonzinhos, gaijos?

Sim?

Isso é o que se quer.

Saúde, saudinha é o que se quer!

quinta-feira, julho 07, 2005

bArafuNda
Capítulo 9 d'A Imortalidade



Tenho pena desta mulher. Pela primeira vez vejo-a como humana e não somente ser imortal, talvez superior aos mortais por ter vivido tanto. Uma deusa menor – era como a via. Entendo que as suas limitações são as limitações humanas. Entendo que ainda é humana. Nas palavras doridas intuo o rubro da alma. É forçoso que tenha alma, mas aprisionada naquele delgado corpo e carne pálida e bela, enredando-se nos cabelos áureos, e impossibilitada de escapar.
Os meus sentimentos de terror e desconfiança abrandam, juntamente com o bater do coração. Há quantas horas aqui permaneço? Não sei. Ela tem-me presa sem me prender. Poucos, até hoje, tiveram esse poder sobre mim.
Aníbal tentou efemeramente persuadi-la a dar-lhe a imortalidade. Era o único meio de enganar a morte. Franzo a testa. Que homem idiota. Prefere perder a alma a ganhar a verdadeira liberdade, pois que a morte traz a alforria, o cortar das limitações terrenas e fúteis. A morte despe e deixa à vista o espírito nu.
Tentou convencê-la por meio de palavras doces, vitimizadas súplicas, ameaças – sem êxito. Evangeline devolvia-lhe um olhar duro, imóvel, de ódio puro que substituíra o antigo amor, nada mais que a ilusão a que se pendera para poder lidar com a vida. Algures existia um homem que a amara e esse amor passado sustentara-lhe os dias.
A cruel realidade impunha-se, extirpando ficções com a dor da faca a esfolar pele viva. E agora era o asco que a alimentava e lhe escorava as horas.
Aníbal tem de a manter em boas condições físicas caso contrário a seiva de Evangeline não terá força suficiente para torná-lo num vampiro poderoso. O sangue fraco faria dele imortal, mas sofrendo à mesma de maleitas humanas, sem protegê-lo da intensa dor.
Por isso trazia-lhe comida. Rapazinhos e rapariguinhas para saciar a sua sede.
- O melhor sangue é o dos jovens – revela num malévolo tom espraiado dos olhos azuis em setas luzentes. – O vigor da juventude inunda-me e chego a sentir a capa da inocência que veste as crianças. É superior a todos.
Um arrepio palmilha-me de cima a baixo; os pêlos do corpo alvoram.
- Deus... – sussurro.
(Continua)
Solvstäg


A ler.

quarta-feira, julho 06, 2005

Ciberjus


Histórias da Justiça real

Em 2001, um indivíduo ouve o alarme do seu veículo, acorre e apanha o assaltante que agarra e apresenta à polícia a quem participa o crime.
Em 2003, batem à porta do mesmo indivíduo e ele verifica que se trata dum agente da autoridade que o vem notificar para comparecer em tribunal a fim de testemunhar no julgamento. Para seu espanto, a audiência para que é notificado, está marcada para Maio de 2005.
Em Junho de 2005, recebe uma notificação do tribunal comunicando-lhe que foi condenado na multa de 200 euros por não ter comparecido na referida audiência. Desloca-se ao tribunal para explicar porque se esquecera da data (dois anos é muito tempo) e fica a saber que o assaltante foi absolvido por falta de prova uma vez que ele era a testemunha da acusação.



Isto dá-me para rir para não ter de chorar.


domingo, julho 03, 2005

Capítulo seguinte da, hum, novela que ando a escrever para participar no Super desafio: Narrativa de ficção . O prazo termina a 20 de Agosto. Sim, deste ano. E sim, ainda têm tempo.

Deste vez coloco no blog o capítulo inteiro. (Restantes capítulos aqui.)



Capítulo 7


- A Imortalidade dá a volta à cabeça a qualquer um. Os humanos não foram desenhados para ela. Mas se o preço é alto é certo que vale a pena. Todos os prazeres que se obtêm, os próprios sentidos se afinam, e diante de nós estendem-se as Eras para experimentar o mundo e seus deleites. O mundo é dos imortais – conta.
- Não me parece que tenhas ficado muito contente de início.
- Isso mudou.
Evangeline está sentada no chão, as costas apoiadas à parede. Não me atrevo a aproximar-me. Sei que me agarrará e, para me causar o desmaio, usará o cheiro maldito. Percebo finalmente. É assim que faz as vítimas aquietarem-se. Não estou longe do túnel. Pronta para a fuga ágil.
- Em 1729 assisti ao matrimónio do príncipe D. José com D. Mariana de Bourbon. O fausto, a majestade do evento. Foi muito bonito. Sumptuoso. Continuava bela e jovem. A cada dia a minha beleza engrandecia. Convidavam-me para tudo. Tive amantes. E como não podia ter filhos diverti-me.
- Informaste D. Raimundo do facto?
Por um segundo olha-me de soslaio com má cara, mas desvia a vista e responde:
- Não quis preocupá-lo ainda mais. Não lhe podia dizer o que eu era. Um... outro ser. Nesses tempos uma palavra, por mais casta, dita no sítio desacertado, atraía os grifos da Inquisição. Se lho confidenciasse estava não só a colocar a minha vida em risco, mas também a dele. E a da minha pobre família.
Não contesto. Isso surpreende-a. Esperava que eu argumentasse. Prossegue o relato da sua existência nos três séculos. Conhecera festas e luxos intimamente; encetara viagens à volta do globo; vislumbrara coisas hoje incógnitas ou desaparecidas.
As suas palavras seduzem-me, atiçam-me o imaginário, despertando a adormecida vontade de viajar e conhecer o mundo. Tanto de mim foi abafado depois de me casar, por razões económicas como práticas como... por outras que nada têm a ver com o meu marido. Se não temos dinheiro nem vida para passar meses em viagem também é verdade que a ele o atrai a segurança quieta dos lugares que sempre conheceu. Não é homem de viagens e eu não posso peregrinar sozinha, fazer as minhas férias separadas, não porque mo proíba, não é ciumento, mas tão-só porque não temos possibilidades. E, de súbito, num jacto repentino, essa reprimida vontade de passear ressurge, atiçada nas palavras da vampira cativa. Pergunto-me porque me terei casado com ele. Somos distintos em aspectos fundamentais. Não consigo contar-lhe tudo e amordaço muito de mim para a relação não sofrer. Eu abdiquei mais do que ele, mas nunca o censuro por isso. A escolha foi e é minha. Mas porque o escolhi? Pela segurança que agora me oprime. Ele é a rocha que me impede de afundar. Providencia a sensação de solidez que me impede de lançar-me às águas escuras do abismo do meu lado negro. Não quero ser “boazinha”, mas das convidativas forças ocultas sei que não há retorno. Em ocasiões interrogo-me se me sabotei ao casar-me. Se esse abismo não será o meu destino derradeiro, apesar do que quer que eu empreenda para me afastar e levar uma vida normal.
Evangeline descreve paisagens de África em tempos coloniais; os nativos da Austrália e Nova Zelândia; os estranhos rituais da Índia. Não quero saber das horas. Não me importa. Quero ficar ali e sonhar, sonhar que sou eu a viajante incansável. Viajante verdadeira e não de livros pois somente através deles extingo um pouco a sede de partir sem rumo, sem bússola, sem propósito.
Não me incomoda o avançado da noite; se o meu marido chegou ou não a casa e encontra para jantar restos do almoço de ontem; se já é dia e me esperam no trabalho, para enviar facturas e se é o último dia para pagarmos a letra ao banco. Não quero saber. Fico. A escutá-la.
Subitamente Evangeline suspende o relato e observa-me fascinada pelo meu semblante atento, como uma criança no primeiro dia de escola.
- Continua.
- Não. Volta amanhã.
- Diz-me...
- Amanhã.
E depois disso recusa-se a falar, recolhendo para o fundo da sua prisão, cola-se à parede e eu deixo de a ver.
Ao meu marido, entrando em casa, não dou explicação nenhuma. Estou de muito mau humor. Receio dizer tudo sem conseguir parar. Ele não insiste porque me conhece a disposição.
No dia seguinte telefono para o emprego. Sim, continuo doente e não, não posso ir, estou indisponível durante uns dias.
Sinto que vale a pena perder o emprego por uma boa história – já que não a podemos viver.



- A luz do dia mata-te?
- Sim.
- Então como conseguiste viver ainda tanto tempo com D. Raimundo sem ele estranhar não saíres à luz do dia?
Esperava a pergunta.
- A minha passada fragilidade providenciou-me a desculpa necessária. Eu passava a maior parte do dia no leito e levantava-me após o sol-posto.
Evangeline alonga-se na narrativa; consegue descrever cada minúsculo detalhe, cada pormenor, põe os sabores das especiarias na minha boca e o ribombar dos sinos e rufar dos tambores nos meus ouvidos, e eu sinto-me lá, com ela, a sua sombra invisível.
Sou ingénua, admito. Basta pouco para me ganhar. Um elogio feito na hora certa. Se não fosse pela atenta vigilância dos meus pais, em criança teria seguido qualquer um, bastando que me oferecessem um sorriso terno, um doce gesto. O meu primo Dominique, mais velho dois anos, dedilhava, competente, essa corda em mim, contando-me histórias inacreditáveis. Convencia-me de tudo. Sim, à noite as máscaras de Carnaval ganham vida e mordem os pés dos dorminhocos (fê-lo várias vezes. Eu, aterrada, escondia-me debaixo dos lençóis). Na lua vivem gnomos verdes que nos roubam os presentes de Natal a não ser que os subornemos com doces e bolos. Adivinhem o intermediário destas trocas. Para não falar da altura em que fui caçar gambozinos com ele, munida de uma saca de serapilheira com o cheiro das batatas ainda fresco. Mas as suas histórias cativavam-me, prendiam-me. Vem dele o meu amor aos contos, às narrativas intrincadas e impossíveis. Fantásticas. Fora deste mundo. O meu primo Dominique, que eu adorava e adoro ainda, apesar de ter morrido num acidente de automóvel aos dezoito anos. Não morreu, não morrerá nunca, não enquanto eu oiça a sua fina voz de criança narrar-me contos singulares.
Mas se sou ingénua o facto é que Deus ou o destino ou a Natureza me dotaram de instrumentos para mitigar a candura. Quando algo não está bem, uma situação ou pessoa, sinto no estômago uma urgência, o corpo inteiro ecoa numa vibração desagradável. O espírito, ou o subconsciente, fala-me através da carne, da pele. Urge-me a que me distancie da situação, do indivíduo. A intuição jamais me falhou. Porém meto-me em problemas porque por vezes decido calá-la e escutar a voz da ingenuidade, da inocência. Quero acreditar que há mais inocentes neste mundo. Que o planeta é composto de inocentes. Que a pessoa à minha frente não representa um problema. É mentira, claro. Um auto-engano que me custa, no futuro.
Agora acode-me de novo a mesma intuição, a mesma premência do corpo, avisando-me do perigo. Sei que Evangeline me está a seduzir com a história e, se o permitir, provavelmente perderei a vida. Ela é como um mar calmo em que avanço, pouco a pouco, sem saber nadar, mas confiante, e de repente as águas agitam-se e eu estou demasiado longe da praia. A sua sedução é exemplar. Soube identificar em mim o ponto certo. Apercebo-me que foi essa a capacidade que a permitiu sobreviver durante séculos.
Levanto-me e parto sem dizer nada.
A sua cara demonstra pânico, os olhos muito abertos presos a mim, as mãos enganchadas nas barras.
- Não vás! Eu dou-te o que quiseres! Tudo, TUDO!
Já estou no túnel. Não me viro.
- A imortalidade! A IMORTALIDADE!
E então eu estaco. Uma onda de arrepio eléctrico, meio quente, meio fria, viaja dos meus pés à cabeça. O seu desespero deve ser colossal, penso. E novamente seduzida (não pela oferta, mas pela curiosidade que o seu terror me causou. Nas palavras gritadas eu senti uma verdade sua e pareceu-me, do início, que Evangeline poupava na verdade), retorno.
- Que farei eu com isso? Parra que me serve isso?
Fica uns segundos atabalhoada, sem saber responder.
- É uma dádiva... um dom se...
- Dom? Como o teu? Para acabar os meus dias como tu, sem sequer poder morrer? É esse o dom? Ou louca, como aquele que te fez assim?
- Não imaginas o que eu vivi, não podes imaginar. Cheguei ao futuro. O meu corpo é a máquina do tempo. Quero continuar a viajar no futuro. Também o podes fazer. Seremos companheiras.
- Não acredito. Tiro-te daí e a primeira coisa que fazes é matar-me. Não.
Engole em seco. Baixa os olhos. Não sabe como persuadir-me. Os olhos azuis perdem o brilho, momentaneamente esmaecem.
- Penso que é altura de começares a contar a verdade.
Ela fita-me num mudo espanto.
Sento-me, de pernas cruzadas, frente à cela.
- Diz-me a verdade. Depois julgarei se te liberto ou não.
Faço um jogo perigoso, mas o desejo de saber sobrepõe-se à precaução.
- Seja – e os lábios tornam-se duros, o olhar de mármore. Evangeline recupera a postura que denoto arrogante, além de esplêndida.
- A verdade.
- Comecemos pelo homem de pedra.

terça-feira, junho 28, 2005

Quando escrevo

Quando escrevo sinto uma suave vibração interior, a sweet humming sound, like a slow, lazy bee – or bumblebee.
Um doce embalo, hummmm, com o ême alongado. E dá-me prazer, difuso, mas constante.
Um abafado murmúrio. Um sonar que me atravessa e devolvo à fonte.
Ou talvez esse murmúrio seja a Fonte.
Habitada pela fonte – enquanto escrevo.
Quando caminhões passam na rua e a vossa casa pulsa ou quando o avião voa por cima das vossas cabeças e o corpo vos estremece – diminuam o volume, baixinho, baixinho. É algo assim, um pálido som, se o som tivesse cor, um som-creme, pastel. Mas menos denso. O décimo de um décimo de um brando tom pastel de azul ou amarelo. Azul. Just a hint of color. A hint. Quase temos de intuir a cor – mas ela está lá; tal como esse suave, doce pulsar, essa mansa vibração também se encontra presente. Enquanto escrevo.

terça-feira, junho 21, 2005

Alguém me sabe dizer onde posso comprar óleo de coco virgem? (Ou seja: não refinado, não tratado.)
(Nas lojas do Celeiro não têm.)

sábado, junho 11, 2005

Reconciliei-me com as vírgulas.

Mas ainda sou indiferente ao ponto e vírgula.

sexta-feira, junho 10, 2005

Escrevi o texto abaixo para este desafio do Escreva!. Ainda podem participar até ao final deste mês :)



O Funeral


Convidaram o senhor Bentley para o funeral do vizinho Tim_booth, velho com as traças (sem desprestígio para as traças), que tencionavam realizar ali para os lados do Lumiar, perto do antigo palacete dos Holstein.
A intenção dos anfitriões (porque funeral sem anfitrião é como um jardim sem rosas. Ou gladíolos) era a de passar a mensagem subtil que, efectivamente, o seu tempo na terra esgotara-se há muito e essa teimosa insistência em conservar-se vivo começava a ser maçadora.
No funeral (não se apresentou ao velório. Deplora-os) o senhor Bentley comportou-se impecavelmente. O motivo era simples: tinha sido drogado pelo empregado do café, ricardomteixeira, que de modo sub-reptício despejara no chazinho de limão o vicodin previamente esmagado em finíssimo pó.
O senhor Bentley navegava por entre as pessoas como se navegasse num mar de algas que lhe embaraçavam os membros e a voz. Mas conseguiu manter os olhos abertos.
Viu Silvino Bastos, sargento reformado da GNR, gajo dos seus noventa anitos, com a pele da cara escura plantada de rugas, e uns arremessos de pêlo no topo do crânio, a estender os braços para os lados e a gabar a vida honrada e de amplas virtudes que Tim_booth levara. Quem o ouvisse julgaria que, de tão puro, o defunto não tinha nunca partido uma unha.
A bajulação ao morto seguiu os trâmites do costume, mas sem choradeiras. O senhor Bentley teve a peculiar intuição que ali todos aqueles aviltantes velhinhos e velhinhas se tinham reconciliado pacificamente com o horizonte da morte e andavam há muito a preparar-se para ela, sendo a comparência no funeral apenas outro ensaio. Ou prelúdio. Porque, a não ser por isso, não se justificaria que saíssem de casa, tendo em conta a sua encolhida saúde. Mas vieram. De andarilho, bengala, muletas, cadeira de rodas, ou apoiados em familiares mais jovens que os amparavam de cada lado, arrastando-se o melhor que podiam para a campa, baixando-se aos tremeliques para pegar num pedaço pequeníssimo de terra e lançarem-no desajeitada mas decididamente à tampa do caixão, já a emprenhar a cova.
O senhor Bentley pensou que se calhar eles estavam mais perto de Deus do que ele e pela primeira vez duvidou da sua Iluminação.
Mas teve pena de não ter conseguido dizer mal da esposa do finado, a CaMiLiNhA, pois certamente seriam palavras memoráveis.



[Continuo obcecada com esta personagem. Não consigo avançar para outras.]
Não fazia ideia que fosse tão difícil.


Se a Igreja Católica não se adequa aos tempos modernos...

quinta-feira, junho 09, 2005

Texto que fiz para participar neste desafio. Só depois é que reparei que o limite eram 100 palavras. Portanto, aqui fica o texto completo.


Branco


A página em branco. A folha em branco. A blank sheet.
Quero escrever coisas que perdurem, inolvidáveis, ou dessa aparência. Desejo que aquilo que eu escrevo seja lembrado. Mas, hoje, lendo textos inesquecíveis de autores inesquecíveis, deparo-me com a minha inépcia para pensar num tema e falar sobre ele.
A folha em branco é predadora. Um leão que, sob a cobertura da vegetação, se aproxima, passo a passo, das minhas crias – as palavras – e as come, uma a uma, antes que eu dê por isso, antes que consiga fugir e pô-las a salvo – talvez num terreno alto e sem plantas, deserto, onde eu e outros possam ver claramente a aproximação furtiva do predador.
Quero escrever e não tenho objecto. Não é justo.
Passo em revista as muitas histórias que alguma vez imaginei. Em nenhuma delas o “branco” se inclui. Branco de quê? De mar? De sol? De convés? De terrorista de arma na mão, fazendo reféns num cruzeiro de luxo?
Não existem uzis brancas.
Ou talvez sim. Desconheço o que se considera “fashion” hoje em dia.
O que é branco além da folha carnívora?
As paredes, interiores, exteriores; a luz, quando nos apanha de frente, sobretudo ao guiar. Cerra-se os olhos, mas aquele luminoso branco permeia as pálpebras como água, luz líquida.
Pedras brancas.
Pombas.
Paz. A Paz é branca.

A folha em branco é um predador carnívoro.
E as palavras são carne.
Carne. Crua. De cruel, de crueza.

segunda-feira, junho 06, 2005

Fui ao médico.
Consulta extarordinária no São José.
Atendeu-me - já nem recordo as horas. Perto das 13h.
Encontrei a mãe de uma amiga minha que também lá foi, mas para um exame aos olhos.
O raio do médico continua a insistir que eu durmo de olhos abertos, daí as feridas. Não passa daquilo. Ok, continuo o mesmo tratamento, menos à noite. Antes de dormir lubrifico os olhos e tapo-os para ter a certeza que eles não se abrem durante a noite!
(Isto, de súbito, parece-me tão ridículo.)

E não é que a minha mãe confirma o sacana do médico? "Sim, é verdade, - diz ela ao meu pai - ela dorme com os olhos abertos. Uma vez vi."

Bom, parece que o diagnóstico está definitivamente feito. Mas, por via das dúvidas, vou a um particular à noite.

domingo, junho 05, 2005

Malta do México, da Noruega e agora da Colômbia anda a visitar muito o meu blog, nomeadamente este arquivo em particular. Ou melhor: é sempre esse o arquivo que visitam. Em direct hit. Sem busca no Google. Eu sou um bocado paranóica, mas por vezes considero que a paranóia se justifica. Sometimes they are really out to get you. Agora porquê é que eu desconheço.
Quer dizer... acho que sei o motivo de Tanto interesse. Talvez seja este vídeo de um ovni...

Que eu tirei do site para-normal.com (nos links). E que há uma data de meses está em baixo.
Ou não funciona.
Ou foi descontinuado.
Ou descontinuaram-no.
Sei lá.

Mas acho interessante a proveniência dos hits, os países...

Tenho de deixar de ver filmes americanos, não é?
Mas... podiam fazer-me um favor? Baixem o vídeo e ponham-no no vosso servidor e depois digam-me se andam a ter visitantes a mais de países como o México, a Noruega e a Colômbia. Ou, se não tiverem servidor, podem fazer hot-link.

Quanto aos meus olhos... pelo menos não estão a piorar. Amanhã vou ao médico: duas vezes. De manhã e à noite.

Já tentei visualizar-me com bengalinha de invisual e penso que não é um estilo que me ficaria bem.
Não, nada bem.

A escrita... ai, ai... há quanto tempo é que eu não escrevo? Too long. Mas não sigam os meus péssimos exemplos, windos! Visitem o Escreva! e participem nos novos desafios ou votem nos terminados!

quarta-feira, junho 01, 2005

Estou com muito medo de perder a vista. Esta porcaria não melhora. Fui às urgências. Receitaram-me outro medicamentos, para tomar além dos que eu já faço. Recomendaram-me que falasse com o meu médico. Pois, mas só consigo falar com ele dia 6. Até lá isto piora ainda mais.
Por isso recorro a um velho estratagema português: a cunha.
Um amigo do marido da minha prima é oftalmologista. Ela vai pedir ao marido para falar com o amigo.

Merda para isto.

E depois, a minha opinião, nunca é ouvida pelos médicos. Hoje falavam uns com os outros e não me explicavam o que diziam.
Se eu perder a vista depois peço-lhes a deles emprestada?
Melhorou e depois piorou, nomeadamente o olho esquerdo. Eu já não percebo nada disto. O raio dos médicos não se entendem. Porque é que esta merda não melhora?
Vou ter de ir às urgências outra vez.

domingo, maio 29, 2005

Pior.
Fui às urgências do São José.
Como é Domingo foi rápido.
Aparentemente o meu caso é "atípico", bacteriano e viral.
Já fui à farmácia e já coloquei a nova pomada nos olhos.


Vamos lá a ver se é desta.

sábado, maio 28, 2005

Fonte: através dos espelhos. (Cuja fonte foi: Dona Ema.)

"Sempre que no Parlamento se levanta a voz plangente dum ministro, pedindo que cresça a bolsa do fisco e se cubra de impostos a fazenda do pobre, para salvação económica da pátria, há agitações, receios, temores, inquietações, oposições terríveis, descontentamentos incuráveis. O povo vê passar tudo, indiferente, e atende ao movimento da nossa política, da nossa economia, da nossa instrução, com a mesma sonolenta indiferença e estéril desleixo com que atenderia à história que lhe contassem das guerras exterminadoras duma antiga república perdida.(...)

Temos um déficit de 5.000 contos. Esta é a negra, a terrível, a assustadora verdade. Quem o promoveu? Quem o criou? De que desperdícios incalculáveis se formou? Como cresceu? Quem o alarga? É o governo? Foram estes homens que combatem, foram aqueles que defendem, foram aqueles que estão mudos? Não. Não foi ninguém. Foram as necessidades, as incúrias consecutivas, os maus métodos consolidados, a péssima administração de todos, o desperdício de todos. Depois, as necessidades da vida moderna, de terrível dispêndio para as nações. Como na vida particular, cresceram as superfluidades, o vão luxo, o aparato consumidor, mais precisões, mais gastos, a vida internacional tornou-se tão cara que mais ou menos todas as nações estão esfomeadas e magras.(...)

O déficit tornou-se um vício nacional, profundamente arraigado, indissoluvelmente preso ao solo, como uma lepra incurável."

Eça de Queiroz, 1867

domingo, maio 22, 2005

Esta Merda da Infecção Nos Olhos NÃO HÁ MEIO DE DESAPARECER!

Eu já estou a entrar em paranóia!

Isto estava quase curado e hoje vejo que o olho esquerdo está muito vermelho e uma ferida na córnea reapareceu!

Raiva, raiva, raivaaaaa!!!!!!!

Segui a porra do tratamento todo como deve ser!
Porque é que esta merda não cura, porquê?!?!?!?!??!?!?!?!?!?!?!?!!??!

quinta-feira, maio 19, 2005

Numa destas noites sonhei com o novo Papa, todo vestido de branco e com aquela, hum, "bengala" retorcida que os Papas têm (não me lembro do nome). Ele entregava-me ou dava-me a ler uma folha, mas não me lembro do que estava escrito.
Sei que não gostava dele, já não me lembro qual a sensação exacta que ele me provocou no sonho, mas a minha atitude quando ele me abordou foi mais ou menos assim:

- "Mas o que é que este quer?!"

Tenho de começar a escrever detalhadamente os meus sonhos. Esqueço praí 90 por cento do que sonhei. Por exemplo sonhei com um primo meu, mas já não me lembro quando. E ontem soube que ele teve um acidente de trabalho :((
Tipo, não foi um sonho premonitório nem nada do estilo, foi apenas a imagem dele, sem nenhum sentimento a acompanhá-la.
Mas coisas deste género (ou melhor - este tipo de sonhos) andam a acontecer as vezes suficientes para eu notar - o que é esquisito, porque inédito.
Não é premonitório - é do género: sonho com alguém e semanas depois tenho notícias desse alguém.

E ando, eu própria, a ficar muito agressiva, verbalmente, nos sonhos.

Outro dia li que os sonhos são a nossa ligação ao espiritual, a porta pela qual lembramos a verdade, o sítio de onde viemos.

Bom, ver se amanhã escrevo o que sonhei.

Porque pode-me ser útil, mais tarde, não só para isto, mas para construir um mundo onírico, para fazer um romance mais ou menos baseado nisso.
Pensei nisto muitas vezes, mas acho que ainda não tenho sonhos suficientes (porque esqueço-me de anotar a maior parte).

quarta-feira, maio 18, 2005

terça-feira, maio 17, 2005

É por causa disto que cada vez mais eu começo a acreditar na lei do Karma.

É que, doutra maneira, a vida não faz sentido.

A vida sem verdadeira justiça não faz sentido.

Estarmos vivos não faz sentido nenhum. Porque se o dinheiro compra tudo e os pobres é que se lixam sempre - porque raio estamos aqui? Somente para sofrer? Não pode ser. Tem de haver mais, muito mais. Tem de haver um verdadeiro equilíbrio.

Tem de haver uma justiça que transcende os homens. E seja realmente cega. E nunca cometa enganos.

segunda-feira, maio 16, 2005

Capítulo 6 d'A Imortalidade

Sou pela intuição, acredito nas tramas invisíveis, insensíveis aos factos materiais, que nos avisam, nos aconselham sobre o caminho a seguir. Muito mal teria sofrido se tivesse entregue o juízo unicamente aos factos, quantas patadas da vida não teria apanhado.
Decido confiar no meu coração e volto-me para nunca mais retornar. Não me importa que esteja ali, presa. É um monstro e apenas a esse facto darei atenção.
Oiço-a lançar-se contra as barras, agarrá-las e depois, quase a gritar, dizer-me:
- Vais para casa! Fazer a comida ao maridinho! Escrava! ESCRAVA!
Estaco. Encaro o túnel de costas voltadas para ela.
- Limpar as ceroulas, varrer o chão, lavar as janelas! Acender a lareira. Oh, o fogão. E fazer-lhe bacalhau com batatas. Até morreres. Escrava!
- A mim quem me parece privada da liberdade és tu – replico, virando-me, lenta e surpreendentemente sem medo.
- Acreditas? Sou livre.
Revivo a última lida da casa, o cheiro do pó a picar-me o nariz, os vapores da roupa que passei a ferro a subirem-me para a cara, o odor e a textura húmida da roupa acabada de sair da máquina de lavar e o peso que carrego nos braços para a pôr no estendal; as pequenas partículas do Pronto a elanguescerem no ar quando pressiono a lata ao pé dos móveis. Tudo isso se abate sobre mim numa mistura de cheiros quotidianos, rotineiros. Cheiros que poucas vezes o meu marido sentiu, a não ser como espectador ou como aquele que usufrui do trabalho alheio. Ele pouco faz lá por casa, a não ser lavar a loiça em raras ocasiões, sobretudo quando há visitas. A desculpa do trabalho por turnos, que tem de ir dormir, está sempre presente. E eu, com o benefício de trabalhar perto de casa, indo a pé para o emprego, nem sei o cansaço que os transportes provocam. Sim, sou escrava de facto. Mas a culpa é minha. Podia obrigá-lo, fazer greve de tarefas domésticas e ele que se arranjasse. Mas abomino conflitos, prefiro perder as vantagens da assertividade e da autoridade aos benefícios de me fingir de forma constante um ser de temperamento forte. Por isso deixo que ele reine e ganhe a maioria das discussões.
Amo o meu marido, mas ele nunca me compreendeu totalmente.
Há uma parte de mim secreta, obscura, que guardo dos seus olhos analíticos, a parte que sente atracção pelo abismo, que pensa como seria abrir-me às trevas. Abrir-me à noite e à escuridão. Não posso ter este género de conversas com ele. Não as percebe. É demasiado céptico, superando-me. Morrerá uma criatura perfeitamente racional. Sim, sou escrava. Não dele, mas dos meus medos: o medo de sucumbir ao lado escuro de mim e o medo da mudança.
Apercebo-me que ela me olha interrogativa e ansiosa.

Continua.

quinta-feira, maio 12, 2005

Ok, esta é uma pergunta um bocado totó, mas aqui vai:

- eu tenho o speed on da netcabo. Há montes de tempo que nem vejo os consumos, nem vale a pena, gasto muito pouco. Por exemplo, este mês gastei pouco mais de 200 megas no internacional (que é aquele que mais nos preococupa, não é?). Estive a ver a página da netcabo e vi aquilo mal ou... da 1h às 7h da manhã os consumos não são contabilizados? É uma happy-hour permanente?

Digam qualquer coisa, plize.



Nota: esqueçam. Já percebi (isto ainda funciona a carvão :p)
IMI, o terrível.

A ler.

Qualquer dia parece-me que haverá outra revolução porque a malta não aguenta ser f*dida todos os dias.

quarta-feira, maio 11, 2005

A minha participação para este desafio.

"Neste poema terá de começar cada verso com uma letra do nosso abecedário seguindo a ordem do mesmo."


Zulmira

Antes que o sol venha pôr-se no teu colo
Bebo o moribundo calor do Verão
Cansei-me de tudo isto
Das esperas fúteis, das zangas
Ele, o antigo amante, que te ature e
Fique contigo
Gastei a paciência
Hoje é o último dia em que estamos juntos
Infiel
Já vais? Fica mais um pouco, vá
Lá
Mais um pouco
Não me deixes sozinho com as memórias amargas
Olha para mim. Tens certeza que queres voltar
Para ele?
Quanto te ama, pergunto. Mais do que eu? Duvido
Ridículo
Sim
Tu fazes-me ridículo
Usaste-me sem
Vergonha. Esse gajo, o
Xavier, que não se fie porque tu
Zulmira, tens um rosto que espalha terra-queimada ao seu redor
Os brasileiros, que descobriram isto dos blogs primeiro, e que abrasileiram todas as palavras que lhes aparecem à frente, a começar pelas inglesas, chamam aos blogs BLOGS.

Nós é que tivémos de inventar o Blogue.


Quer dizer, somos atrasados e snobes.
(Ou será snobues?)

Mais dia menos dia lá estará a puta da palavra no dicionário.
Eu é que nunca a vou usar.
Bonito, o tipo.

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segunda-feira, maio 09, 2005

Estou com fome de livros.
Livros como os de Anita Brookner (recomendo vivamente dois dos que li dela: Hotel du Lac e Uma Amiga de Inglaterra).

Cada vez que leio um livro, penso: quando for grande quero escrever assim.

Tenho fome de livros.
De esganar.

Mas daqueles que se dedicam às personagens. Que as dissecam e as expõem para nós, leitores.


"És um barco vazio que me arrasta..." - Mafalda Veiga.

sexta-feira, maio 06, 2005

Eu acho que gosto mais de estórias do que de História; acho que me interessam mais as histórias que acontecem dentro da História.

É a parte humana que me interessa.
É o Porquê e o Como.
Escrevi o texto abaixo para participar neste desafio do Escreva!

[Não consigo esperar até ao fim para o tornar público.]


O SENHOR PIMENTA

Dia 1

O senhor Pimenta não é um homem apaixonado – é um homem sereno. Hoje, por exemplo, sentou-se no banco do jardim para onde os velhos se exilam (ou para onde os afugentam) e serenamente contemplando o instante no momento em que o era, o segundo no momento em que se fazia (e não em que passava, porque passando deixara de o ser), a vida em todas as suas manifestações no momento em que se manifestava (nem antes nem depois), não se apercebeu que os pombos o usavam como poleiro.
Se ele se deixa ficar ali a noite toda – porque não quer incomodar os pombos – é comum que eles se aconcheguem nas dobras do sobretudo ou perto do pescoço, no interior das abas. De modo que toda a noite o senhor Pimenta escuta um cruu-cruu ininterrupto. Como os pombos já o conhecem mesmo quando passeia, contemplando a vida dessa maneira, mesmo assim os pássaros se congregam à sua volta, seguem-no discretamente.
Hoje, daqui da minha janela, vejo que ficou outra vez ali a noite toda, mas parece-me que são os pombos que o guardam a ele e não o contrário. Porque o senhor Pimenta é um homem Bom. E a bondade vitimiza. A bondade magoa os outros que arranjam maneira de, ressentidos, remeter essa dor a quem lha provoca – fisicamente. Por isso os bons são apedrejados, cuspidos, mortos, insultados. Mas nunca nada de mau sucedeu ao senhor Pimenta. Como se uma capa invisível o envolvesse. Cá para mim são os pombos, são os pombos os anjos que o protegem.
E nunca o vi oferecer-lhes milho.

Dia 2

Hoje vi-o comer algo que tirava de um saco de papel pardo. Fui buscar os binóculos (porque, ao contrário dele, não posso dizer que tenha serenidade e tudo me preocupa, tudo me atiça o interesse). Vi que era milho.
Talvez se queira transfigurar em pombo. Talvez julgue os pombos como os verdadeiros, e incógnitos, budas.

Dia 3

Na Praça, enquanto fazia as compras, observei o senhor Pimenta contemplando de rosto vazio a superfície das águas do rio. Estive ali muito tempo, até a feira terminar, até o sol se pôr – mas não cheguei a vê-lo a andar sobre as águas. Desiludida, retornei a casa e fiz uma canja de galinha, que o meu marido odeia, mas a contemplação (nada serena) do sereno homem que contempla desorganizou-me o dia.

Dia 4

Hoje, pela janela, avistei uma coisa muito estranha. Os pombos empoleirados no ar, em nada. Mas este nada tinha a forma de um sobretudo, de um homem num sobretudo. Era de noite. Talvez eu tivesse sonhado. Quem sabe. Porque de manhã não vi lá coisa nenhuma – nem pombos, nem invisíveis sobretudos. Apenas o jardim vazio de aves.
Tive a intuição pavorosa de que não o tornaria a rever.

Dia 5

Mas de manhã vi-o a pairar do outro lado da janela, seguro pelo bico dos pombos que o amparavam da queda (certamente fatal, mesmo para um homem iluminado) prendendo cada um uma parte do sobretudo. O seu rosto vazio permaneceu vazio, mas aquela mão a acenar-me o adeus enquanto se afastava de costas para cima, para o céu, foi como um sorriso – um sorriso permanente que eu transporto comigo quando vou, por exemplo, para o jardim sentar-me um pouco.

quinta-feira, maio 05, 2005

2 gigas no gmail, fooooge.

E o Brad Pitt ali em baixo... tããããã giro!
*baba*
Este gajo é que faz um Bem à vista :D

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Esta merda melhorou desde ontem.
Já estava a ficar com medo de perder a vista.

Bom, agora é seguir o tratamento e ir de novo ao São José 2ª feira.

quarta-feira, maio 04, 2005

terça-feira, maio 03, 2005

Um dos possíveis efeitos secundários dos pingos que ando a pôr nos olhos para ver se me livro da porcaria da infecção:

- ataque cardíaco.

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Quer-se dizer... morro curada, né...?
Ai meus ricos olhinhos.
Esta porcaria está pior.
Vou ao médico outra vez hoje.
Mal consigo suportar a luz, começo logo a lacrimejar.